Carta aberta ao meu ex namorado

Você lembra do dia que nos conhecemos? O bar estava lotado e eu havia sentado no último banquinho próximo ao balcão. Pude sentir seu perfume forte, e a intensidade com que exalava anunciava sua aproximação. Mas eu estava distraída demais no meu celular pra sequer me importar com isso.

Você me notou porque é desses que sai pra balada à caça, procura alvos, estuda o território, pede indicações ou quaisquer que sejam os outros métodos de investida criados pra lhe render uma falsa segurança de saber com quem se envolver. Afinal, você não se preocupa com a imagem dos outros tanto quanto se preocupa com a sua.

Encostou-se ao meu lado no balcão com o cotovelo tocando no meu pra que eu pudesse vê-lo. E eu vi.

Senti uma pontada fina no peito e uma preocupação repentina de ver se ainda estava maquiada. Mas antes que eu pudesse disfarçar e pegar o espelhinho em minha bolsa, você me ofereceu uma bebida.

“Aqui está a sua.” Você disse assim. Curto e direto.

Achei uma tremenda audácia da sua parte chegar sem me dizer um “oi” ou perguntar meu nome. Eu quase virei o rosto e me levantei no ato. Eu disse quase.

Mas você sabe que, na verdade, a sua confiança em si mesmo era uma das coisas que eu mais admirava em ti. Também a forma com que conseguia passa-la pra mim e me acalmar diante das minhas crises. Deus, você me fazia sentir tão segura!

Naquela noite conversamos sobre festas, os lugares que gostávamos de ir e nossas profissões, sutilmente talhando a imagem que criávamos de nós mesmos à nossas necessidades de relacionamento. Não me lembro porque o achei interessante se da tua boca não saiu nada que eu já não tivesse ouvido algumas centenas de vezes de outros estranhos.

E a maneira rápida e concisa com que me respondia denunciavam a sua prática em exaltar o melhor que achava ter em ti. Como seus “grandes” feitos resumidos muito bem em seu perfil do LinkedIn.

Mas mesmo assim ficamos e foi ótimo. Ótimo de verdade.

Você lotava meu celular de mensagens de “bom dia, boa tarde, boa noite”, enchia meus ouvidos com suas satisfações nos mínimos detalhes e minha cabeça com suas bobagens. E eu adorava. É bem verdade que no primeiro mês não ficamos mais que 5 vezes, mas nos falávamos todos os dias, e quando saíamos era em público. Quer dizer, nossos amigos já sabiam de nós. Isso já era um relacionamento, não era?

Achando que a minha vontade de ficar contigo dependia da nomenclatura, você me pediu em namoro. Eu aceitei, é claro. Não porque eu sentisse que você fosse o único, aquele capaz de fazer valer a pena abrir da mão da tranquila vida de solteira que eu tinha, mas porque me ensinaram a não desperdiçar as oportunidades. Principalmente, aquelas relacionadas a namoro. Eu sei que não anda fácil por aí. Então, se começar a ficar com um cara e ele, por acaso, quiser te levar pro “próximo nível” você meio que deve aceitar só pra ver no que vai dar. Só pra não pertencer ao temido hall das solteironas, sabe?

E também porque é bem legal ser vista como alguém que vale a pena namorar por uma pessoa mulherenga como você sempre foi.

Foi bem fácil me apegar a ti. Suas demonstrações de amor nas redes sociais me faziam sentir valorizada, a marcar um território tão visado por outras. Eu adorava a forma com que havia se afastado de todas suas amigas mulheres pra que eu não me sentisse insegura. Você sabia, como ninguém, me agradar com suas surpresas românticas ensaiadas, seus presentes caros, sua bajulação na minha tpm, seu ciúmes pra me fazer sentir protegida. A raiva que tinha das minhas roupas curtas, dos meus amigos homens, da forma com que eu cumprimentava as pessoas abraçando, tudo isso era perfeito. Tudo isso fazia parte. Tudo isso eu acreditava me fazer bem.

Chegava até a ficar chateada quando não fingia se importar com minha provocações.

O dia que viajamos para conhecer seus pais, você foi incrível! Eu descobri que te amava enquanto te ouvia quebrar o silêncio do jantar enaltecendo as minhas qualidades pra sua mãe.

Fiquei encantada com seu esforço em provar a ela que eu era digna de fazer parte da família. Da sua família. Quem sabe, da nossa.

Você falou sobre o que eu havia estudado, os lugares que eu conhecia, as línguas que eu sabia. Nem acreditei quando se lembrou da ação solidária que eu coordenei naquele mesmo ano e contou com paixão nos olhos.

Eu te amei pelo o quanto você quis mostrar que eu era inteligente pra sua mãe, mesmo sabendo que ninguém jamais seria o suficiente aos olhos dela.

Eu te amei pelas vezes em que disse o quanto eu era linda na frente de seu pai, me fazendo sentir como um troféu. O melhor deles, o que você mais se orgulhava.

Você era aquele que preenchia as lacunas que eu requisitava desde a minha infância. Aquele que eu esperei por tanto tempo naquele mesmo banquinho do bar. E apegada a essa imagem tão bem esculpida de quem devia ser o meu namorado, ficamos juntos por anos. Eu queria acreditar que podia viver meu conto de fadas contigo.

E dentre uma briga e outra, nos momentos bons, eu pude. Me agarrava a qualquer lembrança do seu carinho, do seu sorriso, da sua preocupação comigo pra dissipar a insegurança que suas mentiras me causavam.

Eu sempre te perdoava, você sabe. Não era fácil, mas era preciso ser feito. Eu não estava disposta a viver tudo aquilo de novo com mais ninguém. Na verdade, ninguém me parecia valer a pena pra se viver aquilo. Tinha que ser você. Tinha que ser com você.

Sendo assim, superamos ano após ano os altos e baixos da nossa relação.

 

Ainda me lembro da sua cara conformada em pôr seus sonhos de lado quando aceitou aquele emprego de merda. Fiquei um pouco decepcionada com sua acomodação quanto a isso, mas mais uma vez você me fez sentir especial. Disse que fazia aquilo por nós, pra que tivéssemos dinheiro, pudéssemos comprar nosso apartamento, pagar nossas contas, ter nossos filhos.

Foi a primeira vez, depois de cinco anos, que você falou de nós dois como marido e mulher. Como nossos pais. Eu pude ver que era isso mesmo que você queria ter: uma família.

Fiquei eufórica com a ideia, eu sempre quis ter uma família também. Sempre. Vê-lo falando disso de uma forma tão natural, como algo tão próximo de nós, tão perto, me fez sentir uma compaixão imensa por ter desperdiçado seus melhores anos bajulando um político pra ter esse cargo público. Você mereceu mesmo, sabe?

Mas eu só percebi que você realmente estava pensando em casamento quando começou a me cobrar atitudes que uma esposa devia ter. Que sua mãe provavelmente teve e por isso a admirava. Você já havia aprendido a lidar com ela da melhor forma, inclusive, também sabia qual a melhor forma que seu pai tinha de lidar com ela.

Ou seja, seria mais fácil que eu fosse mais parecida com ela possível. Seria melhor pra nossa relação.

E, pensando nisso, eu me vi esforçada ao máximo em ter as características que você queria, as mudanças que você pedia, a submissão que você respeitava.

Eu não conseguia sempre. Nem sempre as mudanças davam certo, você sabe. Também tinham coisas que eu queria mudar em você e outras que eu sequer via como erradas e portanto relutava.

Mais uma vez, pensando que era isso que faltava pra que eu quisesse continuar contigo, você me fez a proposta de casamento. Deus, foi incrível!

Lembro de cada detalhe como se fosse hoje. A surpresa, os gritos, a família e os amigos na expectativa, as palmas, o beijo. A certeza de que éramos um belo casal evidenciada por cada olhar a nossa volta. A inveja explícita de outros pela forma perfeita com que nos encaixávamos.

Afinal, havíamos nos adaptado, nos moldado, nos fundido. Sete anos não são sete meses. Eu te conhecia, você me conhecia. Não tínhamos surpresas, não tínhamos imaculadas expectativas, nem imprevisíveis decepções.

Você sabia como me alegrar, como me emocionar, como me fazer gozar. Você sabia tudo sobre mim e eu estava feliz por simplesmente saber isso.

Sinceramente, não via como podíamos dar errado. Já tínhamos passado dessa fase há muito tempo e colhido todos os frutos podres de nossos erros.

Éramos o que tínhamos que ser.

Conforme a bendita data se aproximava nos víamos menos. Eu sei, talvez, a culpa tenha sido mais minha. Eu estava muito ansiosa com os preparativos, muito preocupada. Eu queria que tudo fosse perfeito, assim como havia sonhado.

Eu estava vivendo meu conto de fadas e mal podia acreditar, nada parecia me importar tanto naquela época.

Treinando pra ser a melhor esposa possível que decidi te fazer aquela surpresinha no escritório. Eu sabia que você não tinha muito tempo livre e, por isso vivia estressado, cansado. Por isso, nem sempre queria transar quando chegava em casa tarde da noite. Eu sabia que seu trabalho te consumia muito, sabia que te sugava a vida. Mas agora precisávamos dele, do dinheiro que ele nos dava, então, eu entendia. Não reclamava.

Mesmo quando passava a madrugada inteira da sexta feira com uma garrafa de vinho na mão e o olhar grudado na porta, eu me policiava pra não te encher o saco.

E me lembrava que você fazia isso por nós.

Então teve aquele dia que resolvi ir ao seu escritório levando seu prato preferido embalado pra viagem. Para nós dois. Pra que tivéssemos um tempo juntos.

Meu bem, eu nunca vou esquecer da sua cara quando abri a porta. Sua expressão de prazer sufocada pela angustia de me ver renderam-me pesadelos por noites inteiras. O sapato preto de salto alto que aparecia por baixo da mesa me deu nojo de scarpin.

Seus gemidos de orgasmo ressoaram por meus ouvidos da única forma que eu ainda não tinha ouvido: com asco.

 

Eu vi a loira ajoelhada, mas sequer me preocupei com ela. Eu estava no meio da sua merda de escritório de quinta, onde trabalhava na assessoria de mais algum merda de político que te fazia mais um merda de corrupto. Eu estava em meio a merda de vida que havia construído contigo, pensando na merda da família que tentei agradar. Na merda do emprego que abandonei pra poder viver ao seu lado. Pra um dia, simplesmente, deixar de ouvir e pensar pra passar a ver e sentir a merda de relacionamento que eu estava. Tudo porque algum merda de mentiroso me disse que devia ser assim.

Que eu devia procurar quem me desse a merda de uma estabilidade financeira, quem me aceitasse como sendo uma mulher direita, quem me honrasse diante da nossa família, quem usasse o compromisso exibido em aliança.

Eu estava em meio a minha própria merda de vida que foi domesticada, direcionada e rotulada.

E, sabe, vê-lo vulnerável daquele jeito, nervoso em se desculpar, ansioso em prometer o mundo inteiro pra mim me deu a certeza de que esse, definitivamente, foi o ponto alto da nossa relação.

Eu podia perdoa-lo por me trair, afinal, já havia feito isso outras vezes.

Mas alguma coisa havia mudado em mim. As palavras PARA O RESTO DA VIDA zumbiam em minha mente.

Eu não queria viver para o resto da vida assim.

Eu não queria viver para o resto da vida sendo o que os outros queriam que eu fosse.

Eu não queria ser para o resto da vida previsível pra você, conhecida pra você.

Eu não queria ter para o resto da vida o fardo de não ser tão bonita ou tão inteligente pra sua família.

Eu não queria para o resto da vida uma relação baseada no ciúmes possessivo e a carência de mentirinha.

Eu não queria a pressão o resto da vida de que devia aceitar o que parecesse certo aos olhos dos outros.

Eu não queria para o resto da vida adaptar minha insegurança a seus defeitos.

Eu não queria passar para o resto da vida noites em claro sozinha em casa enquanto me perguntava aonde meu marido estava.

Eu não queria para o resto da vida moldar meus costumes aos afazeres que você impôs como certo pra sua esposa.

Eu não podia para o resto da vida estar com alguém que não me fizesse evoluir, que não me confrontasse, que não me alavancasse.

Eu não queria ser para o resto da vida, literalmente, o troféu de mais um.

E quando avancei sobre você e lhe dei um tapa na cara, eu queria mesmo foi ter te dito OBRIGADA.

Obrigada pelos maravilhosos anos de alegrias e desavenças. Por ter feito tudo conforme manda o figurino, sem tirar nem pôr. Por ter sido um exemplo fiel de namorado infiel e, logo, marido infiel. Mas, mais do que isso, ter me mostrado que há coisas muito superiores a traição. Aliás, que traição por si só não é lá grande coisa. O que a gente verdadeiramente perde quando se deixa levar pelo o que falam, pela forma com que os outros lidam com isso é que realmente conta.

Obrigada pelos anos que eu não pude me conhecer sem você, não mensurei meus interesses e minhas vontades e agora tenho uma vida inteira pela frente de descobertas.

Obrigada pelo desmedido martírio que eu senti ao ter que me recompor diante do abismo que é pensar sozinho com uma vida a dois.

Obrigada porque eu aprendi da forma mais dolorosa, porém indiscutivelmente mais libertadora, a buscar indelevelmente o que me fizer feliz. A mim, e a mais ninguém. Ou pelo menos, a alguém que sabia respeitar isso e, não, limitar.

Não me leve a mal, não tenho qualquer intuito de te ofender. Já passei da fase de te culpar pelas minhas próprias escolhas, e ainda te guardo do lado esquerdo do peito com uma gratidão imensa. Às vezes, tenra e às vezes saudade.

Se não fosse por você, eu ainda acreditaria em contos de fadas.

Obrigada por ser o cafajeste que me fez uma mulher que vale a pena. Eu aprendi a valorizar quem me enaltece pelas razões certas. E você aprendeu que não era só uma bebida naquela noite no bar. Nunca é.
É uma promessa de futuro.

sahsilvany

About Samantha

Editora de conteúdo e redatora do Bendita Cuca!, e colunista para o Isabela Freitas e Superela. E Youtuber nas horas vagas. Sobrevivente da agonizante liberdade de pensar demais. Acredita que todo mundo merece um grande amor para chamar de próprio e escreve para se livrar da loucura completa.

O que achou? Vamos trocar uma ideia! Sua opinião é muito importante pra nós. <3