Talvez seja torto por linhas certas.

Elderly Couple Kissing in Meadow --- Image by © Hill Street Studios/Corbis

Talvez fosse diferente se ele trouxesse o sorvete certo pelo menos dessa vez.

Talvez ele tivesse trago se ela não estivesse apressando-o para pegar as crianças no colégio.

Talvez ela não o apressaria se ele não tivesse perdido o horário assistindo futebol na casa do Pedro.

Talvez ele não precisasse ir à casa do Pedro se ela tivesse aceitado que o futebol seria na casa deles.

Talvez ela tivesse aceitado se ele não tivesse imposto como uma obrigação da boa esposa.

Talvez ele tenha imposto como obrigação por causa das comparações que vinha suportando ouvir em relação aos maridos das amigas.

Talvez ela o comparasse tanto porque estivesse infeliz e sem coragem de admitir a ele.

Talvez se ele soubesse da infelicidade dela pudesse mudar e não sentir-se tão menosprezado por ela.

Talvez se ela tivesse insistido na terapia de casal, ele agora a ouviria mais.

Talvez se ele não tivesse repudiado a ideia com tanta veemência inicial, ela o teria convencido.

Talvez eles não precisassem da terapia se simplesmente conversassem um com o outro.

Talvez se ele chegasse um pouco mais cedo do trabalho a encontraria ainda disposta a ouvi-lo.

Talvez se ela não se vitimasse pelos atrasos constantes do marido poderia vê-lo mais.

Talvez ele chegasse tarde em casa de propósito pra não ouvi-la reclamar.

Talvez ela reclamasse na presença dele de propósito pra se sentir ouvida.

Talvez se ele mudasse uma de suas atitudes matrimoniais ela reclamasse menos.

Talvez se ela reclamasse menos ele se sentisse mais motivado a mudar.

Talvez se ele tivesse mudado tanto quanto prometeu ela pudesse incentiva-lo mais.

Talvez se ela não tivesse se enchidos de expectativas com suas promessas não se frustrasse tanto.

Talvez ele devesse tê-la prometido menos do que poderia dar.

Talvez ela devesse ter cobrado menos do que também podia oferecer.

Talvez tenha sido culpa dos votos dele.

Talvez tenha sido culpa dos sonhos dela.

Talvez os votos dele estavam dentre os sonhos dela.

Talvez os sonhos dela estivessem abaixo de seu véu.

Talvez ele jurasse no altar o que ela sempre quis ouvir.

Talvez ela tenha querido mais do que se dispôs a fazer.

Talvez ele tenha se precipitado no pedido.

Talvez ela tenha se apressado em aceitar.

Talvez ele pudesse tê-la conhecido melhor por uns bons anos.

Talvez ela devesse ter compreendido que, na verdade, não o conhecia bem apesar do tempo. Talvez ele tenha arriscado alto ao pedir sua mão.

Talvez ela tenha largado tudo ao aceitar.

Talvez ele estivesse completamente apaixonado por ela.

Talvez ela não se visse um só dia na vida sem ele.

Talvez tenha sido a primeira vez dele no amor.

Talvez tenha sido a última chance dela.

Talvez tenha sido culpa de quem disse a ela que ele a achara linda.

Talvez tenha sido dito pra ela por quem nunca a viu suspirar daquele jeito.

Talvez a história fosse outra se ele não fosse dela e ela não fosse dele.

Talvez ela só quisesse mesmo o sorvete.

Talvez ele só quisesse o futebol.

Talvez eles se vejam como já foram um dia e entendam: dentre todo erro dessa vida, de certo mesmo só tiveram um ao outro.

Menina de vinte.

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Eu disse a ele que não devíamos mais namorar porque claramente não estávamos na mesma página. Disse que havia muita coisa nele que eu gostava, mas não o suficiente para passar por cima de mim. E, inevitavelmente, conforme eu me envolvesse relevaria ainda mais as gotas d’água daquele momento. Disse que não era uma decisão precipitada, eu já havia passado noites em claro esculpindo nosso futuro como um castelo de areia – não durando mais que um segundo. E me sentia cansada de dormir à sombra das dúvidas que aquela relação me causava.

Para minha surpresa, ele concordou sem titubear. Não houve uma réplica, um pedido de desculpas e sequer uma reclamação. Confesso que fiquei um tanto quanto decepcionada. Eu queria mesmo aquela cena de filme completa: minhas frases sendo interrompidas com um beijo, meu braço estremecendo com seu toque, todas aquelas promessas impossíveis de que daríamos um jeito. Eu queria aquele tesão insano antecessor a todo arrependimento. Pra uma despedida, um arrependido me cairia bem. Mas não teve nada disso. Éramos dois adultos e como tal, racionalmente, concordamos que seria o fim.

Nunca me senti tão madura e ao mesmo tempo tão frustrada. Foi incontrolável a volta ao tempo dos meus primeiros namoradinhos. Todo aquele drama ensaiado, as juras feitas de amor proibido, a convicção do pra sempre que nunca existiu. Sabe, eu acho que gostava mais disso que gosto de admitir. Mas agora, como adulta, não vi tanta graça nisso. A maturidade que eu cobrei a punho firme de todos os meus antigos romances, exalava esmorecida pelos meus poros. É, eu cresci.

Passei dias me questionando sobre o que eu sentia, principalmente porque eu não sentia nada. Onde estava a carência, a dependência, a saudade? Essa era mais uma prova de que não daríamos certo, não era? Mas o que não saía da minha cabeça eram as palavras dele “eu sabia que nunca íamos dar certo”. Passados alguns dias resolvi cutucar. Não é que eu estivesse procurando sarna pra me coçar, mas eu queria um desfecho. Pelo menos, um desfecho eu merecia, certo?

Ele me disse éramos muito diferentes, que sentia que não duraríamos, mas que se deixou levar. Disse que nos dávamos tão bem, que a minha companhia lhe fazia tão bem, que mal podia entender como algo assim não fosse pra frente. Disse que não tinha como guardar mágoa ou arrependimento, pois só tinha coisas boas para falar a meu respeito.

E enquanto ele me dizia todas aquelas coisas e se prostrava na minha frente como um grande amigo, daquele que eu sabia poder contar, eu senti. Senti um desespero voraz de tê-lo ao meu lado, uma saudade irracional de suas piadas tolas. Me senti menina, e Deus sabe o quanto esperei por isso. As rugas não me escondiam mais o sentimento à flor da pele.

Pra onde a razão me levou, afinal? Como eu fui covarde! Aliás, como éramos covardes deixando que o medo de um futuro nada certo nos impedisse de ter nosso presente. Como éramos infantis em ditar que o tempo que tínhamos devia ter prazo e, não, prosa. Como fui imediatista em achar que eu precisava de alguém que fosse exatamente tudo que eu buscava, e não, quem estivesse disposto a se moldar a mim.

Eu o interrompi, estava eufórica. Tudo estava claro demais pra mim. Era culpa dos nossos vinte e poucos anos. Achávamos que só podíamos nos envolver com quem fosse a pessoa certa. Passávamos a maior parte do tempo nos preocupando em ser prestáveis, aceitáveis, menos errantes. Cada vez mais covardes. Abrimos mão do risco, dizíamos a torto e a direita quão importante era nossa estabilidade; emocional, financeira, profissional. Como éramos superficiais! Como éramos estúpidos! Deixávamos de lado a chance de viver qualquer aventura, desventura e, claro, ruptura que a vida nos desse por um punhado de certeza que não nos levariam a caminho algum. Vivíamos na contradição da perda de tempo por causa do tempo que não teríamos se não o perdêssemos tanto.

Olhei pra ele e disse, e dessa vez, cada célula do meu corpo pulsava, cada pelo se arrepiava “e se você não soubesse que teríamos um fim, ainda estaria comigo?”

“Claro.”, foi o que ele me respondeu.

Sorri de volta, um tanto receosa, um tanto aliviada. Sinceramente, eu não tinha como saber o que nos aconteceria. Nunca tive. A diferença é que com o passar dos anos, eu me achei mais esperta. Subestimei o tempo, tentei enganá-lo. Mas a verdade é que não podemos vencê-lo, tampouco prevê-lo.

Assumi o controle da minha própria vida naquele momento. Se não fôssemos dar certo que tivéssemos esgotado todas as nossas possibilidades. Que fôssemos ao chão, ao inferno. Se não fôssemos dar certo que fosse real, que me fizesse sentir dentre tanto sentimento algum que servisse.

É culpa dos meus vinte e poucos anos, confesso. Desenvolvi um medo de me perder em outros passos que me matava aos poucos. Errada demais pra ser madura, mas jovem demais pra ser covarde, escolhi pagar pra ver.

 

Amor que não se cede.

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Uma coisa que ninguém me disse é que histórias de amor não são escritas no passado, sobretudo, salpicadas de duvidas compostas em vírgulas. Sendo assim, me acostumei com o gosto amargo na boca de tantas vezes em que mordi minha língua. Eu tinha pressa.

Troquei meu cachorro quente de posto de gasolina por sua comida orgânica. Minha manhã de ressaca no sábado pra assistir desenho animado e comer a pizza congelada do dia anterior ao seu lado. Ele preferia Globo Repórter e eu balada. Ele preferia feijoada no domingo e eu uma boa leitura na beira do mar.

Mas já haviam me dito que eu não encontraria alguém que fosse exatamente tudo aquilo que eu queria. Que eu deveria me moldar, fazer concessões e me doar também.

Talvez eu tenha levado isso ao pé da letra, mas antes assim do que levar um pé na bunda.

Troquei meu salto 15 por uma rasteira de tiras. Traguei o cigarro que detestava e expeli meu coração aos prantos. Ignorei qualquer falta de afinidade, compatibilidade e objetivos em comum. Para fazer dar certo era preciso mais emoção do que razão, disso todo mundo sabe.

Ele me adorava sem maquiagem, com a alça do sutiã aparecendo pela blusa e o cabelo em um rabo de cabelo meio solto, meio de qualquer jeito. E se ele adorava, eu fazia. Não me custava nada, afinal. Quer dizer, não mais do que a mim mesma. Ele me via como um projeto, pronta pra ser moldada – e mudada. E o pior, eu me contentava em ser o fantoche pelo qual ele quisesse brincar.

Mas não fui completamente vítima nessa história. Pra falar a verdade, eu gostava mais do que devia de bater no peito e dizer que tinha um namorado. Me sentia parte de algo maior, algo melhor do que já havia experimentado. Eu desfrutava o sabor da aceitação, e sem perceber fui inclusa no grupo das que conseguiram. Conseguiram o quê, eu não sei bem dizer. Mas eu estava lá entre elas, portanto, deveria estar feliz.

Minhas amigas diziam que eu nunca gostei dele, só gostava de tê-lo. Mas levei um tempo pra aceitar que, na verdade, eu estava apaixonada pela nomenclatura. Pela fantasia que havia criado de que eu precisava de alguém. Eu usava a liberdade como escudo pra fugir de questões que me deixavam a noite acordada. Se eu não sentia que queria estar com alguém, por que então deveria? Eu tinha pressa.

Acabei por mensagem de celular e não me orgulho, mas eu não queria deixar espaço para o arrependimento. Não queria ouvir seus planos de vida a dois e acreditar que fossem os mesmos que os meus. Não eram. Eram deles, eram ele, não eu.

Passada a primeira semana entendi que o que eu sentia era alivio e, não, solidão. É muito fácil confundir os dois; ambos te deixam atordoada, distraída, pensativa demais. A solidão sempre se disfarça de medo, já o alívio não. Ele te invade na leveza de pensar na primeira pessoa do singular, e sem culpa.

“Nós” não conjugava mais meu coração. Me perdi dentre meus próprios planos e na lembrança de quem eu era antes dele. Sabe, eu jamais voltei a ser a mesma, mas me tornei, até então, o melhor reflexo de mim: verdadeiramente livre.

Me encontro a cada esquina, em cada peça de roupa que havia escondido no fundo do armário. Canto alto as músicas que eu gosto com fone de ouvido e em público. Não me encabulo com os olhares de espanto por desfrutar meu sorvete de pistache sozinha.

Abandonei minha carteira do Clube Das Que Conseguiram. O que eu consegui ainda não pode ser nomeado, nem mensurado, e infelizmente, tampouco dividido. Mais vale estar só do que submersa em um amor de faz de conta.

ESTÁ NO AR! – Encarando o pós término.

LEI DO POS TERMINO

Estavam com saudades? Passamos uma semaninha ausente pra poder nos organizar. Agora o Manual vai ao ar toda QUINTA FEIRA, por volta de meio dia, ok? Não esqueçam de acompanhar, curtir, compartilhar, bater palma, mandar beijo e fazer uma oferenda pra Iemanjá. Toda ajuda é super válida! NÓS PRECISAMOS DE VOCÊS!

Quero fazer um adendo e aproveitar pra agradecer a todas as pessoas que tem nos incentivado na rua, na balada, por comentários, por email. Eu não imaginava que poderia ser mais feliz do que já sou COM VOCÊS aqui no Blog. Muito obrigada de coração!

O que vocês acharam desse formato? O que podemos melhorar? Espero ansiosa que me ajudem! :)

TÁ ESPERANDO O QUE PRA SE INSCREVER, HEIN?

Até a próxima semana! :)

Homens tem medo de mulher com atitude.

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A verdade é que mulher de atitude é aquela que abriu mão. Abriu mesmo, sabe? Não, ela não se maquia mais como antes, nem está sempre de salto. Se libertou de qualquer relação afetiva com seu cabelo. Definitivamente, não nasceram um para o outro. Se curou da sua compulsão por etiquetas em roupas, sapatos, bolsas. Argh! O problema não eram os objetos, mas as etiquetas. Assim que ela as tirava, não os tinha com o mesmo prazer que os via. Agora está a salvo.

Abriu mão da postura imaculada, da cara amarrada. Passou a sorrir mais para estranhos, fazer mais amigos e menos contatos. Abriu mão da regalia exposta, se apaixonou pelo simples, pelo menos. Pelo dela, por ser ela. Um preço que quase ninguém quer pagar. Cansou dessa ciranda de sorrisos plásticos. Se mulher direita é assim, ela é assado; esquerda liberalista. Errada, contrariada. Ela é o oposto, o desgosto. Geralmente identificada como a louca. Não liga. Louca lhe cai bem, afinal.

Uma vez, ouviu de colega que ela devia “assustar os homens com seu jeito”, prontamente respondeu que selecionava os homens com seu jeito. Ela fala palavrão mesmo, e é escandalosa, conversa com deus e o mundo, teima em ser o centro das atenções. Em termos de bebida, ela coloca muito macho no bolso. Mas também sabe fazer outras coisas das quais eles se orgulhariam. Se toda casa tem que ter um homem, ela dispôs a ser ele desde cedo. E não é só isso: ela liga no dia seguinte, puxa papo e se der na telha, também dá em cima. Paga a própria conta, – e a dele – dá um jeito pra qualquer mau humor, mas principalmente, mau olhado. Se tem uma coisa que não se preocupa nem um pouco é como está sendo vista – ou falada.

De fato, encontrar alguém a sua altura é difícil. Não por ela, não lhe entenda mal. Mas por eles. Eles não querem uma mulher que seja pau a pau, que domine, que leve pra sua roda de amigas, que saia pra tomar sua cervejinha sozinha, que não o espere em casa assistindo novela enquanto ele está na pelada. O que eles querem é a Sandy. A submissa, a quietinha, a que tenha um passado que não lhe condene. O dela arde em chamas; ela é o capeta de saias.

A mulher de atitude é um desafio, dá trabalho. Os clichês não lhe convencem, é preciso ter essência. Dispensa compatibilidade de gostos, o que ela busca são planos que se casem. Se quiser mantê-la não a prenda, nem sequer seus cadarços são amarrados. Se me a vir partir não a pare, se lhe convir, ela vai voltar sem aviso prévio. Rejeita a premissa de carência afetiva, não se pode sentir falta do que nunca se teve. Ela não é reflexo, é ato. Não é vulgar, mas tenho o sal que falta nas mulheres doces.

Já abriu mão daquela história de príncipe encantado, de cara certo, de opostos que deveriam se atrair. Seu santo não tem o pau oco, é recheado de memórias. Tem um orgulho inenarrável de todas as conjecturas talhadas pela vida, por amores roubados, por amizades perdidas, por dinheiro gasto. Ela é pesada, ainda traz no lombo o fardo de suas asas cortadas. Não se esquece a dor da noite pro dia, é preciso senti-la e vê-la partir. Não pode fingir que não viveu tudo que já fez. Seria uma imensa grosseria com todos os anos cicatrizados na pele como marcas de sol. Não apagaria seu passado nem se pudesse. É dela, tão ela, quanto cada sorriso que guarda na lembrança de qualquer passo atravessado.

A verdade é que ela abriu mão. Abriu mesmo, sabe? Não, não se maquia mais como antes, pois procura por quem não tenha medo de ver seus olhos fartos. Nem está sempre de salto, já tem a cabeça na lua enquanto seus pés saltitam pela rua. Ela dispensa homem sem coragem. Antes um vida só do que uma mentira a dois.

 

Carta aberta a um coração partido

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Caro Coração,

Como você é burro! Eu te pedi tantas vezes que não se deixasse levar. Como se atreveu a engolir as cicatrizes que o passado já nos pintou? Você deveria me proteger, e não o contrário. Não me culpe pelo impulso da intuição que te fazia disparar, eu quis mais do que ninguém acreditar que fosse verdade. Quando comecei a namora-lo você devia ter me avisado, ainda não era tarde demais. Mas você relevou as minhas dúvidas de um futuro a dois na calma em que se moldava ao vê-lo. Pensei que estivesse do meu lado. Eu confiei em você, e você confiava nele.

Não sei, mas às vezes me pergunto se não fui eu que te entendi errado. Se toda vez que se apertava e uma pontada me invadia o estômago tentava me alertar do que estava por vir. Talvez, no fundo, você já soubesse que seria assim. Mais uma vez. Mas, você sabe, o meu problema é a esperança. Sempre foi. Eu continuo achando que por encontrar alguém que goste das mesmas bizarrices que eu posso chama-lo de amor. Ou pior, eu posso chama-lo de meu.

A questão é que quando eu precisei que você gritasse, você esteve colado ao céu da minha boca imóvel. Te sentir contrair tão perto de sair me fez lacrar os lábios com o maior dos silêncios. Eu não queria perde-lo pra ele, mas o perdi pra mim mesma. Ignorei a sentença de desastres calculados pra te ouvir suspirar por mais um pouco. Não entendo porque a tão rara paz que eu sentia contigo ainda alimentava meus sonhos. E o pior é saber que você poderia ter parado ou me parado. Você poderia ter feito mais ou, ao menos, algo. Se tivesse falado, eu teria te escutado.

Tudo bem, não seria fácil assim me convencer. Confesso que eu iria duvidar de ti, à princípio. Mas você não pode me culpar. Ainda guardo os cacos do orgulho que quebrei pra te livrar da dor do arrependimento. E as promessas cíclicas de que nunca mais faria isso de novo até quando terminasse o dia. Sabe, não dá pra esquecer as frustrações que te talharam daquelas coisas que não dizemos mais. Mas com o tempo eu teria acreditado em você, mesmo com raiva, mesmo distante: eu teria acreditado em você. Você poderia ter me poupado do trabalho de selar teus buracos com lágrimas. E grandes potes de sorvete.

Sinceramente, eu ando um pouco cansada de remendos. Gostaria de poder desistir de ti, dos teus inconsequentes palpites, da tua vibração atordoante. Gostaria de poder deixa-lo quieto, calado, assim como se manteve quando eu me despedacei de esperança. Gostaria que não se esquecesse do que sentimos agora. Desse ardor no peito, essa mania de não ver jeito. Porque não há fita adesiva no mundo capaz de consertar a bagunça que você fez. Ando cansada de driblar seus vazios com vodca, e entornar chocolate como se fosse água pra te sentir bater tão distante de mim, e tão perto dele.

Eu só queria que você fosse mais astuto, até mesmo mais desconfiado. Não se pode amar alguém pela forma com que sorri, nem mesmo pelo emaranhado de seus cabelos ao vento. Não se pode amar alguém por meia dúzia de desejos platônicos e meia grama de atitudes reais. Nem pelo grave da sua voz nas manhas de chuvas e tampouco pela cor dos seus olhos quando reflete o sol. Não se ama alguém por fora, por cima, por pouco. Se ama por inteiro, coração. Eu já te pedi tantas vezes pra que não confunda amor com paixão…

Você deveria me proteger, e não o contrário. Talvez, secretamente você sabia que devia ser assim. Eu precisei aprender a surfar nas piores ondas para nadar na calmaria com o menor dos riscos. Talvez, você tenha premeditado tudo. O encontro, o impulso, o medo, o beijo. Talvez, se não fosse assim eu continuasse a crer no perfeito, no certo. E não desistisse de encontrar a metade que nunca me faltou. Mas agora, por fim, eu aprendi: não te troco por nenhuma jura, nem te divido com ninguém mais que não se doe por inteiro.

Não se apaixone por ela.

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Se você se apaixonar terá que trocar seus dias por suas noites nuas.

Vai ter que abandonar seu velho relógio de pulso, essa tua maldita lembrança de que corre contra a idade deixado como presente por quem não soube aproveitá-lo.

E aprender a dividir a maior parte de suas horas com ela. Mas ela vai te deixar com a maior parte do tempo; não faz questão de entrar nessa corrida.

Anda devagar porque já teve pressa.

O único tempo que ela teme é usar o pretérito pra conjurar o presente. Que seja agora, mas nunca ontem.

Não se apaixone por ela, senão a risada que você adora vai se tornar histérica, quase louca, quase rouca.

Você vai dar a ela o direito de interferir nos seus males, atrapalhar seus planos. E não ter culpa quando misturar tuas verdades com as delas.

Se não vier para agregar que não venha para substitui-la. Sejam dois ou nenhum, mas nunca a metade do outro.

Ela se faz por inteira das inúmeras vezes em que foi cacos e foi ao chão. Tem um ciúme danado de qualquer carinho feito de cola pra lhe roubar suas ilusões.

Se você se apaixonar, ela vai te enlouquecer com suas crises.

Por vezes, gorda demais, outra hora, magra demais, baixa demais, morena demais.

Não vai te poupar de nem uma ênfase do seu dia-dia ainda que sapateie na monotonia da rotina.

Vão viver de tempestade em copo d’água para transformar qualquer cor a sua volta em arco-íris.

Você deve saber, nada será ruim ou bom, um será apenas a ausência do outro.

Não se apaixone por ela se teme vexame em público, mentiras deslavadas, cara amarrada.

Ela é escandalosa, impiedosa.

Vive nessa hipérbole contínua de amor medieval; quer que seja batalhado, merecido.

Ela gosta do circo, de fazer do coração alheio picadeiro.

Ela vai brigar pelo ardor da recompensa que só a reconciliação lhe traz.

Vai desdenhar seus sonhos pra que não se acomode a superá-los. Tem uma mania estranha de incentivo baseada no caos. Ela é tudo e nada, mas sempre é algo.

Não se apaixone por ela se não estiver disposto a pedir perdão por seus acertos, reverter suas escolhas certas, seus caminhos planos.

Ela samba na tênue linha da contradição. Não se preocupa nenhum pouco em ser sensata; perde todo seu tempo na premissa de ser feliz.

Se não estiver disposto a lutar por ela, não se apaixone por ela, pois tudo que ela quer é que não a deixe ir.

Ela gosta da aflição de qualquer ligação no dia seguinte, das buzinas desesperadas que pra ela ecoam como músicas, das declarações exageradas.

Ela ri baixinho de seus gritos de raiva, de posse, de medo. Ela gosta disso: de fazê-lo sentir medo. Por ela, claro.

Não se apaixone por ela se espera respeitar seu espaço, entender seu momento e deixa-la livre.

Ela não quer ser livre, quer ser tua enquanto se diz ser dela.

E enquanto implora que nunca mais a procure suplica em silêncio que volte.

Ela é dessas que dá o ponto sem nó vive um dia de cada vez.

Seu problema é a esperança. Tem convicção de que vai achar alguém que goste dela do jeitinho que é.

A verdade é que pra ela a paixão em si é muito pouca, muito superficial.

Ela quer mais do que isso, mais do que você possa oferecer.

Ou, melhor, aquele pelo qual valha a pena mudar, diminuir as expectativas e subverter qualquer fantasia de final feliz.

Ela sabe que quando for amor não vai precisar ter fim.

O segredo.

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Ultimamente, eu tenho vivido a melhor fase da minha vida. Não sei dizer ao certo quando começou, tampouco em que momento eu a percebi. Um dia eu acordei e soube. Simples assim, como deveria ser. Deveria porque geralmente não é. Geralmente não somos simples, nem satisfeitos. Colecionamos nossos fracassos como um esmero invejável a qualquer medalhista; são nossos troféus. Do quê bem, eu não sei, mas são. Às vezes, acho que quem não sofre, não vive. Ou que exista algum tipo de competição masoquista de choro miserável. Não se pode lamentar sobre nada sem que mais alguém erga a voz e o peito com a ofensa de não ter o único a compelir a compaixão alheia.

Mas, sabe, se eu precisasse te dizer o porquê da minha felicidade eu não saberia. Talvez, porque essa resposta sequer exista. Nada me impede de viver uma farsa do pior tipo: a que eu mesma criei. A questão é: que problema há nisso?

O que eu vejo ao meu redor são milhares de pessoas tentando evitar o óbvio, culpar o invisível, se safar da responsabilidade de se fazer feliz. É mais fácil denotar isso a alguém, não é? Um marido, um namorado. Ou algo. Dinheiro. Mas sempre tem alguma coisa a mais. Do tipo que você não pode controlar, nem se apropriar. O importante é dar vazão a toda atitude que te obrigue a se mover.

Culpe o governo, seus pais, as estrelas. Mas se isente do pequeno passo que poderia dar hoje. Se exclua do dever de mudança ainda que a insatisfação tome de conta. O que ninguém te diz é que o contrário da mudança não é medo, é o conformismo. Definitivamente, o caminho mais fácil.

E não pare por aí: inveje o próximo. Duvide da alegria alheia, julgue o comportamento que não condisser com o que você considera certo. Xingue a errada ultrapassagem no trânsito. Maldiga as famílias que se sustentam através das esmolas que você dá a fim de guardar sua vaga no céu. Passe a maior parte do seu tempo a desdenhar a vida que você não tem por onde seus dedos salteiam em fotos. Não dê bom dia ao entrar no elevador ocupado. Desvie de conhecidos que vir casualmente na rua. Ignore comentários aleatórios de estranhos que querem puxar assunto na fila. Não devolva o troco que vier errado. Sapateie na ilusória hierarquia profissional do seu lustroso prisma. Considere-se rico por possuir um objeto de valor e não dar valor a nada que possuir. E não deixe de enumerar suas reclamações diárias sobre a vida que, supostamente, não escolheu ter. Não teve culpa de ter.

Você tem escolha. Você sempre teve escolha.

Felicidade é uma busca, não é uma constante. É preciso trocar seu sorriso amarelo por um coração pulsante, seu equilíbrio por sonhos impossíveis, o improvável por planos, suas pernas por asas e não ter medo da queda.

Tudo que eu não te disse.

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Aprendi um velho truque na infância sobre superação: eu escrevia o que eu sentia, depois interpretava idealizando um amigo, um ídolo, um sonho – como um discurso de agradecimento por prêmios. Um segundo depois eu já não sentia mais nada. Funcionava. E por isso o levei comigo durante anos. Eu dei vida a minha solidão, dei próclise, onomatopeias e hiatos. Qualquer que fosse minha dúvida, meu medo, meu anseio, por maior que fosse, por pior que fosse, não passaria de um rascunho no papel. Ínfimo, irrelevante. Depois transformava-se em um travesseiro, uma porta ou um computador. O que quer que estivesse na minha frente presenciaria toda dramaturgia ensaiada de minhas dores expostas.

Sendo assim, você já deve imaginar como cheguei até aqui; até o ponto de narrar nossas histórias para saciar essa minha mania de conclusão. Não posso evitar, sempre idealizei o nosso desfecho. Não me entenda mal, eu não desejava que fosse assim. Mas, meu bem, com o tempo a gente aprende a não acreditar mais no tempo. Aprende que o passado é uma questão de perspectiva já que sempre tem quem o faça vir à tona, e que o presente é uma questão de força de vontade, logo, sempre tem quem o esqueça e não lute por ele. Quanto ao futuro, não é preciso deixa-lo nas mãos de ninguém. Nem nas minhas, quem dirá, nas tuas. Na verdade, já que toquei nesse assunto, o segredo está em abrir mão dele. Ou melhor, do nosso.

Não me entenda mal, eu não desejava que fosse assim. Mas aprendi a me preparar para o pior mesmo esperando que o melhor aconteça. Me desculpe, mas isso não é ficar em cima do muro. É simplesmente não designar lado a um coração tão maltratado. E, olhe, você ainda tinha coragem de me chamar de fria! E eu bem sei que em certas manhas não lhe poupei das amarguras que guardava no peito. Sem aparente motivo algum, confesso, lhe cuspi deboches, insinuações e prosa. Você se contorcia, se exaltava. Minha recompensa era te ver horas depois pensativo, cansado, se perguntando o que tinha feito de errado para ser amaldiçoado pelas minhas infelicidades.

Não era culpa sua. Quer dizer, talvez fosse criação sua. Mas culpa? Culpa mesmo, não. Aprendi que não se pode culpar alguém por não te amar como acha merecer. De qualquer forma, quanto a isso não guardo qualquer rancor. Até porque eu não aceitei o pouco que você me oferecia. Eu tentei, eu juro que tentei. Podia ter sido mais fácil se eu não me considerasse tão merecedora. Isso! Esse definitivamente era o meu problema: eu me achava digna desse romance de filmes. Por isso, aprendi a distorcer a realidade pra cumprir minha vontade de que era aquela por quem você mudaria. Mas nem todo ponto final transformado em vírgula e toda dúvida em exclamação puderam evitar o óbvio; ser feliz só acontece no final.

O mais engraçado é que o nosso fim não foi o final de nós dois por mais que tenhamos acreditado, se esforçado, se evitado. Nosso fim era inevitável. Um misto de alívio e agonia de sumir com a nomenclatura que nos perseguia por anos. Já o nosso final foi premeditado. Por mais que tenha parecido que de todas as coisas me sobraram só as metades, de todos os olhares só a compaixão, de todos os caminhos, a dúvida. Eu não acabei ali; eu nasci. Não me entenda mal, eu não desejava que fosse assim. Eu realmente quis acreditar que nossa história fosse diferente, capaz, exceção. Que batalharíamos por algo concreto, palpável, real. Mas aprendi que por mais que a gente queira que algo aconteça, não depende exclusivamente do nosso esforço. Às vezes, é uma questão de perspectiva: nem toda escada pode ser feita de topo.

Abandonei minhas lembranças; aprendi que proferir o passado não é auto afirmação do que se é hoje, é covardia. Desnecessário é se orgulhar de ser inflexível, imutável. Se eu fosse a mesma sequer seria eu mesma durante todos esses anos. Eu colhi a coragem retraída em cada gole em seco. “Vai chegar o momento”, dizia pra mim mesma. Não me leve a mal, eu não desejava que fosse assim. Mas a gente cansa de esperar iluminar quem nos faz de sombra. Aprendi que tem gente que, simplesmente, não sabe quem tem ao lado. Que se contenta com carinhos e falso incentivo monogâmico. Dispensa o desafio do confronto, do mais, do tudo. E, principalmente, do nada. Do silêncio em que o constrangimento não faz morada.

Aprendi que você gostava do conforto de pensar “se já está bom, por que mudar?”. Me desculpe, meu bem, mas sempre fui inconformada. O nosso fim era inevitável. Eu vivia a beira do abismo entre tudo que eu podia ser e tudo que você me permitia ser. Sempre tive asas, mas só aprendi a voar quando me livrei do peso de pensar que eu não podia ter nada melhor do que já tinha. Ou alguém. E eu tive: eu mesma. E se agora te escrevo é porque não sinto mais nada.

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