Não me chame de amor.

Não me chame de amor, você mal conhece as minhas crises, meus deslizes.

E não pense que por meia dúzia de encontros tem esse direito.

Não me ofenda com a leviandade de suas promessas, tão certas, tão sãs.

Não me diga que pesou suas alternativas e me escolheu; não sou contrapeso. Na verdade, eu peso e muito, porque trago comigo todas as pedras de outros amores.

Mas não se preocupe, não descarregaria em você; tenho ciúmes dos meus rancores, tão meus, tão eu.

Não me chame de amor se na próxima esquina confunde minhas coxas.

E me afronta com a insegurança do perdão, do perder.

Não me venha com correntes de esperança; sou livre. E se não for se doar por inteiro, não te aceito nem por um pedaço.

Não me roube as noites de sono, sem dono. Porque se não for acordar ao meu lado, não te quero nem em planos.

Não me chame de amor se não está disposto ao enfadonho dia-dia da tranquila repetência.

E não pense que por demonstrar ciúmes se torna protetor, seguro ou certo.

Não me cale com imatura autoridade da conquista; não sou troféu.

Sou fel, sou mel, sou minha.

Não me castigue com seus traumas, suas rupturas da alma. Já tenho minhas próprias desventuras, minhas conjecturas sobre as quais desdenhar.

Não me chame de amor se ainda não entendeu que “pra sempre” não é perspectiva, mas alternativa.

E se ainda não busca a verdade e se contenta com qualquer cara metade.

Não me deixe a mercê do controle de ponderar seus sentimentos tão bentos quanto irreais.

Não me chame de amor se te ofende a minha loucura, a impaciência e, por vezes, essa minha amargura.

O que eu não tenho é essa coragem egoísta de procurar por vagas tardes quem, talvez, não exista.

Não me chame assim se ainda não sabe a diferença do amor aos vinte e aos setenta. E se orgulha dos poucos anos que empurrou na marra, na manha.

Não me chame de amor se o que te atrai são minhas curvas porque o melhor de mim vão estar nas rugas que o tempo vai me dar.

Não me chame de amor se não for pra viver em êxtase suas têmperas. E não me venha com essa de ser lacaio, nem solidário. Não estou pedindo piedade, nem falsas juras de eternidade.

Apenas, não me chame de amor, se o amor for teu e, não, tão seu, tão meu, tão nosso.

sahsilvany

About Samantha

Editora de conteúdo e redatora do Bendita Cuca!, e colunista para o Isabela Freitas e Superela. E Youtuber nas horas vagas. Sobrevivente da agonizante liberdade de pensar demais. Acredita que todo mundo merece um grande amor para chamar de próprio e escreve para se livrar da loucura completa.

5 thoughts on “Não me chame de amor.

  1. Letícia

    Perfeito!

  2. Amanda

    Já te falei que sou apaixonada pelo seus textos?!Entao…nao para de escrever não ta?!Rs

  3. mika

    Tão lindo, tão perfeito, tão verdadeiro.

  4. Letícia Luz

    Exato, seus textos são perfeitos, parabéns 🙂

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