O nome disso não é amor.

A melhor parte de falar sobre relacionamento é definitivamente a possibilidade de conversar com qualquer pessoa sobre o assunto. É, sem dúvidas, um tema unânime. Todo mundo tem uma história de amor pra contar ou que chega o mais perto possível disso. Eu mesma adoro contar enaltecendo as partes boas, levando a emoção ao ápice e depois soltando a bomba que descarrilou o trem. A verdade é que eu tenho preguiça de falar sobre minhas desventuras amorosas que, até recentemente, não eram grande coisa, por sinal. Então, eu deixo a história mais “comercial” e empolgante pra pelo menos me divertir com a cara de espanto do ouvinte. Ok, mentir é feio, eu sei. Mas, se serve de consolo, eu também minto sobre a história das minhas tatuagens pra estranhos só pra ver a reação deles. Gente, desculpa, mas levar a vida a sério demais não é comigo. Não mesmo. Tudo que eu sei sobre a vida aprendi com o Tiririca.

No entanto, esses dias me peguei pensando o que leva uma pessoa a ser por anos apaixonada por outra. Quando estão envolvidos, seja em um relacionamento sério, aberto, de pura comodidade ou sacanagem explícita não são precisas tantas explicações. Claro que há casos da paixão ainda ser injustificada devido a forma como se tratam ou a quantidade de barbaridade que já lhes aconteceram. Mas, tudo bem, isso é mais uma questão de amor-próprio e, como o próprio nome já diz, cada um com o seu. Ou com a falta dele. De qualquer forma, mesmo em uma relação mal estruturada e submissa o fato deles continuarem “se vendo” e mantendo contato faz com que alimente o sentimento – ou o conformismo – de modo que realmente fica muito mais difícil se desapegar. Sem falar que é muito mais fácil você se moldar ou se adaptar a quem você já está – e já conhece o máximo de fases da lua possíveis – do que aprender a lidar com outra pessoa. Ou seja, por preguiça ou covardia muitos casos desastrosos são mantidos. POR ANOS. Mas e quanto aquelas pessoas que não estão mais envolvidas?

Tudo bem que estar apaixonado é como enfiar o pé na jaca dentro de um poço e cortar a corda do resgate. Fato. Mas nem sempre a paixão é algo tão avassaladora e incontrolável como os filmes de comédia romântica da sessão da tarde querem nos fazer acreditar. Ela é naturalmente composta de fases, assim como tudo na vida. Aceite. O que quer dizer que há, sim, aquela fase da irracionalidade, do amor platônico, do topo-tudo-por-beijo, mas ela passa. E quando ela passa, de duas, uma: 1) se torna um amor sereno, em que você quer o bem do outro, ainda que não seja ao seu lado, 2) se torna uma dependência.

Claro que quando falamos de pessoas normais, não dá pra apostar nem um big-big que logo de cara toda aquela paixão vibrante vai se transformar em um complacente amor de final de novela mexicana. É óbvio que não. Mas é de se esperar que o coração se acalme aos poucos e a vida siga seu rumo normalmente. O que quer dizer que você começaria não lembrando dele todos os dias, depois todas as semanas, depois em todos os locais, depois porque ria das suas piadas, depois porque ficaram juntos tanto tempo e por fim, dele próprio. E aí então você vai achar que NUNCA gostou dele de verdade, que foi tudo coisa da sua cabeça, até quando vir outro que te fará sentir a mesma pontada no peito. E assim suscetivelmente até o fim dos tempos. Ou pelo tempo que durar a propaganda eleitoral gratuita. (Não aguento mais!!!)

O verdadeiro problema para aqueles em que a dependência perdura se tornando parte de sua personalidade é simplesmente a memória. A memória mantém o passado vivo, porque ela pensa que sem ele não seria nada. O pior é que, ainda por cima, projeta as boas lembranças que viveram no futuro a fim de torná-lo uma recompensa pra justificar todos os impensados e insanos caminhos que opta agora, no presente. Deu pra entender como isso funciona em um efeito dominó? Nós devemos controlar nossa memória e, não, sermos controlados por ela.

A partir do momento que você nutre a esperança de um final feliz baseada na vaga lembrança do passado, sinto muito, mas você é praticamente um esquizofrênico. Acontece que o passado não existe como algo palpável, como algo real. Ele serve apenas pra colecionarmos as experiências das quais precisamos pra fazer melhores escolhas no presente. Por exemplo, já reparou como nem todas as pessoas nos fazem sentir na pele sua perda? Naturalmente, não são todos os amigos que você fez ao longo da vida que, de fato, de acompanharão no decorrer dela. Algumas pessoas simplesmente passam, outras ficam. Mas você não tem como determinar quem vai e quem fica. É muito simples: uma relação não pode ser sustentada só por um lado. Ainda que você se esforce ao máximo pra manter aqueles que tem um carinho enorme por perto, se eles não estiverem se esforçando tanto quanto ou mais que você, simplesmente o tempo se encarregará te torna-los uma saudade. Ninguém consegue suportar o peso de duas vidas em uma costa só. Isso não quer dizer que você tornou-se indiferente a elas, afinal, sempre vão existir pessoas especiais e importantes. Entretanto, o que você deve manter vivo é o carinho e a consideração e, não, o passado.

Ainda que você se lembre como se fosse ontem do último beijo, a última declaração de amor, daquele dia em que foi tudo perfeito, do quanto era lindo a forma como ele ria pela manhã, de quão bem a música de vocês te fazia sentir… Nada disso existe. Esse sentimento que você pensa ter por ele, simplesmente, não é real. Você nutre paixão por alguém que, muito provavelmente, não é sequer a mesma pessoa pela qual você se apaixonou um dia. Você ama um fantasma do seu passado.

Admitir que você não tem razões atuais pra estar apaixonada, supondo que já tenha algum tempo que vocês não se envolvam, é o primeiro passo. Ajuda, inclusive, fazer uma lista de motivos ou sei lá, falar em voz alta. E toda vez que pronunciar um verbo no pretérito, vai saber que não está se referindo a algo REAL. Assumir o controle da sua mente é, sobretudo, tomar as rédeas da sua própria vida. Não seja marionete de suas próprias lembranças, a saudade também pode ser traiçoeira.

sahsilvany

About Samantha

Editora de conteúdo e redatora do Bendita Cuca!, e colunista para o Isabela Freitas e Superela. E Youtuber nas horas vagas. Sobrevivente da agonizante liberdade de pensar demais. Acredita que todo mundo merece um grande amor para chamar de próprio e escreve para se livrar da loucura completa.

One thought on “O nome disso não é amor.

  1. Brenna Alencar

    Samantha, que poder é esse que você tem de escrever exatamente o que eu estava precisando ler? Adorei muito!! Parabéns, porque isso que você tem é um dom. Você manda muito escrevendo… Beijos!

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