Louco mundo admirável

Admirável Mundo Novo (Aldous Huxley) foi um dos livros que mais marcou a minha vida em níveis infinitamente diferentes. Como todo bom livro, me deixou entorpecida. Aliás, me deixa, já que há cerca de 7 anos eu continuo citando-o como referência dentre minhas preferências. A verdade é que sou meio obcecada por livros com mensagens subliminares, do tipo feito de metáforas e analogias. Fico em êxtase quando associo a ficção à diretrizes do cotidiano. Tudo aquilo que me puser em um estado mental entre a loucura e a genialidade me leva ao delírio, literalmente. A história, da forma mais resumida possível, retrata um mundo perfeito. Perfeito mesmo, sem aspas. Um futuro hipotético onde as pessoas são condicionadas biologicamente e psicologicamente a serem felizes, mesmo com a infinidade de regras que tem que seguir e distintos hierarquicamente por castas. Ok, falando assim parece chato. MAS NÃO É. Na verdade, é muito engraçado. Não um engraçado estilo as vídeo cassetadas do Faustão, mas um engraçado que te faz indagar como nunca pensou isso antes. Esse tipo de engraçado. E que independente do ano que seja lido, vale ressaltar que foi escrito em 1932, cai como uma luva nas perspectivas sociais contemporâneas.

Não muito diferente – nesse sentido – da nossa realidade atual também somos condicionados a sermos felizes SE seguirmos certos padrões impostos sabe lá deus por quem, mas proferidos por nossos pais, a educação convencional, a política, a religião etc e tal. Na maioria das vezes, a gente nem sabe porque tem que agir de determinada maneira. Nem até que ponto é por educação, por respeito ao próximo, por princípios internos. Toda nossa moral, ao longo da nossa formação, se mistura com as regras que simplesmente já estavam ali quando nascemos. E aparentemente não somos ninguém pra poder questioná-las. Mas, obviamente, pra que fique claro, certas coisas DEVEM ser como SÃO, afinal, uma sociedade se faz de uma consciência implantada desde o seu nascimento que rege sua conduta para viver harmonicamente com os outros.

Só quero alerta-los que agora eu vou começar a falar coisas que vão exigir de você concentração, autoconhecimento e uma garrafa de vinho. O que quer dizer que você está prestes a ler as maiores loucuras da sua vida ou tudo aquilo que nunca conseguiu expressar diante do espelho. Por exemplo, já parou pra pensar que nada te impede de bater na cabeça de alguém sentado à sua frente no cinema? Se você concorda com essa pergunta, bom, então você pode ser um serial killer. O que já é um bom começo, afinal, nada te impediria de ser e você sabe disso. Quer dizer, a não ser uma coisa: o bom senso. Digo o bom senso porque se você disser que são seus princípios, sua ética ou sua religião, eu posso citar pelo menos dez exemplos de situações que fariam suas convicções cair por terra. Só pra ilustrar, se para salvar a vida de sua mãe você tivesse que matar um completo desconhecido e inocente, provavelmente você faria. Portanto, todo mundo está apto a tudo, inclusive, a pagar pela própria língua, só depende da situações a qual é imposto. Então, pensando por esse lado, a maioria das coisas que não fazemos e que poderia interferir e até prejudicar outras pessoas são manipuladas pelo bom senso? Não, pela culpa.

A questão fundamental da vida, do universo e tudo mais é: De quem é a culpa?

Se imagine na seguinte situação: você conhece um garoto, sentem-se muito atraídos um pelo outro e ficam. Até aí tudo bem. Acontece que o garoto é comprometido e mentiu pra você, além do mais, roubou seu direito de escolher se gostaria ou não de estar indiretamente em um relacionamento que não era seu. Porque assim, sejamos francos, independente da sua opinião particular sobre quem fica com pessoas comprometidas, a de se convir que é uma opção delas quando estão cientes. Elas não são enganadas, nem se fazem de vítimas. Elas escolhem, certo? Logo, ninguém tem o direito de julgar se você deve ou não saber algo que afeta diretamente as suas decisões. Mas o garoto fez isso e você descobriu porque a vida é assim, então, você termina com ele dizendo todas aquelas coisas que as mulheres tem na ponta da língua. Que ditam pra si mesmas a fim de se acharem socialmente imaculadas e dignas do título de “garota pra se namorar”.

Mas por que você terminou com ele?

1)      Porque ele mentiu e você não tolera mentiras em hipótese alguma. E ele não mentiu sobre uma besteirinha, mas sobre algo realmente significativo.

2)      Porque você não aguenta saber que é a outra e não faria com os outros o que não gostaria que fizessem contigo.

3)      Porque você sabe pela sua experiência ou de suas amigas que a outra só se fode.

Claro que podem haver mais um milhão de alternativas, mas agora vamos analisar essas três.

1)      Aquele que não for capaz de perdoar uma mentira sequer, não está pronto pra viver em um relacionamento porque a partir do momento em que você se assume como alguém que não suporta mentiras e não as tolera de jeito nenhum, você se enaltece a uma posição de que nunca vai mentir. Acontece que mentira é mentira em qualquer circunstância, portanto, não é porque você mentiu sobre ter gostado da gravata dele pra não magoa-lo que isso te isenta de ter mentido. Uma coisa não tem nada a ver com a outra? Claro, quando não te afeta diretamente é muito fácil enxergar a distinção da proporção das mentiras, não é? Mas e se afeta a ele tanto quanto te afetaria se ele mentisse sobre seu peso não incomoda-lo? E, aí? Você não tem como mensurar o efeito de uma mentira para os outros mesmo contada por você pra parecer a menor possível. E de boas intenções, o inferno está cheio. Então, se você quer se ver como alguém que repudia a mentira, você tem que abranger todos os seus níveis. Quer você queira, quer não porque senão, inevitavelmente, vai ser confrontada pela sua própria verdade absoluta. Aquela mesmo que te serviu de escudo um dia. Logo, você provavelmente perdoaria uma mentira, sim. Ainda mais quando resolvesse levar em consideração as coisas que tem a perder – ou o simples fato de ter que se afastar de quem gosta. A verdade é que a sinceridade nua e crua em todas as suas têmperas te dá um grande medo.

 

2)      Ninguém é tão altruísta a esse ponto, verdade seja dita. Muitas coisas podem te impedir de continuar a fazer algo, em qualquer aspecto da sua vida, que prejudiquem alguém mesmo indiretamente (no caso de uma traição, se a outra parte envolvida não souber, não pode afirmar que ela foi diretamente afetada, certo?), mas dentre elas, seria de inenarrável hipocrisia você dizer que é pra não magoar alguém que nem sequer conhece (se não se tratar de uma traição também de amigas, obviamente). À primeira ordem pode até ser. Pode até ser que isso realmente te tire o sono, te deixe ansiosa. Pode até ser que ficar imaginando que está atrapalhando a felicidade dos outros te faça recuar, mas isso só se você não estiver envolvida o suficiente. A coisa mais normal do mundo é o caso de duas mulheres disputando o mesmo cara. Uma não quer nem saber se a outra tem uma história assim ou assada com ele, a partir do momento que ela o assume como sendo seu ou portador da sua felicidade naquele momento, ela vai pra cima. E não há quem a segure. Não há reza forte, amigas, nem outros amores que a impeçam. Por mais que você torça a cara pra admitir que faria uma coisa dessas, se estivesse realmente apaixonada, no mínimo, entenderia os motivos pelos quais as outras fizeram, mesmo que lhe faltasse coragem. Ou seja, racionalmente quando não há envolvimento emocional, você não faria isso porque não gostaria que fizessem contigo. Mas se sua própria felicidade dependesse do perjúrio de alguém, por pior que fosse admitir, você lutaria por ela.

 

3)      Esse é realmente um bom motivo porque é extremamente cansativo entrar numa relação que já existe e querer torna-la sua. E outra, a partir do momento que você assume que não quer entrar porque sabe que vai acabar se dando mal, está automaticamente anulando as duas questões anteriores, o que quer dizer que você provavelmente perdoaria a mentira inicial dele – principalmente se o pedido de desculpas viesse acompanhado da frase “eu vou terminar com ela” – e você não está levando em consideração os sentimentos dos outros. Tem uma atitude bem egoísta, mas sobretudo, legítima. No entanto, está mais suscetível a cair no Conto do Vigário, visto que, se ele instigar a sua esperança de que ficará solteiro pra ficar contigo, você vai insistir achando que pode ser a exceção à regra e terminar tendo seu conto de fadas. Justamente por isso a outra se fode; porque ela acredita nesse papo.

 

Nenhuma das opções é melhor ou pior que a outra, até porque o bom e o ruim são apenas uma questão de perspectiva quando se trata de relacionamentos. Mas o diferencial está em você se questionar sobre seus próprios valores, seus princípios. SEUS MESMO. E não aqueles que te fizeram decorar durante toda a vida assim como a tabuada. O que realmente te incomoda? O que te machuca? O que te faria pensar duas vezes? O QUE VALE A PENA?

Uma coisa que eu percebi é que “as outras” tem uma necessidade maior de se auto afirmarem quando se tornam as titulares. Não é só a satisfação de ter vencido que as faz se sentirem tão merecedoras do título, mas o fato de que finalmente tornaram-se o “objeto” pelo qual invejavam. Veja bem, por que homens comprometidos atraem tantos olhares? Porque elas pensam que ele vale a pena e por isso já foi fisgado. E, de repente, você tem a chance de se tornar aquela por quem ele resolveu se comprometer, visto que ele é alguém que vale a pena já que te conheceu comprometido. Sacana paradoxo da traição. Resumindo, as outras geralmente são motivadas pela inveja e não só pela paixão.

Ao mesmo tempo que se livrar da culpa é libertador é também muito perigoso. Você adquire um poder absoluto sobre seus atos e uma responsabilidade tão pesada quando uma bigorna. Afinal, você não tem a quem designar a culpa pelas suas atitudes, tampouco por suas palavras. Suas ações não são mais reações de uma cadeia de sentimentos e ilusões, muitas vezes, impostas pelos outros pra condicionar sua conduta. Você é o que você sente, o que você pensa, o que você faz da forma mais límpida. No ponto mais alto da sua alma. Ser livre é, dentre muitos prazeres, um fardo enorme também. Não é porque você entendeu que pode fazer o que quiser, contanto que aja de acordo com suas próprias vontades – desde que tenha obviamente refletido sobre elas – que isso lhe dá o direito de fazer o que quiser. Racionalidade é a capacidade de enxergar e analisar causas e consequências. Viver sem culpa é andar nas nuvens, é uma manhã de sábado ensolarado, é uma música tocada no momento certo. É como viver no limbo da plenitude de saber quem você é, e porque fez determinadas escolhas. No entanto, o que mantém a ordem natural das coisas, a harmonia entre os seres, é a limitação que a culpa impõe, já que ela deve ser manipulada pela consciência. Ou seja, ter sabedoria pra discernir o que você PODE, do que você DEVE fazer é unicamente o que nos faz humanos. O poder está ligado ao ego, mas o dever está ligado ao coração.

sahsilvany

About Samantha

Editora de conteúdo e redatora do Bendita Cuca!, e colunista para o Isabela Freitas e Superela. E Youtuber nas horas vagas. Sobrevivente da agonizante liberdade de pensar demais. Acredita que todo mundo merece um grande amor para chamar de próprio e escreve para se livrar da loucura completa.

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