O que você tem a perder?

Estava eu, vivendo minha vida, totalmente focada em mim e nas minhas vontades, numa fase que eu chamo de Não Tenho Nada A Perder. Como a lição presente no filme “Sim, senhor” do Jim Carrey, você passa a dizer sim para todas as coisas porque simplesmente não tem o que perder com elas. Porque, na verdade, se pararmos pra pensar, metade das nossas escolhas quando são negativas são movidas pelo medo. Medo de não gostar, medo de se apegar, medo de perder, medo de se envolver, medo de arriscar. Puro e declarado medo. É mais seguro negarmos o novo e ficarmos com o que já conhecemos, o que já sabemos que é bom. Mas é justamente aí que mora o perigo. É como eu sempre digo “Você nunca vai namorar com quem nunca ficou”. Muitas vezes, desperdiçamos as chances com medo de torná-las uma oportunidade. Não condeno quem não quer sair do seu quadrado, afinal, cada um sabe o que lhe é suficiente. Acontece que, pra mim, isso nunca foi. Portanto, essa fase NTNAP foi uma das experiências mais enriquecedoras que tive – e ainda tenho – o prazer de vivenciar.

Em primeiro lugar, você tem que pôr de lado tudo que pensa sobre si mesmo. À medida que crescemos e, à tanto custo aprendemos certas coisas, nos tornamos muito convictos que sejam as melhores. O amadurecimento das ideias é mais um fardo do que uma virtude. Quanto mais certo você se acha, menos explora o lado errado das coisas. Se torna um fanático, ainda que seu “objeto” de idolatria sejam suas próprias opiniões. E o problema do fanatismo é o enaltecimento exacerbado. Colocar o que quer que seja em um pedestal inalcançável. E, sabe, nada é tão certo a ponto de ser imutável. Inclusive, eu também posso estar completamente errada nesse exato minuto. Quem sabe? Mas não vou me aprofundar nessa metalinguagem porque, sinceramente, explodiria algumas cabeças.

A verdade é que independentemente da idade que você tenha hoje, você levou a vida inteira pra ser quem é, não é? Ou seja, você bate no peito pra defender seu ponto de vista, bate o pé pra fazer a sua vontade, e pronuncia coisas do tipo “Mas eu sou assim. Eu sou desse jeito. Eu sempre fui assim.” Que honestamente podem ser consideradas as três maiores mentiras universais.

Primeiro, você é assim o quê? Quem?

Olha, a não ser que você não tenha aprendido nada a sua vida inteira, não tenha colhido uma experiência, não tenha se contradito uma vez sequer, todas as suas emoções e reações são consequências de fatores, pessoas e sentimentos que lhe influenciaram. Logo, é de extrema ignorância se auto intitular inflexível. Como uma parede. Quando você, por ventura, concluir que todos os seus relacionamentos anteriores foram iguais ou que você só pega gente que não presta ou que você não tem sorte na vida, que tal, pensar se você foi igual em todos eles?! Sabe, as pessoas NÃO TEM que te aceitar como você é. Ninguém é obrigado a suportar e conviver com uma parede. E eu também considero muita falta de amor próprio aprender a amar quem sequer se importa em melhorar. Ao longo da vida, naturalmente, você vai ouvir críticas e elogios. Questione-se sobre eles. Reflita. Esqueça essa história de “mas eu sou assim”. Não imponha aceitação aos outros se não tem conhecimento de si mesmo.

Segundo, você é desse jeito como? Por que?

Quando determinamos nossos gostos também nos vemos no impasse de agradar um determinado ciclo e a nós mesmos. Institivamente, o ser humano agrupa-se em “panelinhas”. Como aquelas nossas fases na adolescência, sabe? Ser do rock e usar preto, ser do reggae e usar pulseiras feitas por hippies na praia, e assim vai. O que te fazia diferente do seu ciclo de convivência, te fazia igual a outro. Nesse caso, ser diferente é uma questão relativa. Se pegássemos todos os grupos, absolutamente todos, e dividíssemos pondo-os uns ao lado dos outros, teríamos várias panelinhas iguais entre si e diferentes em relação as outras. Ou seja, inevitavelmente você é produto do meio à qual pertence, seja por opção ou imposição cultural. Obviamente que você não é obrigado a ser o mesmo a vida inteira e, principalmente, o que lhe impuseram. Mas independentemente de quem escolha ser, vai pertencer a algum deles.

Com o tempo nos acostumamos, e nem sequer nos questionamos sobre a adaptação dos nosso gostos, nossa língua, nossos ideais. As coisas fluem naturalmente. Mas e se você tivesse a chance de se zerar? E se você pudesse não ser tudo que pensou ser por apenas um minuto, o que você faria? Talvez, essa seja uma das poucas coisas da vida que não são utopia. Você, de fato, pode. Esqueça essa história de “ser desse jeito”. Por que você é desse jeito? O que te fez ser desse jeito? Você QUER ser desse jeito? Quem disse que você precisa ser quem pensa que é O TEMPO TODO? Quem disse que há qualquer credibilidade em se travar na ferrenha ideia que tem de si mesmo? Comece com uma coisa simples: experimente aceitar a sugestão musical de um colega seu, aparentemente completamente diferente de você. Sabe por que? Porque você não tem nada a perder, e pode gostar.

Terceiro, quem disse que você sempre foi assim?

Não vou mentir que uma das coisas mais confortáveis sobre si mesmo é dizer “Fulana sabe disso, ela me conhece, eu sempre fui assim.” É como se fosse um atestado de veracidade. Como quem diz “fui testada e aprovada, podem confiar”. Mas quem você seria se não houvesse ninguém pra comprovar? Como você provaria pra um estranho que é quem diz ser? Bom, suas atitudes e, não, suas palavras. Mas e se suas atitudes foram adversas ao que prega sua teoria? E se, por ironia, se flagrou dizendo ou fazendo algo do qual nunca imaginou? Você não tem absolutamente nenhuma forma de se defender. Tudo que pode fazer é argumentar com levianas palavras que nunca foi assim e esperar que acreditem. E a famosa ideia de “minha palavra contra sua” é simplesmente uma disputa de egos.

Acontece que o “nunca” e o “ser” caminham lado a lado. Por isso, sempre pagamos pela nossa língua. Ainda bem! Imagine a monotonia que seria a vida se seguíssemos à risca todas as regras que profanamos ao longo da nossa formação. Nós adoramos pagar pela língua, isso é um fato. Daí aquele ditado “nunca diga nunca”. Então, recapitulando, se você não tiver quem comprove quem você é, você nada mais será do que sua própria visão de si mesmo que pode não ter qualquer relação com a interpretação que outra pessoa tem de ti. Deu pra entender? Em outras palavras, o que determina quem você é, são suas atitudes nesse momento, independentemente de qual teoria exista por trás delas. Portanto, você não foi assim sempre. Se tem duas palavras que não podem ser escritas na mesma frase, definitivamente, são o “sempre” e o “ser”.

Não Ter Nada A Perder é se abrir para as oportunidades, simples assim. Se desapegar da ideia que tem de si mesmo, se permitir ser mais do que o estável, o palpável. Você pode, sim, experimentar sentimentos novos sem que isso altere completamente sua essência, seu ponto de vista. Sabe, às vezes, mais importante do que sair vencedor em uma discussão é entender o porquê de sua opinião. Como você chegou até ela, o que te faz crer que esteja certo. Porque, uma verdade eu lhe digo: estar certo nem sempre vale a pena. E não tem problema nenhum nisso. O que importa é ser quem você é, o que você quer, o que você puder. Infelizmente, poucas coisas em nossa vida são unicamente nossas. Vivemos em um efeito dominó em que nossas ações tem consequências que afetam, na maioria das vezes, as pessoas ao nosso redor também. Ou seja, pouco do que somos é unicamente controlado por nossa vontade. Já que é assim, você vai mesmo permitir que ditem a sua forma de agir? Você vai mesmo permitir que limitem a sua forma de pensar?

Experimente o novo. Sinta o choque de adrenalina que te faz pulsar. Deixe seu coração batendo forte. Faça planos que não são findáveis. Crie objetivos a curto prazo pra que supere-os todos os dias e a longo prazo pra que lembre-se aonde quer chegar. Entre em discussões que saiba que vai perder. Converse com um estranho na rua. Dê atenção pra quem resolve, do nada, te contar parte de sua vida. Crie vínculos e, não, diálogos. Fale em voz alta o que você pensa. Faça um favor a quem não tem nada a te dar em troca. Descubra porque sente que não vai com a cara de alguém. Dê a cara à tapa. Saia de cima do muro. Aceite estar errado, eventualmente. Questione sua culpa. Perdoe quem ou que não te acrescenta nada hoje em dia. Desfaça-se de seu calendário, você não precisa saber quanto tempo está perdendo enquanto sua vida passa. Aposte em um projeto. Sorria pra um estranho. E não desista do seu verdadeiro sonho. Você não tem nada a perder.

sahsilvany

About Samantha

Editora de conteúdo e redatora do Bendita Cuca!, e colunista para o Isabela Freitas e Superela. E Youtuber nas horas vagas. Sobrevivente da agonizante liberdade de pensar demais. Acredita que todo mundo merece um grande amor para chamar de próprio e escreve para se livrar da loucura completa.

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