Você trai.

Resolvi escrever. Os pensamentos me cercam. Palavras formam frases na minha cabeça. E essas frases, hoje, são de repúdio.
Repúdio da palavra vista do modo mais autêntico e genuíno. Com o mais descarado e cínico significado: TRAIÇÃO.
A incapacidade de ser fiel a uma única pessoa, a si ou para com outros. E ainda, a negação aos seus próprios valores. Enganar e mentir para os outros. E para si.
Porque? Porque somos covardes, traidores e hipócritas.
Se trai no ato, trai. Se trai no pensamento, trai da mesma forma.
Você trai aos outros e a si, falando que ama sua rotina de trabalho. Que adora lavar e passar roupas para toda a família, sem ajuda e sem sequer receber algum elogio.
Reclama que não acha um parceiro pra vida, mas só expõe sua frágil, fugaz e passageira aparência. Aquela que, infelizmente, mesmo que para alguns, só por algum tempo, ainda nos envolve.
Trai dizendo que ama fazer aquela faculdade chata, com aquela matéria chata, com professores chatos e conteúdo chato. Só pra que no final você possa viver com a “realização” de ter ficado rico. Podre de rico. Tão podre, que cheira mal.
Reclama que não tem dinheiro pra fazer aquela viagem tão sonhada, mas gasta três ou quatro centenas de reais naquele camarote de festa “imperdível”.
Trai o outro negando que odeia a falta de carinho que recebe. Renegando a dor da falta de palavras, de vontade, de afeto e amor. Trai a si, aceitando tudo isso.
Trai seu irmão dizendo que gosta da distância que vocês têm. Aquela que os separa.
Se trai pensando em como alguém pode te amar? Se trai pensando que só tem defeitos. Ou, que só tem qualidades. Se trai negando a busca por aquilo que faz seu coração pulsar.
Você mente negando a ida ao médico. O remédio, o vício. Mente para o bem, e para o mal também.
Aclama e jura amor aos 10 mandamentos. Mas não honra e não respeita, pai, nem mãe, nem seu parceiro(a). Vai à igreja pra rezar o terço inteiro. As tantas CINQUENTA E NOVE rezas decoradas que saem da nossa boca da mesma forma que saem as venenosas e ácidas fofocas. “Perdoai as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”. Soa lindo, se não fosse falso e vazio.
Sente dó das pessoas que não tem roupa pra usar, mas tem um armário esturricado de roupas e sente o mesmo dó por ter que se desfazer delas.
Sem saber, ou até sabendo, se sente bem mentindo, renegando, se automutilando. Ou como forma de defesa, mutilando alguém.
Ignorando e vivendo alheio a sua real vontade de viver.
Sinto-lhe dizer, mas você trai. Nós todos traímos e erramos.
Traímos nossos amigos, nossos pais, nossos amores, dores e temores. Traímos nossas concepções, princípios e valores. Traímos a nós mesmos antes de qualquer coisa.
Algum dia, e de alguma forma, você trai.
Trai, já traiu, e ainda trairá o que há de mais importante, a sua VIDA.

Julia1 Sebastiny

julia

About Júlia Sebastiany Alves

Júlia Sebastiany Alves, 20 anos, gaúcha do interior do estado, estudante de estética e cosmética, mas futura estudante de história, jornalismo e mais mil cursos de faculdade. Conhecimento e curiosidade quase substituem o ar puro da cidadezinha arborizada que vivo. Não gosto de rótulos, por isso prefiro dizer que por enquanto continuo amando gatos pretos e cachorros de porte grande. Mas também de gatos brancos e cachorros "pequerruchos". Gosto de viajar, com mochila nas costas e com espírito de sagitariana, como sempre. Gosto ainda mais de viajar na mente, de catar opiniões, de saciar a fome de minhas incógnitas e das incógnitas alheias. Nem sei quem sou, meu bem. Já fui loira, morena, e agora sou ruiva. Como vou me definir se nem a cor do cabelo eu não consigo escolher? Por isso, ​sigo dizendo o que Raulzito dizia: prefiro ser essa metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo.

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