O grande amor da vida dela.

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Quando ela o conheceu não deu a ele o nome de amor, mas a todas as coisas que amava passou a chamar como ele. Ela vinha esperando por ele ainda que teimasse em negar. Esperava que ele fosse aquele por quem cumpriria todas as promessas feitas aos outros. Que ele fosse aquele que lhe faria sentir a insensatez e o exagero de um olhar apaixonado. Que ele fosse aquele por quem abriria mão do que já poderia ter descartado há tempos e mantinha por mero apego. Ela esperava que ele lhe desse uma razão ou simplesmente fosse a recompensa de toda sua vida, e justificasse em seus joelhos tortos todo passo atravessado dos caminhos que se desfez. No fundo, quando o conheceu ela sentiu que foi tudo por ele, por causa dele. E foi, só não como imaginava. Artimanha da sorte ou do medo em fazê-los mais do que um só acaso.

Quando jovens, desfrutaram daquele amor forte o suficiente para ser chamado de único, mas à medida que amadureciam à custa do fardo estendido nos ombros um do outro, descobriam que tudo tinha um prazo de validade. Adultos não podem ser tão inconsequentes ao ponto de serem intensos. Maturidade, por muitas vezes, é também o que faz ruir uma relação por dentro; acumula dúvidas, anseios e expectativas até transbordar em lágrimas e palavras. Mesmo assim, ainda era com ele que ela se via apreciando um bom filme durante uma noite despreocupado. Era para ele que queria sussurrar baixinho promessas sórdidas com as luzes apagadas. Talvez por isso sempre tentavam outra vez. Talvez por ele sempre valesse a pena tentar.

Foram felizes por um tempo, assim como tudo. Nada pode ser eterno, nem mesmo as tentativas. Uma hora, você simplesmente cansa e dar as cartas do jogo. Desiste. Ou morre um pouquinho por dentro a cada dia. Ela tinha certeza que ele era o grande amor da sua vida, ele sabia que ela era só seu primeiro amor. Ela não sentia um calafrio lhe arrepiar a nuca sempre que ele se aproximava, não fantasiava um futuro a dois, nem tinha qualquer sensação notável em relação a ele, mas insistia porque confundia relacionamento com comodismo e amor com teimosa. Na verdade, ela acreditava cada vez menos nesse papo de grande amor ou almas gêmeas ou par perfeito. Tentava se desapegar, esquecer ou sei lá, enganar a saudade. E aos poucos, se via dedicando seu tempo a fazer algo em prol das pessoas, mas não dele. Sobretudo, ela queria tocar o mundo, ser significante, ser alguém, mas não mais para ele. Ela fazia planos, tecia sonhos, mas não mais com ele. Ele não cabia dentro dela e ela não mais queria viver nele.

Depois dele, ela ficou desconsolada – ou traumatizada, como gostava de citar. Jurou de pés juntos que nunca mais se envolveria tanto com alguém e que se não fosse ele, amor mesmo nunca mais haveria de ser. No fundo, torcia para que ele reconhecesse que sua escolha foi um erro. Imaginava que ele voltaria lhe pedindo perdão e mais uma chance, e satisfeito consigo mesma, ensaiava o que lhe responderia até finalmente lhe dizer “sim”. Mas por ironia ou azar, nunca teve a oportunidade. Ele não voltou. E mesmo que tudo voltasse a ser como era, ela nunca mais seria a mesma. Foi meio carente, meio apressada, meio ansiosa com cada cara que se envolveu. Mas não se permitia ser feliz por inteiro, pois achava que ele levava consigo um coração que foi dela.

Quando já não haviam mais lágrimas para secar, sorrisos para distribuir ou lembranças das quais se lamentar, ela descobriu que estava certa o tempo todo. O grande amor da sua vida existia, sim. Estava nítido em cada rosto que buscava a familiaridade de um encontro de almas, ora gêmeas, ora divergentes, contato que representassem a transparência de uma relação. E descobriu que par perfeito era a sua consciência tranquila repousar sob o travesseiro toda noite. Amor não pesava nada, podia levar para onde quer que fosse. Por isso, ela foi terminantemente apaixonada por si mesma. Amou deliberadamente até a quem jamais pôde perdoar. Deixou uma paixão em cada ilha, uma história em cada passo. Se deixou também aos poucos, se perdeu, se desesperou. Viveu tantos primeiros beijos, abraços, delírios quanto  últimos adeus. Experimentou o amargo gosto da derrota até transformar qualquer careta em uma gargalhada histérica. Teve sexos inesquecíveis, conversas conspiratórias e amores descartáveis. Afinal, ninguém devia ter o nome de amor – tampouco grande, pequeno ou passageiro – mas tudo aquilo que amasse devia ter um pouco de si. Ela era o grande amor de sua própria vida, e ele, de fato, foi só o primeiro amor dela.

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About Samantha

Editora de conteúdo e redatora do Bendita Cuca!, e colunista para o Isabela Freitas e Superela. E Youtuber nas horas vagas. Sobrevivente da agonizante liberdade de pensar demais. Acredita que todo mundo merece um grande amor para chamar de próprio e escreve para se livrar da loucura completa.

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