A necessidade de ser amada.

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Sempre que lembro dele questiono minha própria sanidade. Será que estivemos mesmo juntos ou nos encontrávamos casualmente sem afeto? Pra ser sincera, sinto que me relacionei sozinha. Ou, sei lá, me contentei com uma fantasia pra não encarar a realidade. Pouco a pouco, troquei os olhos nos olhos por mensagens de textos, convites para sair por promessas do que faríamos se saíssemos, beijos e carícias por carinhas e reticências que deixassem a encargo da minha imaginação seus sórdidos significados. Sempre fui boa nisso, sabe? Digo, em imaginação! Não em romance. No quesito amor, passei me arrastando a vida inteira. Em vãs tentativas de parecer apaixonada, soava desesperada a maior parte do tempo.

Se ele não me chamasse para sair, eu iria aonde quer que supunha que ele fosse, e permanecia atenta. Uma vez ou outra, cheguei a confundi-lo por aí tamanha era minha expectativa em vê-lo. Mas, geralmente, voltava para casa com as mãos lavadas dos planos desfeitos e um punhado de desculpas pra me contentar. No entanto, quando dava a sorte de encontrá-lo, jurava a mim mesma uma série de ameaças de término caso ele não demonstrasse interesse. Mas ele demonstrava, é claro, porque era cômodo, porque estávamos “ocasionalmente” no mesmo lugar, e não porque ele se esforçava para isso. Aliás, não porque ele, de fato, quisesse isso. Porém, não me demorava em pensamentos sombrios como esse, desviava de qualquer chance de quebrar meu próprio encanto. O pior veneno é o chamado mentira, são as pequenas doses que se fazem mais letais.

Se ele não me procurasse o dia inteiro, eu inventava um pretexto pra puxar assunto. Às vezes, dizia a mim mesma que sua mania de ser ausente era orgulho, birra. Mas nunca falta de interesse, afinal, ele me tratava por apelidos, dizia sentir minha falta – ainda que não fizesse nada a respeito – e preenchia meu dia com sua atenção (às vezes, exagerada o suficiente pra me deixar na dúvida se lhe sobrava tempo para ser assim com as outras. Porque, é claro, haviam outras. Eu sabia disso, mas eu não me importava – sempre – já que ele me fazia sentir especial).

Eu contava nos dedos quantas vezes já havíamos ficado cara a cara, mas preferia usar do calendário para determinar há quanto tempo estávamos juntos. Certas vezes, dizia para mim mesma que não estávamos “ficando”, mas que havíamos “ficado”, que enquanto não estivesse apaixonada não haveria perigo em continuar, que não me privaria de outras aventuras que surgissem – o problema era que não surgia nenhuma outra, era culpa do destino, sei lá, não minha. Ledo engano. Sou entusiasta do otimismo, a verdade é essa. Insinuava na menor das oportunidades as entrelinhas que me dissessem que realmente estávamos ficando, que tínhamos algo. Que tudo isso não havia sido uma perda de tempo, e tampouco, conveniências bem traçadas. Lembrava-me avidamente das vezes em que estive apaixonada, no entanto, esquecia-me com a mesma veemência de como o início da paixão funcionava. Comparando com meu passado, aquilo não era nada. Ainda. E mesmo ciente da falta de compromisso que tínhamos, uma vozinha dentro de mim dizia-me para não sair com mais ninguém, não corresponder à flertes. Era como se, ao me tornar exclusiva por livre e espontânea vontade, eu mandasse uma mensagem pro Universo para que ele me recompensasse na mesma moeda. Ou em dobro, o que seria melhor ainda. Mas se o Universo não deixasse claro isso a ele, eu daria um jeito de inserir na conversa minha opção, esperançosa em ter algum retorno.

Quando você se acostuma a viver assim descobre uma nova forma de prazer: a palavra. Discussões passam a ter um sabor inigualável, quase instigante. Ciúme, muitas vezes, se faz o prato principal. Finge-se tanto que já não se sabe distinguir a verdade do excesso de vontade. Ao contrário de outros casais, não fugíamos de DR´s. Conversávamos tanto que podíamos falar de qualquer coisa, portanto, falar da gente e sobre o que sentíamos era minha forma de orgasmo – e tão viciante quanto o real.

Um dia, nos encontramos “ocasionalmente” mais uma vez e aquela naturalidade de um relacionamento estável se fez presente. Estava claro para quem nos visse que estávamos juntos de verdade, tínhamos aquela intimidade latente de casais de longa data, aquelas piadas internas e a troca de olhares que corresponde a dezenas de frases. Sentia-me plena por tê-lo ao lado, mas aquilo não era sobre o momento, e sim, sobre todas as inseguranças que eu vinha guardando quanto aos motivos de continuarmos. Como era de se esperar, eu precisava ouvir dele que queria tanto quanto eu estar comigo, que sentia saudades. E porque eu queria – e pedi – ele disse. Aquilo me acalmou, é claro, mas principalmente, me deu o álibi perfeito para exigir sua consideração.

Eventualmente, aprendi que consideração não pode ser imposta, nem cobrada. Você pode até ensinar alguém a fazer com que se sinta respeitada em determinadas situações, mas não em todas. Quem simplesmente não tem consideração por você tende a vacilar uma, duas, dez vezes sem sequer enxergar suas falhas. Mas, naquela época, eu achava que ele me devia essa consideração ao ponto de me achar no direito de lhe cobrar satisfações. Outra coisa que aprendi com o passar do tempo – e de tanto quebrar a cara – é que não se exige prioridade a ninguém, tampouco se ameaça para conseguir. Se, por acaso, alguém não te prioriza, dê meia volta. Saia de perto. Em outras palavras: priorize a si mesma. Você não pode cobrar dos outros um valor que não dá pra si.

Obviamente que no meu caso tinha que ter drama. Quando me senti posta de escanteio ou trocada por qualquer outra atividade que eu achasse irrelevante (já que eu só enxergava a importância dos meus interesses), procurava nos mínimos detalhes um motivo para ficar chateada. Se explicitamente não tínhamos nada e eu não podia, teoricamente, lhe exigir nada, então, ele me devia ao menos uma explicação do porquê. Eu achava merecer uma resposta que justificasse suas atitudes porque sempre que me vinha à cabeça a ideia de não cobrá-lo, lembrava-me das coisas que havia me dito, e estufava o peito em um direito inexistente de obter uma satisfação.

Sentia que estávamos chegando ao estopim, muito embora parte dessa “pressa” fosse proveniente das dúvidas que minhas amigas rogavam sobre nós. Eu sei, não é justo culpa-las por isso, mas às vezes me pego pensando que se não me sentisse tão pressionada a expor nosso suposto relacionamento, eu teria me contentado por mais um bom tempo que fosse real só entre nós dois – e a internet. Eu queria mais palavras, queria mais promessas, mas sobretudo, queria estender aquilo mais um pouco. Talvez fosse carência ou talvez fosse saudade, mas pensar que havíamos chegado ao fim sem termos tido, de fato, um começo público me fazia arrepiar dos pés à cabeça.

Foi quando percebi que devia estar gostando dele mais do que imaginava, que já havia perdido o controle do bom senso, que suas atitudes influenciavam diretamente a oscilação do meu humor. Que, por vezes, eu havia me tornado ranzinza, cabisbaixa, mesmo quando, racionalmente, não visse motivo para tanto. Percebi que ele, ou melhor dizendo, quem eu o havia feito para mim, estava interferindo em quem eu era. Não me esqueço do dia em que estava almoçando com uma amiga minha e ouvindo-a falar sobre seu atual paquera, enquanto comparava-o a ele. Isso não é novidade, pra ser franca. Comparações são definitivamente o meu forte de tal forma que consigo assimilar dois relacionamentos opostos sob o pretexto de “era igual porque se tratava de um homem e uma mulher também”. Então, eu estava concentrada em apontar cada situação semelhante entre nossas histórias. Até que ela, que nunca foi muito paciente, disse sem meias palavras que não havia nada de igual, que não tínhamos nada a ver simplesmente porque ela estava realmente se relacionando com outra pessoa, quanto a mim, eu estava me relacionando sozinha.

Acredito que a partir daí todo meu questionamento começou. Eu não poderia ter inventado tudo que vivi com ele, poderia? De uma coisa, eu tenho certeza: eu não poderia ter inventado tudo que ele me falou. E nesse fio de esperança de que tínhamos uma história real, continuei apostando comigo mesma como o puniria por atitudes – ou a falta delas – que me fizessem sentir na pele seu desinteresse. No entanto, antes tarde do que nunca, começava a aceitar que poderia ser apenas falta de interesse.

Como era de se esperar, na primeira oportunidade, despejei minha série de perguntas ensaiadas de forma direta e clara que questionavam o que tínhamos, quem éramos um para o outro, seus sentimentos por mim, suas intenções, suas falhas. Suas respostas evasivas e previsíveis me levavam sempre as mesmas dúvidas. Nossa conversa se tornou cíclica, o que ele me dizia não era o suficiente ou não era o que eu queria ouvir. Depois de tanta repetência me dei conta que, na verdade, não era o bastante. O que ele tinha a me oferecer não era o bastante. Finalmente, não me senti completa, mas sim, cansada. Não me sentia mais satisfeita, e sim, desmotivada. Ele era pouco pra mim. Definitivamente, pouco. Parecia que eu tinha acordado de um sonho lindo que se transformara em um pesadelo voraz. Parte de mim não queria desistir dele ou do que eu havia criado para a gente, mas honestamente, nessa queda de braço invisível eu estava vencendo a mim mesma, entende? Estava mais desacreditada do que otimista, havia mesmo chegado ao fim.

Sinceramente, lidar com a verdade nunca foi meu forte e percebi isso ao enxergar minha própria vida por outra perspectiva. Já perdi a conta de quantas vezes vivi um relacionamento unilateral. E, confesso, sentia-me feliz durante esse estágio, sentia-me realizada. Mas, olhando atentamente para as consequências, boa parte da minha felicidade era uma ilusão. Ser feliz sozinho é maravilhoso, mas estar feliz em uma relação unilateral é irreal. Você acaba por criar boa parte das lembranças que sente saudade, da entonação que lhe convém mais carinho. Abrir os olhos é um processo longo e doloroso, sei bem disso. Às vezes, das pessoas mais improváveis escutamos o que nos faz despertar. Outras vezes, quando ouvimos nossa história contada por outros é que sentimos o peso que as palavras têm se ditas em voz alta.

A questão é que eu não merecia passar por isso, mas não tinha sequer a quem culpar pelo ocorrido. Nem mesmo a ele. Ok, ele me iludiu, blá-blá-blá. Mas venho pensando bastante sobre a ilusão também, sabe? Quero dizer, ludibriar não é algo que fazem com a gente, como um beliscão que podemos sentir, apontar um culpado e mensurar nossa dor. Mas é a forma como interpretamos o que fazem a gente, o que nos dizem. Basicamente, ela está dentro de nós, enraizada em nossos princípios, nossas expectativas de futuro, e principalmente, em nossa esperança. Ser desconfiado e pé atrás com as pessoas é uma característica individual – admirável e egoísta, diga-se de passagem – como consequência a sua criação, a experiências anteriores ou exemplos próximos.

Isso não me fez perder a fé nas pessoas, é claro. Aliás, talvez só um pouquinho. No fundo, tanta decepção, drama e dúvida, me levou a me conhecer melhor. Dizem que quanto mais alto o voo, maior o tombo. Mas eu sempre fui oitenta, oito nunca me coube. Sou intensa, e isso tem lá seus pesares. Às vezes, a dor da queda é tanta que se torna física. Posso senti-la, tocá-la e até vesti-la como um casaco pesado, sabe? Desfilo por aí e ninguém nota. Ou fingem que não notam. Acontece que está todo mundo carregando seus próprios pesos nas costas, alguns ainda trazem bagagens sem rodinhas de relações anteriores. São medos, traumas e sonhos mesclados em carência e sensatez que os fazem dar um passo de cada vez. Alguns extremamente lentos, outros, tentando descobrir seu próprio ritmo, e ainda outros, dispostos a acompanhar quem tenham ao lado.

Não sei, mas talvez, no fim das contas, seja só disso que a gente realmente precise: alguém que entenda nossas falhas e queira verdadeiramente alinhar seu andando ao nosso. Isso não deve ser tão difícil de notar como parece, sabe? Até mesmo para quem, por vezes, tem a cabeça na lua, assim como eu. O que não devemos esquecer nessa jornada é que quem quer, dá um jeito, que não existe carinho sem respeito. Que prioridade que se insiste, se extingue. Que consideração é afeto explícito, e não obrigação. E que amor não é aquilo que tira teu sono, tua paz e teu sossego, mas aquilo que traz tudo isso de volta.

About Samantha

Editora de conteúdo e redatora do Bendita Cuca!, e colunista para o Isabela Freitas e Superela. E Youtuber nas horas vagas. Sobrevivente da agonizante liberdade de pensar demais. Acredita que todo mundo merece um grande amor para chamar de próprio e escreve para se livrar da loucura completa.

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