Amor ideal não existe.

e3f47697c3610609a09c1e4ec3690dd7“Conheci um menino a tua cara!”, ela me disse com um sorriso de orelha a orelha, e eu que me fazia de cética quanto a essa possibilidade me vi comprimindo a boca para esconder o riso.

“Quem é? Me mostra”, olhar nunca foi pecado, não é? “E por que é a minha cara?”, perguntei enquanto a via mexer avidamente no celular.

“Ah, ele é da praia, viaja muito, tem um papo cabeça…”, ela detalhava e minha ansiedade crescia. Onde estava essa criatura que eu ainda não conhecia?

“Esse aqui!!!”, e me mostrou as fotos dele.

Ele era careca. Nada contra os carecas, exceto que eu prefiro os cabeludos. Já fiquei com alguns carecas, claro, mas acho que um moreno, careca, musculoso, de óculos escuro se perde na multidão. Imagina como seria difícil ir a um show com ele? Eu teria que nos acorrentar ou nos envolver em elástico de pular para não voltar pra casa com qualquer um dos outros “iguais”. Estou sendo um pouco – bondade minha – preconceituosa, eu sei, mas como evitar uma preferência?

Antigamente, eu não me atinha tanto a estereótipos. Talvez porque eu não soubesse de fato do que eu gostava ou não tivesse percebido meu padrão. Ou talvez porque, simplesmente, em certas fases da minha vida, eu não escolhia tanto assim, confesso. Em contra partida, eu também não sabia bem quem era. Tem momentos em que tudo que a gente quer é estar com alguém, não importando quem seja. Por isso, nunca acreditei muito naquela história de que você não escolhe por quem se apaixonar. Você escolhe, sim, a partir do momento em que ficam e você continua nutrindo uma paquera. Ou decide sair mais uma vez porque “não está fazendo nada”. Talvez sua segurança de estar com quem não supra suas preferências lhe torne ousada o suficiente para mantê-lo por perto, e um dia sem aviso prévio a paixão acontece. Ou você se conforta na premissa de que é melhor estar com quem goste de você do que correr atrás de quem você gosta. No entanto, que mal há em ficar sozinha?

Até hoje não entendo por que solidão, divórcio e término de relacionamento são sinônimos de fracasso. Ninguém está destinado a ficar com ninguém. Almas gêmeas, em tese, não existem. O que você vê, e provavelmente inveje, são duas pessoas apaixonadas, aceitando os defeitos, enaltecendo as qualidades, engolindo o choro, reformulando as críticas pra que sejam construtivas e diminuindo o tom de voz, uma para a outra. Esse esforço colossal felizmente não é da conta de ninguém a não ser do próprio casal. E quanto mais fácil, simples ou divino, eles fizerem soar, mais estão dando o braço a torcer por trás. Mas amor não se pede; se cria, se nutre, se divide. Amor é para dois, para dez, para mil, mas para uma pessoa só, se não for próprio é mera covardia.

Fracasso é manter um relacionamento abusivo por medo de não encontrar alguém melhor. Ou acreditar que exista uma relação perfeita, sem altos e baixos, sem desistências, sem colidir. O ideal, de fato, seria o meio termo: se está ruim, conserte. Se você fez tudo que pôde e não melhorou, desapegue. Falar é fácil, eu sei. Mas essa substancial mania de achar que o amor é feito de extremos que lhe torna um acomodado, conformado. E se você não estiver disposto a fazer a sua parte, como pode esperar que um só lado sustente duas vidas?

À medida que me tornei mais confiante quanto a mim mesma, também me tornei mais exigente. Qualquer coisa é muito pouco. Todo mundo é muita gente. Embora, o meu idealismo em termos superficiais seja uma forma de preconceito (de que não me orgulho, por sinal), tenho outras preferências que sobressaem a isto. A primeira impressão não é a que fica, aliás, não tenho mais treze anos para julgar o que não conheço. Minhas prioridades sempre irão existir, mesmo que não sejam sempre as mesmas. Isso é normal. Ter opinião, debate-las e confrontar-se é uma das maiores e melhores experiências sobre o amadurecimento. Mas hoje eu sei que amor tem que ser galgado, que é tolice entregar o coração de bandeja ao primeiro que aparentar ser o que você quer, inclusive porque nem sempre quem você quer é quem você precisa. Em geral, precisamos de quem lute por nós, passe por cima do orgulho, não conte o tempo investido e não tenha receio em fracassar. Acima de tudo, alguém que saiba que a jornada importa mais do que o final, alguém que entenda que amor verdadeiro é muito melhor do que a fantasia do amor ideal.

sahsilvany

About Samantha

Editora de conteúdo e redatora do Bendita Cuca!, e colunista para o Isabela Freitas e Superela. E Youtuber nas horas vagas. Sobrevivente da agonizante liberdade de pensar demais. Acredita que todo mundo merece um grande amor para chamar de próprio e escreve para se livrar da loucura completa.

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