Mira na Charlotte e acerta na Samantha.

Queria só começar dizendo que não me surpreendo de nunca ter havido na história da televisão uma personagem chamada Samantha que fosse santinha. Coincidência? Destino? Minha mãe tentando me pregar uma peça? Bom, não sei. Entendo isso como fatos. Tecnicamente falando, sendo assim, posso não me responsabilizar por minhas atitudes, certo? Não? Ok. Vamos começar de novo.

Uma coisa que eu não entendo é essa síndrome de santinha a qual somos submetidas. Vocês sonhando com a Sandy e eu com a Anita. Ou Lolita. Ou Capitu.

PAREI.

Acontece que esse mal acomete todas as mulheres desde a sua primeira paixão. Sério. Enquanto os garotos pagavam de bonitões no colégio por “comer as menininhas” (coloquei entre aspas pra me sentir um pouco mais puritana), as meninas se esforçavam em proporções intergaláticas pra serem dignas de um namorado, da fidelidade da melhor amiga – que nessa época furaria seu olho por qualquer pegada de mão no shopping da cidade – e conter seus próprios impulsos. Aquelas que não seguiam à risca esse caminho, dito por sabe lá quem como certo, eram julgadas, recriminadas e alvo de fofocas. Acredito que não haja o que fazer sobre isso. São rituais passados de geração pra geração e, até arrisco dizer, que sejam essenciais pra formação do nosso caráter. Quer dizer, o mundo lá fora é mesmo cruel. Muito pior do que a mais malvada recalcada que passa o dia stalkeando a situação do namoro do ex. Quanto antes você aprender a sobreviver, mais fácil será encará-lo, certo? É, isso pode até fazer sentido (apesar de eu ter inventado agora) mas que dói, dói. E, muitas vezes, não é nem de longe justo. Às vezes, a garota não fez nada de fato e leva a fama, mas e se ela fez, quem é que tem algo a ver com isso?

Pois é, esse pensamento, que nada mais é do que ligar o “foda-se” (mais uma vez, tentando ser puritana) pra sociedade vem com o tempo. Fato. Não importa o quanto se esperneie, você ainda vai sentir na pele a maldade alheia e outras coisas que talvez chame de inveja, recalque, despeito. Sei lá, adolescentes adoram essas palavras pra justificar qualquer unha encravada. Às vezes, nem é, sabe? É só uma fase, e como todas passam. É isso, gente, não tem caroço nesse angu. O simples é o óbvio.

Agora vão arranjar uma lavagem de roupa vocês todos. Fim.

A verdade é que quando passa você sente um puta (mereceu esse palavrão, confesso) alívio. É sua libertação, aceitação de si própria e, principalmente, se perdoa pelos supostos pecados que carregava nas costas, como se sequer precisasse desse fardo pra se justificar pro mundo. Ou tivesse orgulho dessas cicatrizes. Bom, uma verdade eu lhe digo: o que construiu seu caráter com o passar dos anos não foi o esquecimento das suas histórias cabulosas e tampouco o fato de tê-las cometido, mas como você agiu diante da repercussão que elas tiveram. Quanto você deixou que a opinião alheia te agredisse, quem você considerou seu amigo por te defender pra um punhado de pessoas e, não, te alertar sobre as consequências. Essas coisas, sabe? Você não precisa viver se justificando pra estranhos na fila do pão. E amigo nem sempre é o que passa a mão na sua cabeça.

Quando você cresce – suponho assim seja, já que nem me considero adulta o suficiente – você percebe a imensidão que tinham seus problemas nessa época: tão grandes quanto um grão de areia de caixinha de gato dentro de um buraco cavado por um anão japonês em Tangamandápio. Saudades, Jaiminho. Saudades, Chaves.

Nem mesmo com seus quarenta, cinquenta anos, você estará livre da recriminação dos outros, de comentários maldosos e até mesmo dessas palavrinhas tão proferidas: recalque, inveja, despeito. Mas é de se esperar que você já tenha entendido como lidar com isso – e até aprendido a sua própria maneira. Ou simplesmente desenvolvido com maestria técnicas de ouvido de mercador.

Acho que tudo em nós é adaptável, flexível, maleável. Se eu pudesse nos definir, seria como uma massinha de modelar que vai tomando forma de acordo com a condição que é imposta. Só a nossa essência é verdadeiramente nossa, verdadeiramente a gente. Talvez, nossa essência seja nossa única verdade absoluta. Então, basicamente, você não precisa se preocupar. Se teme ser mal falada e terminar sozinha, pensa quão pouco valeria a pena estar com alguém tão superficial e ligado à opinião dos outros. Se teme não ser reconhecida, pensa em se esforçar o dobro pra provar seu valor (profissionalmente, quero dizer). Aceita que nem tudo é o que parece ser, e a pior coisa que pode existir em uma relação é o pré julgamento. Não seja tão pouca assim, nem se contente com qualquer meia boca.

Claro que quando a gente para pra pensar nas coisas que deram errado, nos amores fracassados e nas nossas insensatas escolhas ficamos bem compelidas a achar que se fôssemos a Charlotte, a Sandy, a santinha, tudo ficaria bem. Mas nenhum tipo de relacionamento sustenta-se só de um lado. Em nenhuma história terminada há um culpado completo. Tudo bem, existem aqueles que cometem vacilos desmedidamente maiores, mas se cavarmos fundo, todo mundo tem o pau oco. Não adianta se culpar. Como a felicidade de dois pode caber nas costas de um? Isso é aprendizado, experiência. Colha os frutos, faça um suco, misture com vodca e siga em frente.

Não vai ser fácil, não tem como ser. Mas faz parte; é a vida que segue. Paciência. Às vezes, pra não se frustrar com os resultados, você deve mudar os alvos. Mude ou se conforme, praticamente só existem essas duas alternativas. Mas, haja o que houver, só não deixe de ser você mesma. Errada, errante, contrária. Apenas seja livre de si mesma e qualquer conceito que mantenham seus pés no chão. Só queira da vida o que puder carregar no peito. Ser autêntico, ter atitude, pensar por si próprio, tudo isso tem um preço: a seletividade. Mas a gente encontra quem mergulhe nessa loucura com a gente. Vai ficar tudo bem, eu prometo.

Palavra de uma Samantha – em todos os sentidos.

sahsilvany

About Samantha

Editora de conteúdo e redatora do Bendita Cuca!, e colunista para o Isabela Freitas e Superela. E Youtuber nas horas vagas. Sobrevivente da agonizante liberdade de pensar demais. Acredita que todo mundo merece um grande amor para chamar de próprio e escreve para se livrar da loucura completa.

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