“Nós”, David Nicholls

nós david nicholls jacarandá efeito dos livros usJá tinha ouvido falar de David e seu romance Um Dia que vendeu mais de 400 mil cópias e foi adaptado para o cinema, mas não tinha tanto interesse de lê-lo até seu livro lançado há pouco aqui no Brasil chamado “Nós”. A capa daquele livro me chamou atenção, e eu precisei dele. Foi simples assim. Eu nem sequer li a sinopse antes de me envolver com a história. Mergulhei no desconhecido, tentando descobrir em que ponto seria o clímax, qual o enredo principal e se eu devia me preocupar com a morte de algum personagem. Eu tenho um certo preconceito com romances que abordam a morte. Tenho um longo discurso sobre isso, mas vou resumir em: acho apelativo. Ponto. Portanto, já esperava uma situação clichê e mela-cueca, e mesmo assim fui em frente. Fui completamente surpreendida, e fiquei apaixonada.

Quem narra a história é Douglas Petersen, uma espécie de anti-herói da terceira idade. Cientista, metódico e cético. Um personagem tão incrível e bem estruturado que senti um carinho imenso em descobri-lo. Casado com uma artista, Connie, (Uma artista! Opostos não poderiam se atrair mais do que isso) com quem tem um filho de 17 anos, Albie, há mais de vinte anos. Em uma noite qualquer, no meio da madrugada, Connie lhe diz que “acha que eles não dão mais certo” deixando Douglas completamente sem chão, se perguntando aonde errou para que isso acontecesse. Decidido a tentar reconquista-la, ele planeja uma viagem em família em que os três fariam um Grand Tour pela Europa. Obviamente, a viagem é um fiasco graças as suas constantes brigas com o filho (um moleque mimado que é o capeta, na minha opinião) e a intolerância da esposa. Clichê, eu sei.

Por isso, quer um conselho? Ignore a sinopse. Ignore o que eu disse acima. Ignore todos os clichês que já ouviu na vida e leia este livro. Descrito de uma forma sensacional, te faz sentir na pele a dor e o amor que o protagonista sente pela família. Além disso, tem diálogos maravilhosos e, embora para muitos o final possa não ser como esperado, eu não podia desejar um diferente. Foi real. Não pra mim, obviamente. Mas para alguém foi, para alguém é. Todo os dias. Amor mesmo não é aquela paixão adolescente, quente, impulsiva; ele é sereno, ele é o conforto do silêncio. Não é a euforia de corpos nus, mas a segurança de dedos entrelaçados. Amor é entender que nem sempre ter ao lado é sair ganhando. Quem lhe ama, volta. Sempre volta. Mas isso não quer dizer que vai voltar do mesmo jeito. Às vezes, saber a hora de deixar alguém é uma prova maior de amor do que comprovar sua necessidade para ela.

Destaquei as frases que mais me inspiraram:

“…ter poucos inimigos não é o mesmo que ter muitos amigos.”

“Na esperança de soar apaixonado, acabei parecendo desequilibrado.”

“Mas estou contente de ter me distraído e me perdido em tempos mais felizes. Talvez eu esteja dourando a pílula. Estou ciente que os casais tendem a embelezar o folclore de “como nos conhecemos” com todo tipo de detalhes e significados.”

“Sempre me intrigou saber por que se apaixonar devia ser considerado um acontecimento extraordinário, acompanhado por um naipe de cordas em crescendo, quando aquilo tantas vezes acabava em humilhação, desespero ou atos de terrível crueldade. Dada a minha experiência anterior, o tema de Tubarão teria sido mais adequado, ou os violinos de Psicose.”

“Era mesmo estonteante finalmente estar apaixonado. Porque aquela foi a primeira vez, agora eu sei disso. Todo o resto tinha sido um erro de diagnóstico – paixão, obsessão, talvez, mas uma condição completamente diferente desta. Esta foi bem-aventurança, esta foi transformadora.”

“Tendo a pensar que, depois de uma certa idade, nossos gostos, instintos e inclinações endurecem como concreto. Mas eu era jovem ou, ao menos, mais jovem do que sou agora, mais disposto e maleável e, com Connie, eu era uma massa de modelar feliz.”

“A pessoa não pode continua namorando depois de vinte e quatro anos. Não é prático. E quem gostaria de ir a um showzinho atualmente? O que comeríamos, onde nos sentaríamos, e o que faríamos com as mãos?”

“Eu adorava a evidência de sua presença e a promessa de seu retorno, o jeito que ela mudava o cheiro daquele pequeno e sombrio apartamento.”

“Também era óbvio para todo mundo que eu a amava em um grau extremamente ridículo, embora a devoção nem sempre seja uma característica atraente, como eu já sabia por experiência própria.”

“…inicialmente, ela valorizava as inúmeras diferenças entre nós – arte e ciência, sensibilidade e bom senso – porque, afinal de contas, quem quer se apaixonar pelo próprio reflexo?”

“Você pode ver e ouvir, e percebe que ainda consegue se levantar. E é isso que você faz: se levanta, recupera o fôlego e se afasta cambaleante.”

“Amor é um termo muito amplo, tão elástico em sua definição que é quase inútil.”

“A busca era um absurdo, uma ilusória tentativa de resgatar alguma dignidade daquela viagem desastrosa para reparar anos de incoerências gaguejadas e resmungadas.”

“Dor tem mais relação com aquilo que a pessoa nunca teve do que com a tristeza pelo o que perdeu.”

“Mas o problema de viver o momento é que o momento passa. O impulso e a espontaneidade não levam em conta o longo prazo, as responsabilidades e obrigações, dívidas a pagar, promessas a cumprir.”

“Nostalgia é uma coisa fútil e inútil, porque é o desejo de algo que está para sempre perdido, e agora eu sentia a futilidade daquilo.”

 

 

About Samantha

Editora de conteúdo e redatora do Bendita Cuca!, e colunista para o Isabela Freitas e Superela. E Youtuber nas horas vagas. Sobrevivente da agonizante liberdade de pensar demais. Acredita que todo mundo merece um grande amor para chamar de próprio e escreve para se livrar da loucura completa.

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