ESTAMOS DE VOLTA! – Manual Do Borogodó #7

teaser fofoca

Depois do nosso recesso não programado por conta do Carnadezembro (o melhor mês do ano de toda história da humanidade) em que tivemos que simplesmente sobreviver a árdua rotina de festas, álcool, amnésia, praia e escassez de dinheiro – uma espécie de Jogos Vorazes em que só os fortes conseguiram – voltamos com muito conteúdo! Foram tantos acontecimentos e história entrelaçadas e romances abandonados e quilos ganhos (eu sei que dá pra notar, não me amolem) que o MDB teve que voltar pra deixar registrado nossas experiências.

Então, toda QUINTA FEIRA, 12h, no Youtube, obviamente.

Se você gosta, por favor, curte, compartilha no Facebook, marca seus amigos, nos manda comentários e, principalmente, SE INSCREVE!

Isso ajuda muito a gente, de verdade. Apesar de parecer uma besteirinha, né? Então, faz que tua vaga no céu tá guardada! :)

Sobre Je Suis Charlie.

Charge-Je-suis-Charlie--size-598

Sou artista plástica há treze anos; isso é mais da metade de toda minha vida. Eu pinto e desenho desde quando aprendi a segurar um lápis e hoje, como vocês sabem, escrevo porque não consigo viver longe da arte. Por isso, esse atentado ao jornal francês Charlie Hedbo, em especial, mexeu bastante comigo. Principalmente porque sou ateia, mas esse assunto já é um sobre o qual não falo muito a respeito. E por falar em respeito, esse é o meu verdadeiro motivo.

Se me perguntam porque eu não acredito só respondo “porque eu não preciso”. Antes de mais nada, quero salientar que o fato de eu não precisar se deve a minha própria formação de força, caráter e fé. O que quer dizer que, eu, Samantha, com vinte e três anos muito bem vividos, sei que não há espaço para deus, alá, maomé, jah e qualquer outra divindade na minha vida porque não sinto necessidade ou falta da mesma. Independentemente de qual situação conflituosa ou desastrosa eu esteja passando, eu simplesmente não me apego a nenhuma delas. Levanto a cabeça, faço um plano, traço metas e vou à luta. Mas isso não diz, em hipótese alguma, que essa MINHA forma de enxergar a vida é melhor ou pior do que de QUALQUER outra pessoa. Ou seja, o que eu tenho pra mim como funcional não quer dizer que seja o melhor pra você ou que eu sequer estou certa sobre isso. Aliás, para começo de conversa, isso de jeito nenhum se trata sobre certo e errado.

Agora vou explicar o que aconteceu.

Charlie Hedbo é um jornal satírico francês famoso por fazer críticas às religiões há mais de 10 anos. E, obviamente como acontece com qualquer veículo de comunicação que expressa uma opinião concisa – ainda mais tratando-se de um assunto que AINDA é um tabu – sempre sofreu ameaças. Inclusive, já havido sofrido outros ataques às suas instalações de radicais islamitas. E, mesmo assim, nunca pararam com as publicações que por meio de cartuns retratavam Maomé.

Se você é do tipo que se sentiu de alguma forma confortável com a situação, mesmo que jamais admita isso em voz alta – principalmente porque a moda é postar #jesuischarlie nas redes sociais – então, sinto dizer que você entendeu os fatos tanto quanto uma porta.

Sendo assim, vamos começar do princípio: o islamismo.

Os devotos da religião são chamados de muçulmanos e acreditam que Maomé foi o último profeta de Deus e que o Alcorão (e o Sunna) é a versão inalterada da revelação final de Deus. Mas também tem Abraão, Moisés e Jesus como profetas e os livros sagrados Torá, Salmos e Evangelho formam a coletânea de ensinamentos. Eles defendem o casamento de adultos e crianças, permitem a poligamia dando ao homem o direito de ter até quatro mulheres, acreditam no Juízo Final em que você seria julgado e punido por não seguir os Cinco Pilares do Islã (a fé, a oração, o crescimento, o jejum e a peregrinação), dentre outras crenças.

No Líbano, por exemplo, eles acreditam que as mulheres foram feitas para servir os homens e após o casamento elas perdem muito de seus direitos. Mas, na verdade, os preconceitos são culturais e não da própria religião que, assim como qualquer outra, prega ensinamentos e bondade e altruísmo. Mas você deve se lembrar deles de duas formas: através da novela O Clone ou da Al-Qaeda.

O problema são as pessoas. O problema sempre são as pessoas.

Então, em qualquer tipo de organização, sociedade etc, há aqueles radicais com interpretações extremistas. É por isso que quase metade da população muçulmana acredita que o Ocidente quer destruir o Islã. É por isso que se formam organizações terroristas, como a Al-Qaeda. É por isso que acontecem atentados que matam milhões de pessoas e tudo vira notícia. É por isso que a tevê se foca tanto no terrorismo; porque são atos justificados pela ideologia deles e repassados adiante. É como dizer que não há uma forma de detê-los e por isso o mundo inteiro DEVE teme-los, mesmo que apenas alguns países sejam diretamente afetados por eles. A prova disso foi a propagação de seus ideais e a nomeação de um outro líder após os americanos terem dado “um jeitinho” no Osama Bin Laden. É uma bomba relógio que explode de tempos em tempos, literalmente.

Pronto, se você não sabia nada, agora entende o básico.

Acontece que ao contrário do nosso precário jornalismo que visa seus próprios interesses e, não, o repasse imparcial das informações, há profissionais e jornais – ainda bem – que prezam pela importância da comunicação e liberdade de expressão, dentre eles, os cartunistas.

Mas humor negro sempre foi uma jogada perigosa; metade das pessoas que riem é julgada como maldosa e a outra metade simplesmente não entendeu. E pela religião islâmica é proibido representar figurativamente qualquer profeta. Eis o motivo do atentado: vingança. Sendo assim, três homens invadiram a sede do jornal Charlie Hedbo em Paris e assassinaram 12 pessoas, incluindo o diretor do jornal e dois cartunistas, e deixaram 11 pessoas feridas. Tudo isso entoado pelo grito de guerra “Deus é maior”.

Pisou no meu calo.

Primeiro por se tratar de um atentado à liberdade de expressão, à comunicação, ao direito individual de pensar e aos artistas desse ofício tão pouco valorizado. Segundo por se tratar de uma guerra por religião (mais uma vez) incentivando a disseminar o preconceito contra os islamistas que realmente seguem esse estilo de vida para fazer o bem – assim como as religiões devem ser, a propósito.

Sabe a fé? Ela existe pra mim de uma forma diferente do que existe pra você. Eu a sinto com a mesma intensidade, suponho, mas escolhi percorrer um caminho menos convencional porque ele me dá mais tranquilidade, estímulo e paz no coração. Ou seja, se você precisa de deus e sente necessidade de tê-lo, sente-se em paz quando vai a uma igreja, sente-se mais forte e esclarecido, não vejo PORQUE você deva sequer se questionar sobre a sua existência. Não se mexe em time que está ganhando. Mas a única verdade absoluta sobre o assunto é que não existe verdade absoluta. Para cada pessoa funciona de um jeito.

Isso é mais importante do que as duas mil pessoas que morreram em cinco dias de ataque à Nigéria? Isso é mais importante do que a condição sub-humana dos africanos? Isso é mais relevante para nós, brasileiros, do que a atual corrupção que despenca o país? Ou mais significativo para nós do que a manifestação do Passe Livre que também ocorreu essa semana com bem menos direito a manchete? Não. Afinal, foram só 12 mortos em um país de primeiro mundo, não é? Temos problemas maiores, não temos?

No entanto, se não fosse por essas pessoas que todos os dias, às vezes em tempo real, se arriscam, se expõe, se manifestam e entregam-lhe a notícia de mão beijada enquanto você toma seu café da manhã muito bem sentado no conforto e na segurança de sua casa, você SEQUER saberia sobre esses acontecimentos ao redor do mundo que fazem com que você sinta-se humanitário o suficiente para acusar a importância da notícia como sensacionalista.

Pode até que ser que isso não seja relevante pra você. Que você seja do tipo que só preocupa-se com o próprio umbigo e suas curtidas em fotos. E eu respeito que essa seja a sua opinião ou que se reserve ao direito de não ter opinião alguma. No entanto, a comunicação existe para te oferecer a chance de pensar a respeito de tudo e a arte existe pra tornar o pensamento, um sentimento. Arte toca, comove, e não pode ser calada. Não deve ser calada.

Então, essa não é uma pequena causa. Aliás, é a maior causa de todas. Essas pessoas que morreram brutalmente assassinada pela represália de mais uma ideologia religiosa, morreram pra que VOCÊ tivesse a chance de pensar, a liberdade de opinar. E se, por acaso, você acha que o desrespeito começou por parte do jornal ao confrontar a religião islâmica, você faz parte dessa cúpula de opressão contra o que for diferente de ti. E isso reflete em absolutamente todos os aspectos da sua vida. Em outras palavras, a liberdade de opinião defendida também lhe dá o direito de ser estúpido ao se expressar.

Mas respeito não pode ser ensinado como andar de bicicleta. Tem que ser praticado, dia após dia, em todo tipo de situação. Se você se torna muito convicto sobre suas verdades perde a capacidade de ouvir. Se você não puder ouvir o que lhe confronta também vai ficar cego. É uma reação em cadeia. Antes que você perceba, acaba por fazer parte dessa ditadura de informações que só podem ser repassadas se satisfazerem os interesses de alguém ou o que for politicamente correto. E não há NADA pior em uma sociedade do que tornar a informação politicamente correta.

Mas o que eu mais admiro de toda essa causa é porque foi incentivada pelo humor. Sabe, essa capacidade de brincar com nossas diferenças em escala mundial é algo que deveria ser aplaudida de pé e, não, condenada. Torço por um mundo em que a consciência seja propagada através do riso.

Um adendo: Je Suis Charlie significa Somos todos Charlie.

Casar é moderno.

tumblr_lf7ub1FKaY1qg3h5io1_500-e1327235668182

Dia desses, ouvi a conversa da minha mãe com minha tia ao telefone:

“Paula foi muito esperta! Casou logo. Casou cedo! É isso que tem que fazer. Eu peço a deus todo dia por um marido pras minhas filhas. Um marido e um emprego. Mas primeiro um marido, né? Antes que elas fiquem velhas porque emprego não tem idade, casamento tem.”

Por um momento, me coloquei no lugar da minha mãe e até entendi o medo dela. Veja bem: filha de fazendeiro, onze irmãos, casou cedo, mudou de estado e exerceu a profissão “mulher de” até se tornar “viúva de”, ainda teve o azar de parir uma louca de pedra logo de primeira – no caso, eu. Sempre dei trabalho. No colégio, na catequese; em casa então, nem se fala! Não levo a mal esse sentimento de querer se livrar logo; até entendo. Nunca se sabe qual será meu próximo passo à beira do penhasco. Coração de mão aguenta tudo, mas não merece essa aflição.

Acontece que esse fato me fez pensar bastante sobre o casamento em si. No tempo dela, as pessoas casavam porque deviam, porque foram criadas para isso. “Porque mulher só fica rica se for herdeira ou casar com homem rico”, como já ouvi. Ou pior, na sórdida categoria provinciana a ideia de que “lugar de mulher é em casa, cuidando dos filhos.” Basicamente, é dizer às claras que mulher precisa ser rica e para ficar rica precisa de um marido rico.

Mas, e hoje em dia que as mulheres exercem profissões ditas como “masculinas” e ganham – geralmente -o mesmo valor que eles, pra que serve um casamento?

Sabe, hoje só casa quem quer. O golpe da barriga não cola mais. E, sinceramente, conhecer alguém que venha com um filho de bagagem não é um empecilho. Pelo menos, não pra mim. Hoje a gente se vira, dá um jeito. Arruma dois empregos, faz uns bicos, troca de faculdade. Hoje a gente decide ser artista da noite pro dia – assim como eu – e larga tudo sem olhar pra trás. Hoje a gente joga na Sena, na bolsa, aposta em um sonho ou no poker. Apesar dos pesares da sociedade que vivemos, ainda assim, temos mais condições de nos ater a nossa própria liberdade. Não é que a coisa ande fácil, mas a gente amadurece. Nem chinelada dói mais.

Casamento, então, não é mais destino, nem obrigação. É o mais admirável ato de amor. Você não precisa se comprometer com uma só pessoa – no caso da nossa cultura – mas, tenta. E tenta porque aquela pessoa, dentre todas que você já conheceu, vale a pena. Tenta porque você não precisou deixar sua vida de lado pra viver a dele, e ele não precisou de esforços monumentais pra ter seu apoio, foi pura cumplicidade. Foi soma e, não, divisão. Você tenta porque é alguém com quem gosta de conversar, e quando todas as suas histórias forem ditas e só lhe sobrarem as rugas da lembrança, ele vai te conhecer no antro do seu silêncio.

Tenta porque te aguentar de tpm vai ser tão difícil quanto aguentá-lo no dia da derrota de seu time. E fazê-lo rir depois de perder uma grande negociação vai ser tão bom quanto aquela declaração em público que você fingiu timidez. Você tenta porque quer ter alguém que não vai engolir em seco ao dizer que você é quem ele quer passar o resto da vida. E mesmo quando cair na rotina e se sentir cansada, você continua tentando por lembrar o quanto seu mundo mudou pra melhor depois que ele entrou. Tudo isso porque quando você casa com alguém, casa com os detalhes e não só com a família ou a nomenclatura, pra que se toda tentativa der errado, na pior das hipóteses, você não vai ter dúvidas de que teve boas razões pra tentar.

Então, minha mãe que não se preocupe, eu quero um casamento. Pode não ser minha prioridade agora. Ou daqui há 10, 20 anos, mas eu quero. E, digo mais: com tudo que eu tenho direito. Véu, grinalda, bolo de três andares, piadas infames da tia solteirona, vergonha alheia de primos distantes. Quero tudo mesmo, sabe? Pétalas de rosas quando eu passar, músicas da Disney tocando (sim, falo sério), nome das solteiras na barra do vestido.
Mas pode ser também que seja só um papel assinado frente a um escrivão. Pode ser que não tenham convidados, só testemunhas. Pode ser que seja a coisa mais sem graça que eu já fiz em toda minha vida, mas ainda assim, sei que vou ficar com o coração apertado.

Casamento não é destino, nem obrigação. Casar é moderno; a gente não precisa. Por isso, quem resolver tentar que seja no seu tempo e pelos motivos certos: a escolha e o amor. Foi-se o tempo em que se jogava o buquê pra decidir nossa sorte.

A gente sabe e mesmo assim faz.

O Lado Bom da Vida (7)

Passei por todos os estágios do término numa fração de segundos. Primeiro, exigi um desfecho que se fez por parte na minha imaginação, já que antes mesmo de incitá-lo, eu já havia discutido comigo mesma centenas de vezes, certa de quais seriam suas respostas. Nesse momento, eu chorei. Chorei mesmo, descontroladamente, por tudo que nunca havíamos dito. Vê se pode, coisa de doida, não é? “Sentada em um quarto escuro, falando sozinha, ela chorava.”, minha mãe provavelmente diria aos médicos quando viessem me buscar.

“É só paixão, Dr.” Mas ele já deve saber, a paixão deixa a gente meio louca mesmo.

Depois veio a desculpa. Eu precisava de qualquer pretexto para falar com ele. Precisava dar um jeito de transformar um bom dia em “POR QUE VOCÊ NÃO ME AMA MAIS?!”. Insano, patético. Era isso que eu queria. Essa era eu. Mas não antes sem ser um gênio da dramaturgia, busquei nos detalhes a distorção perfeita da frase. Nessas horas, tenho certeza que a Glória Perez babaria por mim. “Menina prodígio”, eles diriam. Mas que nada! Eu só alimento o amor com insensatez, uso da loucura para encontrar meu equilíbrio.

Consegui puxar a conversa pro lado que eu queria; falaríamos de nós. Me pergunto se o pobre coitado da outra linha sabia que foi tudo de caso pensado, mas não deixo que esse pensamento permaneça. Agora é hora de sentir pena de mim e de acreditar que eu mereço, de fato, esse desfecho. E não, que estava procurando sarna pra me coçar. Porque assim, é bem verdade que eu poderia ter deixado isso quieto, afinal, não nos falávamos há alguns dias, mais alguns e ficaria tudo bem, não é? Mas não, não eu. Pra mim, nunca acaba quando termina. Tem que ter mais, tem que ter um diálogo interminável, tem que expor os piores segredos. Falando nisso, posso fazer uma confissão? Desfecho tem mais é que doer, dilacerar meu coração. O término, não. Tem que ser bonzinho, tem que ser devagar, tem que terminar com promessas de que tudo vai ficar bem e sempre estarão ao lado um do outro para o que precisar. O término precisa ter esse aconchego, até porque pra um dos dois está sendo um alívio quanto para o outro, um martírio.

Mas o desfecho é quando os dois já estão em processo de superação. É só pra você fortalecer pra si mesma os motivos pelos quais é bom não estar com ele, intercalando com frases do tipo “apesar disso, eu queria estar com você”. Que, sejamos francas, são como deixar uma porta aberta. São como dizer: Ei, dessa vez não valeu, mas quem sabe na próxima, ok? Sentido não deve fazer nenhum. Aliás, se perigar fazer sentido, pare tudo e comece novamente. E, dessa vez, só pare de novo quando estiver falando sobre as nuvens do céu e dos protozoários do lençol. Vai falando, vai falando. Despeje tudo como se não houvesse filtro mental.

Quando a primeira resposta dele coincidiu com minha trama experimentei uma espécie de alegria maligna. Do tipo: haha, te peguei! Sequer controlei meu risinho de canto de boca de quando a previsão do horóscopo acerta. Eu estava me sentindo a própria Mãe Dinah. Mas na hora só pude pensar na minha resposta calculada e como ficaria linda naquele momento. Sério. Inclusive, tive muita sorte por tê-la escrito, aliás, por ser uma discussão por escrito. Como é incrível ter nossa obra prima de término em mãos depois – e até a eternidade. Obrigada, internet! Se fosse olho no olho, eu teria gaguejado em cinco minutos e chorado logo depois.

A partir daí, foi bem fácil. Algumas juras que eu nunca iria cumprir para fazê-lo sentir-se mal, alguns pedidos de desculpas disfarçados em um cuidado pelo bem estar do outro que simplesmente não existe e, por fim, as conclusões que calejavam o peito. A verdade nua e crua, mas amaciadíssima pelo ego do indivíduo.

Então, esperei que ele me cuspisse seus verdadeiros motivos, seus porquês sobre não darmos certo. Esperei que ele dissesse tudinho, e como um turbilhão revidei cada alternativa fazendo-o pensar que eu poderia ser tudo que ele queria. Podia mesmo. Mas eu não queria porque ele não merecia. Ou, na verdade, eu também não merecesse. Honestamente, nunca fui flor que se cheire.

Claro que o tiro saiu pela culatra e acabei “ouvindo” coisas que não havia previsto. Talvez, ele entendesse desse jogo tanto quanto eu. Não sei. Só sei que me senti realmente mal. Aí veio o choro e a vontade do olho no olho. Porque quando a gente chora, olha no olho é sempre bom. Comove. Envolve. Do jeito que eu estava, ele não poderia contra mim. No entanto, só tive afago do escuro, mais uma vez. Sentada em um quarto escuro, falando sozinha com o celular na mão, ela chorava. “Ficou pior, Dr.”, minha mãe diria. “Onde já se viu um aparelho daquele tamanho fazer uma menina chorar desse jeito?”.

Mal sabe ela que nele cabiam todos meus sonhos, todos meus medos e, naquele momento, toda minha esperança também. Porque, no final das contas, é só sobre isso que se trata: esperança. Maldita esperança.

Após secar minha última lágrima, me senti extremamente cansada daquilo tudo. Parecia que eu estava há dias carregando um peso enorme nas costas e agora me via livre, mas não o tipo de liberdade que me fizesse feliz, mas uma liberdade fadigada de quem diz “Ok, vida, você me venceu. Me deixei ir agora.”

Exagero, obviamente. Aliás, tudo, desde o princípio: um tremendo de um exagero.

Eu podia ter ficado quieta, não podia? Ou ter me contentado com meus ensaios sobre o fim, mas não, eu tinha que vive-lo. Inclusive, pensando bem, agora entendo que esse foi meu problema desde o início: a ânsia de viver o inventado. Fiquei cega pela projeção que criei de um romance, por alguém que cultivei em meu peito que sequer me deu o aval pra isso.

Se tem uma coisa que eu não posso dizer é que fui enganada. Não, eu não ouso abrir a boca para me colocar no papel de vítima; esse direito eu não tenho. Na verdade, a não ser em casos extremos, quem de fato é enganado ao se envolver com alguém? Ele não era o tipo que eu queria, disso eu já sabia. No fim das contas, tudo se tratou de uma escolha e pouquíssimas renuncias. Meu problema sempre foi esse: paixão por qualquer um, mas amor? Amor mesmo, sabe? Por ninguém. Exagero, obviamente, mas a gente sabe e mesmo assim faz.

Manifesto a favor das solteiras.

solteiras

Recentemente, saí com uma turma de amigos recém solteiros. O pior tipo, diga-se de passagem, porque de solteirice eu entendo bem. Estou há um ano lutando contra o preconceito do status e dos olhares de pena. Os recém solteiros não passam por isso. De jeito nenhum. Eles podem tudo. Eles podem trocar noites por dias, musas por criaturas, beijos por telefones, não têm hora para voltar e fazem amigos em qualquer esquina.

Quanto a mim, sou bombardeada diariamente pela curiosidade alheia de por que cargas d’água ainda não expus um macho para chamar de meu. Sinceramente, sinto inveja desse aval da sociedade que diz “Vai lá, campeão! Você merece essa folga!”. Só tenho direito as frases de provérbio chinês de biscoitos da sorte e ao horóscopo impresso em jornal velho. Mulher solteira por um ano ou mais não é escolha, é problema.

Mas o problema mesmo foi quando me peguei acreditando nisso. Me cobrei por noites em claro a resposta de não ter a facilidade de um namoro engatilhado. Me questionei por horas a fio o que havia de errado comigo. Então, me forcei a me envolver, a gostar. Me forcei a enxergar os pontos positivos e jamais listar os defeitos. Às vezes, me senti um tanto Amélia e um tanto adolescente. Eu sentia que precisava ter alguém e, não, que queria ter alguém, e mesmo assim, insisti fervorosamente. Fui catequizada pela premissa de que eu havia ficado pra titia.

A verdade é que chega uma hora que cansa. Essa vida adulta que por vezes me parece precipitada, também sufoca. E assusta. Honestamente, acho que nutri o desejo de estar com alguém mais pelo medo de ficar sozinha do que pela vontade de uma vida a dois. Porque, sinceramente, ficar solteira é ousadia, mas SER solteira é um ato de coragem. É quando você não se sente incompetente por terminar o ano sem o beijo da virada, nem se sente excluída por não participar de reuniões em que estejam só casais. É também não se sentir constrangida em dizer há quanto tempo está nessa fase e assumir o controle da reviravolta por saber que isso acaba quando você quiser. Na realidade, ser solteira é ser livre, ser leve, no verdadeiro sentido da palavra.

Relacionamento sério mesmo, eu não quero com ninguém, nem mesmo com o homem da minha vida. Aliás, principalmente não com o homem da minha vida. Eu quero que essa leveza se perpetue, essa paz de espírito proveniente da segurança de saber quem eu sou, mesmo estando sozinha, se fortaleça.

Quero um relacionamento patético em que se torne impossível terminar uma discussão sem transforma-la em piada. Quero um relacionamento estranho em que a gente crie um código para falar em público. Quero um relacionamento infantil em que vamos trocar a cozinha gourmet por um cento de salgadinhos com coca. Eu quero um relacionamento que seja tempestade em dias calmos, e que me faça sentir algo, o que quer que seja. Quero um relacionamento financeiro munido da estabilidade de planos e, não, de dinheiro. Deixo a seriedade pras horas em que é vital; ao meu lado só quero aqueles que vão rir quando eu tropeçar ou inventar apelidos pro meu terrível corte de cabelo. Que seja tudo isso, mas que, por favor, não seja sério.

E, honestamente, prefiro esperar pelo tempo que for por alguém que me faça feliz dessa forma do que me sujeitar a essa mania visceral de alimentar o perfil de mulher “namorável”.
Não me culpo mais por gostar de algumas noites na balada, nem mesmo pelo o que eu bebo ou o que eu visto. Gosto de não ter que dar satisfações sobre a minha vida, de aceitar convites inesperados, de tornar estranhos conhecidos após um jantar. Me livrei do peso na consciência por ver o sol nascer enquanto outros caminham. Eu gosto de ser dona dos meus dias; de fazer da segunda um sábado, da quarta uma sexta. Gosto de não me preocupar com meu celular descarregado dentro da bolsa porque tudo que eu preciso é o que tenho a minha frente. E de dançar até o chão tanto quanto assistir um filme de comédia romântica embaixo do edredom.

Ciúmes só tenho daqueles que descobriram isso há mais tempo do que eu, e desconfiança só por quem acredita que o caminho que têm como o melhor pra si, também sirva para os outros. Quanto a paixão, nunca a senti tão forte em toda minha vida. Aprendi a cuidar de cada uma das pessoas que entraram despretensiosamente, de cada lembrança cultivada entre porres e ressacas. Aprendi a colecionar amigos e, não, mágoas de relacionamentos anteriores. Desejo, inclusive, que todos aprendam isso mesmo após o mais sofrido término.

Sabe, são pessoas e pessoas. Pode ser que isso nunca seja o ideal pra você. Pode ser que você tenha se condicionado a necessidade de ter alguém sempre para se sentir bem consigo mesmo. E se isso te faz feliz, te digo com todas as letras: vá em frente! A questão é justamente essa: seja feliz, não seja um status nas redes sociais, nem um sorriso amarelo em foto. No fundo, você sabe que não precisa disso, assim como eu sei. Mas a gente faz uma escolha, entende? No final, é só você e seu medo contra o mundo. Mas se você não souber quem é, não vai importar quem esteja ao seu lado.

Amor é outra coisa.

Anne-Hathaway-Love-and-Other-Drugs

Definitivamente, amor não se trata de sexo e tampouco sexo se trata de amor. Mas embora essas sejam verdades universais, ainda há quem se veja embevecido com a ideia de que um substitua o outro. Erro de estagiário. Não dá pra substituir o imaginário pelo real, perspectiva por gosto. Sejamos francos, a única coisa que diferencia um apaixonado de um esquizofrênico é a falta de capacidade do enfermo de provar que o que ele vê, existe. Quem vê rostos em objetos, vê amor em comodismo, até porque, cada um acredita no que quer. Assim sendo, a gente esquece do racional quando está envolvido na linda história contado por outro. E, principalmente, não nos damos conta que histórias de amor são contadas a dois e com uma pitada de sorte, podem-se tratar da mesma! Desce do cavalo branco, príncipe, afinal você já foi o Sergio Mallandro. E vai guardar o sapato que deixou no meio da escada, princesa. Aqui não tem nenhuma empregada tua.

A verdade é que amar é para os fortes. Você não escolhe, se desafia a não se apegar. É preciso ter mais perseverança do que orgulho pra se apostar tão alto. Aliás, sequer tem a ver com jogo. Amar é sobre timing. Aquele momento em que uma risada, uma jogada de cabelo, uma coincidência de gostos bizarros é tudo. Aquele em que você procura justificar de quem foi a culpa; se foi artimanha do destino ou ironia do coração. E, mais uma vez, termina com uma coletânea de lembranças guardadas à fino trato. Isso é timing; um divisor de águas, o momento de impacto. Em outras palavras, quando você ouve vidros estraçalhando-se, panelas caindo no chão e inevitavelmente percebe que se fodeu.

Bem aventurados aqueles que tem o tesão como escolha, que pouco se importam com bons costumes e maus hábitos. Que tem o apelo do corpo e da mente em que o espírito se faz de louco. Tem desejo, vontade e paixão. Aqui e agora. Não existe preconceito, nem raça. Não é preciso nome, nem um abraço amigável. Você pode ser direto, indiscreto, nu e cru na sua verdade. Ser você de trás pra frente com a alma exposta e a cara à tapa. É a química que libera substâncias que produzem a sensação da felicidade, acelera o coração e aumenta a excitação. Sexo só tem como futuro o calor dos corpos, o orgasmo e as sacanagens ao pé do ouvido. E satisfeitos um com o outro, vem o alívio. Sem cobrança, sem café da manhã.

O que te faz ficar saltitante não é o amor, é kangoo jump. Não é amor que te faz esquecer as dores, é a vodka. O que te deixa paralisado não é o amor, é o trânsito. O que te faz dormir em paz não é o amor, é Dramim. Não é o amor que te faz enxergar o mundo de outra forma, é o exame de vista. Nem é o amor responsável pelas suas borboletas na barriga e, sim, a fome. O frio na barriga, à vezes, é porque você está constipado e, não, apaixonado. O que te dá a chance de mudar o que está diante de você não é o amor, é o controle remoto. Nem toda retribuição de declaração é amor. Pode ser imposto de renda.

Amor é outra coisa.

O coração não se engana.

SONY DSC

Esses dias, eu estava trabalhando em um evento (ou seja, divã pra doido, mais uma vez). E comentei com meu colega justamente esse frequente acontecimento em que as pessoas me viam parada, sozinha, e pensavam “OLHA, TERAPIA GRATUITA!” e vinham desabafar. Citei o caso da noiva rebelde que detalhei em alguns posts atrás. Pra minha surpresa, o senhorzinho da limpeza se ateve a conversa e logo quis participar. Eu não lembro o nome dele, mas o achei muito parecido com o Dunga dos sete anões da Branca de Neve – começando pelo tamanho – então, vou chama-lo assim pra melhor descrição dos fatos.

“Todo mundo engana, minha filha.” – e assim ele começou me dizendo. Sem mais, nem menos. Sem introdução, sem uma apresentação sequer.

“Engana? Como assim?”

“Engana, ué. Homem, mulher, todo mundo engana.”

“Em um relacionamento que o senhor quer dizer?”

“Em tudo, mas principalmente em relacionamentos.” – Dunga coça a cabeça um tanto quanto desmotivado. Acho que esse assunto (que ele mesmo puxou, diga-se de passagem) de certa forma lhe toca em alguma ferida.

“Mas por que o senhor acha isso?” – Eu sei, sou insistente.

“Porque em um relacionamento de muito tempo as pessoas precisam se enganar. Senão, não vai pra frente.” – Imaginei-o com sua anãzinha em uma casinha que caberia no meu quarto, tão bonitinhos. Tudo em miniatura como amostras grátis de supermercado.

Droga, fugi do assunto.

“O senhor é casado?”

“Há 40 anos.”

“E já traiu?”

“No início, sim. Mas depois nunca mais. Ela sempre descobria, ela sempre dava um jeito. Ela sabia até antes de acontecer.”

“E sabe se ela te traiu?” – Eu toco na ferida, desculpe.

“Acho que não. Não sei, mas acho que ela nunca faria isso.”

“Ué, e de onde vem sua teoria que todo mundo engana?”

“Porque eu não conto pra ela tudo que acontece. Eu não conto da outra que me liga sempre. Não conto que ela vem aqui no trabalho. Eu a engano porque escondo dela pra não ter problema.”

 

Pausa dramática na história pra eu fazer um comentário: ATÉ O DUNGA TINHA MAIS DE UMA MULHER ATRÁS DELE E EU CONTINUO SOLTEIRA!!

 

“Mas isso não é enganar, eu acho… Enganar seria trair, principalmente, a si mesmo. Se você quer estar com outra, por que está com ela, afinal?”

“Porque eu me acostumei. Sou eu e ela desde sempre. Cuidamos dos nossos filhos, agora dos nossos netos. Nossa família é linda. A gente se acostuma a viver assim.”

Depois desse momento não lembro ao certo o que aconteceu. As possíveis opções são 1) eu fui comprar uma coxinha, 2) eu fiquei tão submersa nos meus pensamentos que não o vi saindo de perto, 3) eu fiquei distraída demais com a coxinha pra vê-lo se afastar. Ou os três.

Naquele dia, o velho Dunga me deixou com uma pulga atrás da orelha. Será mesmo que todo relacionamento duradouro é com base no conformismo? Você tem que se cegar pras coisas que poderiam afasta-los em prol de algo que julga mais estável? Mas a troco de que vem essa estabilidade? Da sua própria felicidade? Quando deixamos de ser felizes pra sermos acostumados?

Fiquei me perguntando o que faria um relacionamento durar. Amor, confiança, compromisso, honestidade e dinheiro, claro. Ninguém pensa no tempo, ninguém inclui o tempo como um fator imprescindível na paz matrimonial. As pessoas pensam que o tempo é consequência, que se houver todos esses outros ingredientes, então o tempo virá junto. De certa forma, eu vejo sentido nesse pensamento, mas não acho que seja bem assim. Acho que o tempo é um componente importantíssimo, pois ele dita as mudanças que teremos, o fortalecimento do sentimento, assim como o enfraquecimento daquela paixão juvenil. Basicamente, o tempo que mestra todo o relacionamento. E se não estivermos cientes dele, do cair na rotina, do chegar das rugas, e as próprias mudanças de comportamento que são naturais, então, casamento é utopia.

De fato, não tenho qualquer conhecimento da vida a dois. Ou de morar junto. Mas algumas opiniões são provenientes de princípios, valores. Eu discordo do Dunga quando ele diz que todo mundo engana. Discordo mais ainda quando se contenta com o pouco por achar que é o máximo que pode ter. Eu sei, eu sou nova. Talvez seja esse meu problema. Eu ainda tenho a esperança que ele já perdeu há muito tempo. Honestamente, eu o entendo. E eu sei que no fundo ele também inveja meus sonhos.

Pode ser que daqui há alguns anos seja eu contando essa história. Confirmando o que o Dunga me disse. Pode ser que de tanto me partirem o coração não me reste mais nenhum fio de esperança. Pode ser que eu me torne essa mulher conformada, acostumada e receosa de perder a estabilidade que lutei tanto pra conseguir. Pode ser que eu repasse essa história adiante, que muito tem a ver com o fato de engolir sapos pra sustentar uma relação. Eu não sei o que vai me acontecer, nem mesmo se irei casar, de fato. Mas eu sinto que não importa o que houver, eu não vou acabar com os sonhos de ninguém. Eu não vou deixar que alguém se perca na premissa de que “se não pode melhorar, pra que tentar?”. Eu vou persistir, vou insistir. Se não por essa busca de amor verdadeiro, pelo o que mais essa vida valeria a pena? O coração não se engana.

Mira na Charlotte e acerta na Samantha.

the-perfect-present-03-1024

Queria só começar dizendo que não me surpreendo de nunca ter havido na história da televisão uma personagem chamada Samantha que fosse santinha. Coincidência? Destino? Minha mãe tentando me pregar uma peça? Bom, não sei. Entendo isso como fatos. Tecnicamente falando, sendo assim, posso não me responsabilizar por minhas atitudes, certo? Não? Ok. Vamos começar de novo.

Uma coisa que eu não entendo é essa síndrome de santinha a qual somos submetidas. Vocês sonhando com a Sandy e eu com a Anita. Ou Lolita. Ou Capitu.

PAREI.

Acontece que esse mal acomete todas as mulheres desde a sua primeira paixão. Sério. Enquanto os garotos pagavam de bonitões no colégio por “comer as menininhas” (coloquei entre aspas pra me sentir um pouco mais puritana), as meninas se esforçavam em proporções intergaláticas pra serem dignas de um namorado, da fidelidade da melhor amiga – que nessa época furaria seu olho por qualquer pegada de mão no shopping da cidade – e conter seus próprios impulsos. Aquelas que não seguiam à risca esse caminho, dito por sabe lá quem como certo, eram julgadas, recriminadas e alvo de fofocas. Acredito que não haja o que fazer sobre isso. São rituais passados de geração pra geração e, até arrisco dizer, que sejam essenciais pra formação do nosso caráter. Quer dizer, o mundo lá fora é mesmo cruel. Muito pior do que a mais malvada recalcada que passa o dia stalkeando a situação do namoro do ex. Quanto antes você aprender a sobreviver, mais fácil será encará-lo, certo? É, isso pode até fazer sentido (apesar de eu ter inventado agora) mas que dói, dói. E, muitas vezes, não é nem de longe justo. Às vezes, a garota não fez nada de fato e leva a fama, mas e se ela fez, quem é que tem algo a ver com isso?

Pois é, esse pensamento, que nada mais é do que ligar o “foda-se” (mais uma vez, tentando ser puritana) pra sociedade vem com o tempo. Fato. Não importa o quanto se esperneie, você ainda vai sentir na pele a maldade alheia e outras coisas que talvez chame de inveja, recalque, despeito. Sei lá, adolescentes adoram essas palavras pra justificar qualquer unha encravada. Às vezes, nem é, sabe? É só uma fase, e como todas passam. É isso, gente, não tem caroço nesse angu. O simples é o óbvio.

Agora vão arranjar uma lavagem de roupa vocês todos. Fim.

A verdade é que quando passa você sente um puta (mereceu esse palavrão, confesso) alívio. É sua libertação, aceitação de si própria e, principalmente, se perdoa pelos supostos pecados que carregava nas costas, como se sequer precisasse desse fardo pra se justificar pro mundo. Ou tivesse orgulho dessas cicatrizes. Bom, uma verdade eu lhe digo: o que construiu seu caráter com o passar dos anos não foi o esquecimento das suas histórias cabulosas e tampouco o fato de tê-las cometido, mas como você agiu diante da repercussão que elas tiveram. Quanto você deixou que a opinião alheia te agredisse, quem você considerou seu amigo por te defender pra um punhado de pessoas e, não, te alertar sobre as consequências. Essas coisas, sabe? Você não precisa viver se justificando pra estranhos na fila do pão. E amigo nem sempre é o que passa a mão na sua cabeça.

Quando você cresce – suponho assim seja, já que nem me considero adulta o suficiente – você percebe a imensidão que tinham seus problemas nessa época: tão grandes quanto um grão de areia de caixinha de gato dentro de um buraco cavado por um anão japonês em Tangamandápio. Saudades, Jaiminho. Saudades, Chaves.

Nem mesmo com seus quarenta, cinquenta anos, você estará livre da recriminação dos outros, de comentários maldosos e até mesmo dessas palavrinhas tão proferidas: recalque, inveja, despeito. Mas é de se esperar que você já tenha entendido como lidar com isso – e até aprendido a sua própria maneira. Ou simplesmente desenvolvido com maestria técnicas de ouvido de mercador.

Acho que tudo em nós é adaptável, flexível, maleável. Se eu pudesse nos definir, seria como uma massinha de modelar que vai tomando forma de acordo com a condição que é imposta. Só a nossa essência é verdadeiramente nossa, verdadeiramente a gente. Talvez, nossa essência seja nossa única verdade absoluta. Então, basicamente, você não precisa se preocupar. Se teme ser mal falada e terminar sozinha, pensa quão pouco valeria a pena estar com alguém tão superficial e ligado à opinião dos outros. Se teme não ser reconhecida, pensa em se esforçar o dobro pra provar seu valor (profissionalmente, quero dizer). Aceita que nem tudo é o que parece ser, e a pior coisa que pode existir em uma relação é o pré julgamento. Não seja tão pouca assim, nem se contente com qualquer meia boca.

Claro que quando a gente para pra pensar nas coisas que deram errado, nos amores fracassados e nas nossas insensatas escolhas ficamos bem compelidas a achar que se fôssemos a Charlotte, a Sandy, a santinha, tudo ficaria bem. Mas nenhum tipo de relacionamento sustenta-se só de um lado. Em nenhuma história terminada há um culpado completo. Tudo bem, existem aqueles que cometem vacilos desmedidamente maiores, mas se cavarmos fundo, todo mundo tem o pau oco. Não adianta se culpar. Como a felicidade de dois pode caber nas costas de um? Isso é aprendizado, experiência. Colha os frutos, faça um suco, misture com vodca e siga em frente.

Não vai ser fácil, não tem como ser. Mas faz parte; é a vida que segue. Paciência. Às vezes, pra não se frustrar com os resultados, você deve mudar os alvos. Mude ou se conforme, praticamente só existem essas duas alternativas. Mas, haja o que houver, só não deixe de ser você mesma. Errada, errante, contrária. Apenas seja livre de si mesma e qualquer conceito que mantenham seus pés no chão. Só queira da vida o que puder carregar no peito. Ser autêntico, ter atitude, pensar por si próprio, tudo isso tem um preço: a seletividade. Mas a gente encontra quem mergulhe nessa loucura com a gente. Vai ficar tudo bem, eu prometo.

Palavra de uma Samantha – em todos os sentidos.

Maldita esperança.

IMG_0765.JPG

Meu problema era a esperança. Cada vez que me banhava de pessimismo antes de todo encontro, eu exalava medo. Você sabe, medo e esperança caminham juntos. É difícil entende-los a princípio, mas estão lá, lado a lado. Um serve pra sustentar o outro. O medo me dizia que aquela talvez fosse minha última chance, que o tempo estava passando rápido demais, que se eu não aproveitasse quem gostasse de mim poderia passar a vida atrás de quem eu gostasse, sem reciprocidade. Já a esperança me motivava a continuar, a insistir. Podia ser ele, não podia? Amor à primeira vista não existe, não é? Quer dizer, você pode, sim, se apaixonar por alguém com o passar dos anos, até mesmo aquele que não tenha nada do que você queira. Ou queria.

Ando pensando que amor mesmo não se trata sobre conquista. Não termina com frases do tipo “eu consegui”. É uma busca, sabe? Diária, constante. O que poderia fazer o sentimento durar senão a tentativa de senti-lo novamente? Aliás, amor é sobre sentir. E se não por essa busca, quais das suas atitudes fariam sentido?

Sendo assim, eu pacientemente esperei qualquer notícia dele durante dias. Mas a cada hora que passava e eu me condenada por verificar – mais uma vez – se havia entrado no whatsapp, facebook, instagram ou, sei lá, mandado um telegrama pra sua tia-avó em Marrocos. A questão é que eu o cercava nas redes sociais na expectativa de que a qualquer minuto ele fosse se render à saudade.

Mas a pior parte era me perguntar o que diabos aquele infeliz estava fazendo – ou pensando – que não tinha a decência de se comunicar comigo. Me iluda com as piores mentiras, mas não suma. Finja saudade, mas não me esqueça. Eu, sinceramente, estava disposta a viver essa história de faz de conta, unilateral, essa história só minha que eu insistia em dividir, pra não ter que admitir que havia chegado ao fim.

Ensaiei nosso diálogo por noites em claro. Eu já sabia na ponta da língua como me desvencilhar de qualquer uma de suas investidas. Tinha decorado mais de trintas formas de dizer que simplesmente não o queria mais. E já havia desdenhado as maiores promessas que fingi ouvir aos quatro ventos. Esperei pelas flores, esperei por uma surpresa, esperei pelo pedido de desculpas. Eu estava pronta. Estava realmente pronta pra quando ele viesse.

Acontece que com o passar dos dias e a incrível falta de preocupação dele em saber como eu estava ou demonstrar o menor dos carinhos, eu percebi que pra poder ter a minha saída triunfal e dizer-lhe tudo que ainda tinha entalado na garganta, ele precisava vir atrás. Então, passei a me perguntar o que ele fazia, com quem e se pensava em mim em algum momento. Senti falta de quando era meu primeiro bom dia e meu último boa noite. Senti falta de saber sua rotina, seu almoço, seus planos. Senti falta de combinar o final de semana, um jantar fora, um aniversário da família. Senti falta dele.

E à medida que a saudade se espalhava pelo meu peito e fazia de gangorra minhas entranhas, eu tinha menos certeza se conseguiria recitar toda melodia fantasiada pro nosso desfecho.

No fundo, no fundo, eu só queria que as coisas voltassem a ser como eram. Eu só queria ficar com ele. Eu só queria apertar um botão e esquecer todas as mágoas que sofri, toda decepção que senti e todas as palavras que jurei frente as minhas amigas sobre as atitudes que nunca tomei. Eu só queria que tivesse sido um sonho ruim e ele ainda acordasse ao meu lado.

Mas não foi assim. E ele não veio atrás.

Minha história terminou assim: sem mais, nem menos. Sem final feliz. Aliás, sem final algum. Engoli em seco tudo que tinha ensaiado pra lhe dizer. Até cheguei a acreditar que ele, de fato, não merecesse tanto. Já sentia ciúmes do rancor que havia criado com tanto gosto e ao custo de tanto choro.

Meu problema sempre foi a esperança. Por toda minha vida tive medo de me tornar uma pessoa desacreditada. Tive medo de perder a fé no próximo, no bem, no amor. Então, sustentei a fino trato qualquer fagulha de otimismo que tivesse.

A verdade é que eu não me arrependo nem um pouco. Disso, eu não me arrependo nem um pouco. Prefiro colecionar asas cortadas do que abrir mão de sonhar outra vez. Eu gosto dessas histórias que se repetem em mim quando sinto essa vibração que só outro alguém me causa. Não quero o meio termo da relação. Não quero o branco no preto, enquanto houver forças pra correr atrás do arco-íris. Quero essa vida a dois de extremos fadigados, o desgaste proveniente do tudo. Sem o conformismo enfadonho do “nada”.

Sinto uma simpatia enorme por todos os esperançosos. Até mesmo um pouco de inveja de quem acorda munido de vontades de fazer dar certo com o errado. É preciso mesmo ter bastante esperança pra não desistir. Ou, quem sabe, inenarrável teimosa de se furar com espinhos ainda procurando rosas. Acontece que nunca, jamais, houve alguém capaz de conter o amor. Ele é combustão e combustível. É a solução e a criação dos melhores problemas. Definitivamente, melhores. Sendo assim, se você ama não está sozinho; a verdade é essa. Por isso, sempre vale a pena tentar outra vez.

Na dúvida, não é amor.

tumblr_lbtqtxhyjt1qeu4jyo1_500

Pra quem não sabe, eu trabalho com eventos. Pra quem não sabe o que são eventos são trabalhos temporários que não exigem de você muita coisa além de beleza, altura, postura, simpatia, pelo menos uma língua estrangeira, pés de aço, se alimentar de alpiste, ter as unhas e o cabelo impecável, sorrir até se levar um murro na cara, não dormir, não sentar, ter proatividade, dinamismo, barriga negativa E SÓ. Basicamente, você só precisa disso pra entrar nesse ramo, caso você cogite. Mas não era isso que eu ia falar. A questão é que quando eu estou em uma dessas posições vulneráveis – digamos assim – em que não posso expelir meu verdadeiro eu pelos pulmões (ou punhos) as pessoas sentem-se incrivelmente à vontade pra falar sobre a vida delas. Em outras palavras, trabalhar com eventos também é ser divã pra doido. E, pra mim, essa é a melhor parte – depois do dinheiro, óbvio.

Sendo assim, dia desses, chegou uma menina pra mim acompanhada de seu amigo gay e disse:

“Oi! O que tem pra fazer hoje na cidade?”

Antes de responder, eu me perguntei onde aquela criatura havia visto que de repente eu era guia turística. Mas como a boa samaritana que sou (alô, vaga no céu!) prontamente me dispus a ajudá-la.

“Hum… Depende, você gosta de que?”

“Pra que cê vai sair de casa com aquele homem doido por ti lá?” – diz o amigo gay.

“Ai meu deus, você sabe que eu não posso.”

“Besteira, ele não vai saber.”

Enquanto isso, eu faço ouvido de mercador e fico pensando se vai demorar muito pra eu poder comer.

“Mulher, olha, tem um homem lindo lá na minha casa que foi só pra vê-la e ela não quer ficar com ele, tu acredita?” – o amigo insiste em me prender a conversa.

“Ah, é? E por que você não fica com ele, ué?” – Ok, eu me rendo. Sempre adorei um Casos de Família.

“Porque eu sou noiva.”

“E cadê seu noivo?” – Faço minha melhor voz de Regina Volpato pronta pra me rebelar e me transformar na Márcia. Eu já estava me coçando pelo barraco, confesso.

“Em Pernambuco. Eu sou de lá, tô só passando o final de semana aqui. “

“Ela é muito é besta! Devia agarrar logo” – gay esbaforido.

“E ele não veio por quê?” – Já não consigo mais conter minhas perguntas.

“Porque ele teve que trabalhar.”

“E vocês casam quando?!”

“Ah, só daqui uns dois anos.”

“E estão juntos há quanto tempo?” – Ok, uma hora dessas eu já nem queria mais saber de trabalhar.

“Há uns quatros anos.”

“hum” – Findo meu interrogatório e finjo voltar ao trabalho.

“O que você faria?” – a dita me pergunta com os olhos brilhando.

“Eu no teu lugar?”

“É. Você ficaria com esse cara?”

“Ele é bonito?” – DESCULPA, SOCIEDADE, EU SOU FUTIL!!!

“É muito gato! Gente boa, gostoso.”

“Cara, não sei… Depende da forma com que você vê seu relacionamento.”

“Como assim?”

“Tem gente que considera traição imperdoável, mas eu acredito que há coisas piores. Tudo bem que uma coisa não exclui a outra, mas, sei lá. Não me parece o pior dos pecados.”

“É, verdade…” – Vejo fumacinhas saindo da cabeça dela. Ela está se esforçando pra acompanhar.

“Às vezes, você tem tanta convicção do que sente pela pessoa e de como quer tê-la ao seu lado que isso é mais importante, sabe? Eu prefiro compromisso à fidelidade. Não que eu não goste de fidelidade, eu gosto, claro. Mas compromisso é aquilo que não te faz pensar em outra pessoa. Compromisso é cuidado, proteção, prioridade. Fidelidade, pra mim, é adestramento. Às vezes, eu prefiro nem saber certas coisas. Nunca vou atrás pra não encontrar.”

“E ele nunca iria saber…”

“E pode ser que não mude nada entre vocês e, até mesmo, fortaleça o que você sente por ele por ver que não encontra ninguém igual…”

“ÉÉÉÉ..!”

“Mas, claro, pode significar o contrário também. Você pode descobrir que há muitas outras coisas que gostaria de fazer e conhecer, mas já está se prendendo. E, essa descoberta, pode pôr tudo a perder, principalmente, quando se trata de uma simples vontade da qual você não pôde controlar. Você sabe as consequências, basta saber se quer arriscar.”

A essa altura, o amigo gay já estava de boca aberta e pipoca na mão. Ansioso pro final do nosso debate e saber o que afinal ela escolheria fazer.

“Entendo, mas o que você faria no meu lugar?”

“O que você quer fazer, de verdade? Se não houvesse ninguém pra te julgar?”

“Você ficaria?”

“Não sei.”

“Diz, mulher, diz logo. A gente nunca mais vai se ver!”

“Eu ficaria.”

Ela agradeceu e saiu saltitando com uma garrafa de vodca debaixo do braço e toda irresponsabilidade infantil pairando sobre seus planos.

Eu não ficaria, mas não diria isso a ela. Eu vi o que ela queria ouvir e dei corda. Fui advogada do diabo, confesso. Não sei se ela entendeu bem o que eu quis dizer. Não sei se eu sequer me entendi naquele momento. As coisas faziam muito mais sentido dentro da minha cabeça do que expostas pro mundo. Mas acontece que, na verdade, eu não pude decidir por ela como pareceu. Ela já sabia. No fundo, ela sabia. Talvez, soubesse até mesmo quando aceitou se casar. Talvez, soubesse muito antes de namorar. Às vezes, a gente toma o caminho mais fácil, aquele que já foi pintado na nossa frente, porque tem medo que não haja outro.

Eu queria ter dito mais a ela. Queria ter dito que a vida não é uma corrida, ela não precisaria casar com o primeiro que pedisse. Queria ter dito que se alguém, por algum motivo, lhe despertasse um interesse maior do que a pessoa que ela estivesse, POR QUE ela não poderia tentar? Queria dizer que não existe essa de alma gêmea, pessoa certa, nem destinados. Que ela era tão dona do seu futuro quanto eu naquele momento. Queria ter dito a ela nem todo amor tem a sorte de ser eterno. Ela poderia amar a quem quisesse, da forma que bem entendesse, se não temesse que houvesse fim. Queria ter dito que há 7 bilhões de pessoas no mundo; como ela pode saber que ele é o certo sem conhecer as outras? Mas o coração sabe, e a gente nunca se aventura desse jeito. É tudo uma questão de escolha e, não, de sorte. Queria ter dito que o mais importante é que não falte amor pra cada recomeço.

1 2 3 28

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com