Mundo de Maria.

Sempre que se fala de pessoas que se dão bem às custas dos outros, seja no lado profissional ou dentre seus relacionamentos pessoais, é muito comum alguém dizer que “você colhe o que você planta” ou “atrai o que transmite” ou “aqui se faz, aqui se paga”. Sempre envolvem carma ou destino e, até mesmo, misticismo. Mas, sendo realistas no ponto mais alto da palavra, não é desse jeito. E não é uma questão de descrença na humanidade; é simplesmente a vida.
Aquela garota que infernizou tanto a vida do casal apaixonado, vai conseguir ficar com ele, ter ele apaixonado por ela e quem sabe até casarão.
Aquele rapaz que passou a perna nos amigos pra ter o mérito em um trabalho e subir de cargo, provavelmente, vai ser diretor.
Aquela amiga que se absteve de tudo para entregar sua vida a um homem que nunca lhe deu valor, vai ser sempre uma sofredora e entender qualquer pequeno gesto de compaixão como uma prova de amor verdadeiro.
Aquela outra que se fazia de sua amiga para se aproximar do seu namorado e conseguir “roubá-lo”, vai engravidar dele e ficarão juntos.
Aquele outro que você detesta por ser puxa-saco do chefe, vai sim, ser protegido de ser demitido.
A verdade é essa. A vida é essa; tem pessoas que tem sorte em conseguir uma oportunidade, tem pessoas que merecem a oportunidade e tem pessoas que merecem e nunca tem sorte, assim como, tem pessoas que merecem e criam as oportunidades.
Mas, eu sei, não é algo que você quer ouvir, tampouco ver. Ninguém quer se imaginar em um mundo que não exista justiça, mas se a justiça realmente fosse feita, nem todos que se acham bons seriam recompensados, certo?
A questão é que não existe uma escala moral de maldade pra determinar o que pior pode ser feito por alguém, de modo que, quem faz uma maldade daquelas bem pequenininhas está no mesmo patamar de quem passa a vida fazendo maldades. E não adianta tentar se justificar mediante isso; o que você fez foi algo pouco significativo para você, mas alguém viu isso como um delito imperdoável e virse-versa. É tudo uma questão de ponto de vista e não há ninguém bom ou perfeito o suficiente pra poder delimitar qual seria a menor maldade e a maior e impô-la ao mundo. É por isso, então, que as pessoas se atêm a crenças de que há um certo tipo de justiça divina e se elas forem boas, vão ser recompensadas com bondade e se forem más, com maldade. Porque, na verdade, isso é bem reconfortante!
De certa forma, nada disso passa de uma maneira de nos adestrar. É como se não fôssemos capazes de discernir o certo do errado e alguém precisasse nos guiar, assim como, os ex drogados, ex presidiários e todos os ex que acabam se convertendo.
Veja bem, não estou maldizendo as religiões. De fato, não há ideologia melhor pra exemplificar o que eu estou dizendo! A religião, seja ela qual for, ou até mesmo, a simples crença em Deus ou em um ser superior, prega que temos de ser bons para ter nosso lugar no céu e que se formos ruins, seremos castigados. Em contra partida, algumas alegam que somos inteiramente bons e tudo de ruim que fazemos é “obra do diabo”, mesmo que, simultaneamente, também sejamos inteiramente ruins e tudo de bom que fazemos é “obra de deus”. Ou seja, somos fantoches em alguma guerra celestial! O que é importante ressaltar é que esse é o senso moral de bondade x maldade que nos é imposto, como quando uma mãe cria histórias para justificar que seu filho não faça tal coisa.
Talvez, Maria tenha sido uma dona de casa exausta com uma criança que lhe tirava o juízo e precisava encontrar uma forma de fazer aquele menino ser bom ou, quem sabe, comer verduras. Talvez, o menino de Maria tenha sido Jesus que impressionado com todas as historias da mãe sobre existir alguém que iria lhe recompensar com todos os brinquedos do mundo, caso obedecesse-a, e outro alguém que iria castigá-lo com chicotadas se fosse mal educado, tenha repassado as histórias adiante com veemência.
Agora mesmo, consigo lembrar de minha mãe que dizia para eu não dar lingua porque se um anjo passasse, eu ficaria paralisada e que se eu não comesse tudo, o homem do saco viria me pegar. Coincidentemente, minha mãe também é Maria. Mal de Maria.
Esse pode ter sido o princípio de tudo. Mas, obviamente, você não tem porquê acreditar já que está muito bem adestrado conformado com as outras histórias que persistem há anos. O tempo as fez verdadeiras.
No entanto, há outro pequeno detalhe que faz tantas histórias tornarem-se verdadeiras; o condicionamento.
Vamos supor que seu melhor amigo de infância e, indiretamente, também concorrente na empresa em que trabalham tenha conseguido a promoção pela qual você trabalhou tanto quanto ou mais que ele.
O seu real sentimento sobre isso seria raiva, despeito, inveja. Você merecia aquela promoção! Você trabalhou muito para ela.
Acontece que, em algum lugar, no “manual do bom amigo” lhe disseram que você não poderia ser um bom amigo para alguém se deixasse que sentimentos como esse (natural competitividade humana) tomassem conta de você. Ou seja, desde que se entende por gente você é condicionado a ficar feliz pelos outros, ainda que, lá no fundo, em um lugar que ninguém saiba que exista, você não sinta-se feliz. Entretanto, a medida que o tempo passa e você busca olhar os pontos positivos, como, por exemplo; ele também trabalhou muito, ele também mereceu e ele também se esforçaria pra ficar feliz por você, esse condicionamento se torna cada vez mais natural. Talvez, chegando ao ponto de você negar todo e qualquer sentimento de despeito que possa ter.
Essa, definitivamente, é a melhor maneira de viver. Condicionar-se a ser bom e ver o bem tem suas vantagens. É assim que você experimenta o sentimento de prazer em ver os outros felizes, não tanto pelos outros como você pensa, mas por ser alguém que torce e vibra ainda que não seja parte da conquista.
O condicionamento, para alguns, tem que representar mais do que a paz de espírito, tem que ter um motivo a mais, uma causa. Sendo assim, fica muito melhor quando a gente pensa que vai ser recompensado por isso (como um cachorrinho quando aprende a deitar e rolar e ganha um biscoito) e que vai ser castigado caso não aja assim.
Resumindo: aqui se faz, aqui se paga? Não. Mas não deixe que descubram isso e lhes tire os poucos motivos que veem de fazer o bem. Nunca deixe que descubram que para o bem não há recompensa e nem para o mal há martírio. Algumas pessoas realmente precisam desses limites para viver; eu mesma mal posso esperar para ter meu filho e lhe contar todas as lições morais para que ele crie sendo do bem. Quando eu for mãe, também vou ser uma Maria.
Porque, apesar de todos questionamentos, tudo que eu quero no final do dia é dormir com a consciência tranquila de que “sou uma boa pessoa” e “sigo no caminho do bem”. Verdade ou não, o que realmente importa é sentir-se em paz.

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sahsilvany

About Samantha

Editora de conteúdo e redatora do Bendita Cuca!, e colunista para o Isabela Freitas e Superela. E Youtuber nas horas vagas. Sobrevivente da agonizante liberdade de pensar demais. Acredita que todo mundo merece um grande amor para chamar de próprio e escreve para se livrar da loucura completa.

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