5 dicas pra fazer um relacionamento à distância funcionar.

Eu era completamente cética quanto a eficácia de um relacionamento que não fosse lado a lado na maior parte do tempo. Tinha essa miserável ideia que pra me sentir amada, tinha que ter contato, tato, cheiro. Sabe, eu não estava completamente errada. É preciso mesmo ter essa química, essa coisa de pele. Quer dizer, pelo menos enquanto estiverem juntos e o suficiente pra dar saudade quando estiverem afastados. Mas isso não é o bastante, não é o alicerce verdadeiramente necessário pra uma relação perdurar. E digo isso porque já paguei pela língua tantas vezes quanto nem sequer me lembro mais!

A nova geração de Romeus e Julietas tem como empecilho pra viver esse amor arrebatador passagens aérea a preços de oito esferas do dragão, escalas intermináveis em aeroportos que lhe renderiam facilmente um phd como comissários de bordos e o sistema “pisa e alisa” da internet. Ou seja, ora te conecta com o amado e ora te transporta ao submundo da insegurança onde é chicoteado pelo ciúmes. Em outras palavras: não é fácil. E, mesmo assim, mesmo com a angustia, com a saudade, com o medo de ser trocado por alguém que possa “dar mais assistência” – finja que não leu essa parte – o amor prevalece. Lindo, né?

Então, aqui vão as dicas pra quem está passando por essa fase:

1)      Palavra de honra.

Infelizmente, não dá pra ter aquela segurança monstra nem quando você sabe o que a criatura está fazendo vinte e quatro horas por dia, imagine sem fazer ideia se ela está realmente fazendo o que diz, diz o que faz, faz o que diz que faz, diz o que faz que diz que faz (vezes infinito). A má notícia é que um relacionamento convencional também é assim, e a boa notícia é que isso é confiança e, se não houver, ainda que vocês unam seus cordões umbilicais, não vai funcionar. Logo, supere a necessidade de stalkia-lo, a dependência de saber seus passos e, principalmente, a mania de pedir provas de veracidade e simplesmente acredite na palavra dele. Claro que às vezes você vai achar muito estranho, e vai ficar com a pulga atrás da orelha, mas procure não pensar sobre isso. Procure não tirar a prova dos nove rastreando a localização, por favor. Se você não acreditar piamente que ele tem mais a perder TE perdendo, como pode querer que ele mesmo acredite nisso?

 

2)      Abuse dos clichês.

Tem coisa mais brega do que um carro de loucura de amor em frente à sua casa? Tem coisa mais piegas do que uma faixa de declaração na entrada do seu trabalho? Tem coisa mais tosca do que apelidos vergonhosos ditos em público? Tem coisa mais constrangedora do que ser sensual-sexy-fatal pelo telefone? Tem coisa mais clichê do que receber um buquê de flores? Tem coisa mais boba do que acordar e dormir com mensagens fofinhas? NÃO TEM E NÃO ME IMPORTA. QUERO TUDO! Porque se não puder alimentar o ego, você alimenta a saudade, e a saudade alimenta a insegurança e tudo vira uma desgraça. Então, sim, demonstrações públicas de afeto SÃO mais importantes quando você não tem aquela conexão sex appeal com uma simples troca de olhares.

 

3)      Façam coisas simultaneamente.

Essa é muito brega. Sério. Eu faria isso trancafiada no porão de uma casa na Guatemala com três rottweilers de vigia. Um deles chamado Fred. Enfim, a questão é que por mais que você ache que não precisa fazer isso, ou é coisa demais assistir um filme juntos, porém sem estar juntos, é na verdade bem legal. Afinal, pra fazer funcionar é preciso criar o sentimento de estar junto, conectado. Sem falar que traria diversão para o casal também. No mínimo, poderiam rir disso depois.

 

4)      Tirem todo proveito possível da internet.

Ao invés de só usa-la pra vigiar o que o outro faz e tê-la como pivô de brigas baseadas em curtidas de pessoas aleatórias no instagram, que tal, fazê-la uma aliada? Além dos aplicativos que todo mundo conhece e basicamente, por si sós, já monopolizam sua vida, ainda tem outros atributos que podem ajudar, como o Google Street, por exemplo. Você pode mostrar a cidade que foi visitar ou algum bar que gosta de frequentar, uma vista que acha bonita. Um pouco de criatividade e um celular que não trave toda hora depois da última atualização do whatsapp na mão e não há limites de onde podem chegar. Quer dizer, há o limite do cartão de crédito, mas não vamos falar disso agora.

 

5)      Tenham um objetivo juntos.

Isso é uma coisa boa e uma coisa ruim em um relacionamento assim. Boa porque impulsiona o casal a pensar por dois, qualidade que muitos casais que já estão juntos há anos ainda não aprenderam como funciona. E ruim porque força o casal a pensar por dois, e vamos combinar, nem todos aqueles que decidem entrar na empreitada de um relacionamento à distância estão prontos pra enfrentar a vida conjunta de verdade. O que gera um esforço muito maior de ambas as partes e um desgaste da relação. Porque infelizmente é a vida. Mas a questão é não desanimar, ser otimista quanto as expectativas e nutrir os planos juntos. Fazer uma contagem regressiva traz a ansiedade à tona e um punhado de sentimentos bons que motivam a continuar.

 

Hoje em dia, eu acredito que no momento em que você encontrar aquela pessoa companheira, compromissada, e disposta a fazer dar certo com você, não tem cidade, continente e nem novas experiências que abalem. Parece ser um pensamento bem “princesa da Disney”, mas na verdade é bem mais que isso. Claro que tem relação com a ideia de ter encontrado O cara, mas tem mais a ver com a sua autossatisfação. Uma relação que te faz sentir bem consigo mesma é simplesmente a base pra qualquer adversidade. Me parece muito pouco se preocupar com o que ou quem a outra pessoa vai se relacionar se você já tem entendimento suficiente pra ver que juntos são mais fortes do que separados. Se vocês conseguem traçar um plano de vida, seja a curto ou longo prazo, mas fazem isso juntos, então como alguém ou algo seria capaz de interferir nisso? A paixão, que dizem ser repentina, não vem a quem não dá oportunidade. E por que alguém daria oportunidade pra outra pessoa ou abriria a porta de um desejo, se já tem quem lhe supra em termos muito superiores aos físicos?

Na verdade, manter um relacionamento a distância não só é uma prova de fogo como um teste de maturidade. E eu aplaudo de pé quem se mantém firme ano após ano. Acho admirável que tenham se colocado em um “pedestal” em que nada, nem ninguém, consegue prejudicar. Poxa, tem tanta gente que tem a oportunidade de estar com quem gosta todos os dias ou, sei lá, simplesmente quando dá vontade e desperdiça muito desse tempo junto discutindo, arranjando motivos pra brigar, pra provocar ou fingir ciúmes, pra exigir atitudes medíocres que te supram a necessidade de ser amado. E tem uma minoria de coragem louvável que pôs o medo do fracasso de lado, arriscou tudo que tinha por saber que nada vale tanto quanto está com quem gosta – da forma que seja – e bravamente lutou. O que pode ser mais importante do que colocar o sentimento à frente da angustia da saudade? Pra fazer dar certo é preciso trocar as promessas por planos, a vontade por atitudes, dar asas ao coração e não ter medo da queda.

tumblr_mnj5bqKhXN1qictego1_400

Vomitando arco-íris de fofura!

Cada vez que você compartilha um post do BC!, um casal supera o medo da distância.

?>
Continue lendo.

Quando o conheci.

Quando eu o conheci, não o reconheci. Não foi óbvio o bastante pra que se tornasse inesquecível.

Nunca poderei dizer que desde o primeiro momento sabia quem seríamos um pro outro. Não foi mágico como dizem nos filmes, sequer foi romântico.

Deixei de lado o desejo de esbarrar com um amor avassalador na fila do pão. Parei com a mania de procurar em qualquer gesto uma pista do destino que aquele era o cara.

Eu estava à toa, meio de qualquer jeito.

Sinceramente, eu havia perdido um pouco a esperança. Ou, talvez, a inocente vontade de me apaixonar de novo.

Já não tinha mais espaço na minha vida pra me perder em sorrisos falsos, pra desmascarar amores roubados. Não mais me sentia no dever de provar que estava em pé novamente, que um coração inteiro se faz de pequenos pedaços. Milhares deles, por sinal.

Quando o conheci, não o reconheci porque, simplesmente, entendi como ser egoísta. E não me arrependi. Esquecer como pensar por dois é consequência da abstinência.

Aos poucos, me acostumei com o vazio, com a inexistência de duas metades, com uma cama sem lados dispostos.

Ser egoísta é, dentre muitos pesares, o deleite de ser vazia. Meio rebelde, quase inconsequente. Mas capaz de se preencher de qualquer coisa por completo.

Não tinha tempo na minha vida pra ele, nem diálogos imaginários de nós dois. Não estava pronta pra me dividir, tampouco me doar à alguém. Eu também me queria por inteira.

Quando o conheci, não o reconheci porque desenvolvi uma angustiante mania de não me perder. Passei a desviar do menor risco de me desconstruir. Era como se eu não pudesse, nem por segundo, titubear.

Ensaiava piadas infames e risadas de deboche pra me defender de quem tentasse se envolver. Acontece que ser egoísta também é tecer uma teia de inseguranças. Ser tão centrada em si é a falta de espontaneidade. É o medo de deixar de ganhar em situações que não se tem nada em jogo.

E eu apostava todas minhas fichas na minha confortável solidão. Porque me parecia muito melhor noites sozinhas do que dias de aflições por sentimentos questionáveis.

Quando o conheci, não o reconheci porque, honestamente, eu estava sobretudo cansada. Cansada de me fazer acreditar em mentiras deslavadas, em desculpas esfarrapadas. Eu estava cansada da teoria que não se põe em prática, de fingir sentimentos que nunca tive e omitir à sete chaves todos aqueles que me consumiam aos poucos.

Estive cansada de tentar e de entender minhas escolhas por tanto tempo quanto pude culpar aos céus por tê-las tido. Ou pelo tempo que já não me bastava mais crer em santos, destinos e até anjos.

E toda culpa que senti por não ter com o que preencher a metade que nunca me faltou, deu lugar ao cansaço da alma sobre o corpo. Da mente sobre o espírito. Eu decidi, em secreto desafio às crenças, que não procuraria mais ouvir sinos em beijos, nem descompensadas serenatas na janela.

Quando eu o conheci, não o reconheci porque já havia me desfeito de grande parte do meu passado, de pessoas que não valeram a pena, das roupas que ficaram apertadas e das pedras que juntei no caminho. Sem que coubesse em mim planos de um futuro próximo e sequer o descontentamento. Eu estava à toa, meio de qualquer jeito.

Quando eu o conheci, ignorei a força com que meu coração batia e a incontrolável crise de riso que senti. Eu duvidei de minha própria sanidade e do fardo que mantive intacto dos relacionamentos anteriores. Suei de mãos frias e de nervoso bati o queixo.

Eu fantasiei a contragosto o retrato do meu passado. Voltei no tempo, ao dia em que me perdi em desespero e furiosa jurei nunca mais passar por isso e nem assim pude me conter. Eu não sabia que era ele.

Despretensiosamente, não sabia que era ele porque deixei de acreditar que deveria ter alguém feito pra mim e que juras de amor eterno me dariam um pra sempre. Eu calada fiquei quanto as expectativas, quanto todas as tentativas.

Finalmente, eu entendi porque eu tive que desacreditar de tudo para acreditar em nós; enquanto eu estava à toa, era ele que me procurava. E eu nunca o teria reconhecido se não tivesse parado de juntar meus cacos.

?>
Continue lendo.

Porque seu dinheiro não me atrai.

Não te culpo por achar que seu caráter se fez quando atingiu teus tão sonhados 6 dígitos no contracheque. Nem por se orgulhar da bela mulher que exibe como troféu por ter cruzado a linha de chegada. Também não a culpo por definir suas conquistas aos feitos dos outros; tem gente que não precisa de mérito próprio, se conforma em ser a base ou, até mesmo, a sombra de alguém. Ou pior, tem gente que foi ensinada para isso. E trocou seu valores por um avental de dia e uma cinta-liga à noite.

Mas não me atrai abrir mão da liberdade de colher minhas próprias perdas, meus fracassos e subverter meus planos a todos enganos da solidão pelas regalias atribuídas a um belo par de pernas e uma mente vazia. Divergi o tabu que me impuseram de ser rotulada, quase condenada, à sina da mulher que já nasce interesseira.

Definitivamente, não tenho vocação pra ser alpinista de homem rico. Prefiro os tombos, os tropeços e as pedras que coleciono no meio do caminho, da história que escolhi pra chamar de minha. Simplesmente, não entendo como dinheiro pode dar valor a alguém. Atingir a tão sonhada estabilidade financeira – expressão idolatrada pela maioria – é atar os punhos com tuas próprias ambições. Afinal, quem está fadado a receber a mesma quantia durante toda a vida – independente de quanto seja – na sua mão não tem valor algum. Até porque, quando mais se tem, mais se gasta e mais se quer.

O topo se faz dos insaciáveis e, não, dos acomodados. Ou seja, basear suas ideologias, seus planos e, principalmente seus riscos, em dinheiro parece palpável, mas não é. É colocar um fim, um ponto final, numa jornada material, e não tem nada mais pobre do que mensurar o valor de uma vida. Pobres daqueles que o tem como foco e objetivo o dinheiro; ele é recompensa, consequência e, quem sabe, estímulo. Honestamente, o risco de colocar seus sonhos à frente dos ganhos materiais é verdadeiramente real; pode ser sentido, temido. Como respeitar quem limita seus planos à fatura do cartão de crédito?

Eu prefiro aqueles que se livraram das amarras que definem sua classe social. Prefiro os que não se veem como amaldiçoados, e nem se comparam com os maus exemplos a seu redor pra manterem-se apáticos.

Gosto dos que tem sangue no olho, sabe? Que tem mais histórias pra contar do que dígitos na conta bancária, que tem mais amigos ao lados do que influência e network. Eu gosto de caras de verdade, que não estão preocupados em sujar um terno caro, ou perder o Iphone ao se jogar no mar. Eles vivem, agem, se doam, se arriscam e, eventualmente, perdem também. Mas não tem problema, eles se orgulham de suas derrotas. O sucesso nada mais é do que o triunfo da tentativa sob o medo.
Prefiro aqueles que não tem receio de ampliar seus planos pra que caibam os meus. Que põem de lado a competitividade com que lidam com a vida, pra ser a alavanca de quem queira crescer.

Gosto de quem estende a mão sem pedir nada em troca. Que não enxerga as relações como concorrência, mas parceria. Prefiro aqueles em que eu possa assistir a novela de sábado ou discutir as diretrizes do senado do que desfilar em um evento de gala ao lado. E que não tente me comprar com presentes caros, jantares suntuosos, mas preocupe-se em me fazer rir durante toda a noite. Gosto daqueles que se acham merecedores de suas conquistas e, não, sortudos. Que valorizam sua essência e se desapegam do seu próprio imaginário de riqueza feito pra amenizar sua ânsia de ter vencido na vida.

Ser financeiramente inteligente, não é ser rico. É colocar os planos no papel, tirar os medos do armário, enfrentar os riscos que acompanham os ganhos. É ter em suas metas sucesso profissional, construir carreira, reconhecimento, ainda que seja como artista, jogador ou mecânico. É não temer o perrengue, o sufoco, a miséria, se tiver em mente um objetivo maior. É ser motivado por um sonho e, não, limitar o valor que o dinheiro atribuiu a ele.

?>
Continue lendo.

O pedido.

- Você não tocou na comida, Lia…

- Hum…? Ah, sim. A comida. É que eu estou meio entalada… – Levo as mãos à garganta em sinal de sufoco, mas na verdade, estou aliviada por não ter que engolir nada.

- E o que você quer beber, então? Aquele vinho de sempre, pode ser?

- Não, não é is… – Pedro me interrompe chamando a atenção do garçom que está servindo a mesa ao lado. Bem típico dele.

- Garçom, por favor, aquele pinot noir.

- O francês, senhor?

- É, esse mesmo. Está bom pra você, Lia?

- Bom, uma taça de vinho não me cairia mal, afinal. – Me rendo cruzando os braços sobre o peito. Pensando bem, uma garrafa de vinho não me cairia mal mesmo.

- Ótimo! Hoje é um dia especial, Lia, quero que seja tudo perfeito. – ele acaricia minhas bochechas e toca a ponta do meu nariz com o dedo.

- Pedro, eu…quanto a isso…bem… – finjo um pigarro pra ganhar tempo e pensar como terminar essa frase. Aliás, como sequer começa-la. – Eu sei o quanto você se esforça pra fazer tudo perfeito…

- Eu faria qualquer coisa por você, meu amor. – e me interrompe mais uma vez.

- Então, eu sei. Mas tem algumas coisas, sabe? Algumas coisas acontecendo que eu… Eu não sei explicar direito o que são – Mentira, eu sei, sim. Sei de cor e salteado. Sei melhor do que a data do meu nascimento que falsifico todo ano.

- Aqui está, senhor. – Salva pelo álcool, como sempre. Espero Pedro degustar e o garçom terminar de nos servir. Aproveito a pausa pra beliscar o beef carpaccio que não havia tocado ainda.

- Sempre sensacional, Alfredo. Hoje é uma noite especial! E esse vinho está perfeito. – Estou começando a me incomodar com essa ênfase em especial dele.

- Não é tão especial assim, Pedro… – Quem sabe baixando um pouco a bola, não fique mais fácil? – Inclusive, disseram que estaria quente e está chovendo horrores lá fora, e eu não trouxe nenhum casaco.

- Lia, o que tem de especial hoje não é o tempo. Somos eu e você, meu amor. Nossos três anos. – Ele junta minhas mãos as suas em um gesto que, na certa, viu em algum filme do Adam Sandler – Isso que é especial.

- Hum-rum. – Livro minhas mãos por impulso, ou repúdio, sei lá, e agarro a taça. Dou um gole curto no vinho e, logo em seguida, um segundo mais longo. Sinto-o descer pela minha garganta como um raio. Um raio de luz e esperança. Deus, que diferença faz um vinho numa noite como essa!

- À propósito, seu projeto foi aceito? Como foi a reunião?

- Foi sim. – respiro fundo e decido que não vou mais adiar isso. – Pedro, precisamos conversar.

- Mas nós já estamos conversando, bobinha. Eu me interesso por tudo da sua vida. Quero saber todos os detalhes de como foi o seu dia. – Ele serve-nos com mais uma taça e fixa seus olhos aos meus. – Que cara é essa, Lia? Você está se sentindo bem?

- Eu… eu… – começo a hiperventilar, sinto meu rosto corando e uma pressão me invade a cabeça. Meu Deus, como ele me sufoca!

- Lia, pelo amor de deus, fale comigo! O que você está sentindo?

- Eu… eu estou sufocada, Pedro! Pare!

- Com o quê? Se engasgou? Vou pedir ajuda. – ele se levanta em um pulo e começa a acenar freneticamente para o garçom que agora está ocupadíssimo se equilibrando com tuas bandejas nas mãos.

- Sente-se agora, Pedro Jorge! Eu não estou passando mal, foi apenas uma vertigem. – Me forço a ficar calma. Pelo menos, tirei o foco da sua declaração. Nada que mais uma taça de vinho não resolva. Ou tente.

- Sério? Sério mesmo? Acho melhor irmos embora. Não quero estragar tudo pra hoje.

- Hã? Estragar o quê? O que tem pra ser estragado? Sente-se agora, Pedro. Estou avisando. – Uso minha voz mais autoritária e ainda o ameaço com uma colher de prata, daquelas pesadas. É bom ele não testar minha paciência.

- Tudo bem, meu amor. Só queria ter certeza de que você está bem. Não fique chateada, faço de tudo pra cuidar de você. Porque você é…

- EU SEI! – grito sem sequer me dar conta e todos os olhares ao nosso redor nos fuzilam.

- Eu sei… – repito quase em um sussurro. – e é sobre isso que precisamos conversar.

- Ah, sim, estou entendendo. – Pedro se senta com um olhar malicioso e um sorriso de canto de boca que não me agrada nem um pouco. – Eu também quero conversar sobre isso com você.

- Sério?! – não escondo a surpresa, e levo alguns segundos pra me recompor. – Quero dizer… sério?

- Sim. – sua voz adquire um tom sério, como quando o via defender seus clientes no tribunal. Ele está preparando-se para um combate. – Na verdade, já faz um tempo que venho pensando sobre isso. Sobre como está nosso relacionamento.

- Eu também… – sinto um alivio percorrer meu corpo. Não acredito que estamos finalmente falando disso!

- Então, estamos juntos há três anos, e não é pouco tempo. E tantas coisas já nos aconteceram, já passamos por tanto juntos. Você me ajudou muito no firma, aliás, se não fosse por você, eu não teria chegado tão longe e eu fico pensando o quão sortudo eu sou por tê-la…– Ele endireita a gola da blusa e apoia os cotovelos na mesa, aproximando-se de mim. – E em como nos damos bem, como você me faz feliz…

- Espera, do que você está… você não está pensando…? Pedro, o que está fazendo de joelhos?! – Ai meu deus, meu coração se contorceu. Vou realmente passar mal agora!

- Eu ia esperar o momento perfeito, mas não posso aguentar. Não consigo. Só de olhar em seus olhos sei que tudo entre nós é perfeito, Lia. Eu sei, eu sinto.

- Não. Faça. Isso. – as palavras saem por entre os dentes. Começo a olhar em volta, apreensiva que tenham notado esse suposto gesto de romantismo clichê. Me jogo ao chão e fico de joelhos igual a ele em sua frente.

- Mas… O que você está fazendo?

- Evitando que você passe por isso. Você não precisa fazer isso. Não Faça. Isso. – repito pausadamente.

- Eu já estou fazendo, Lia. Nada vai me impedir! Nem mesmo sua timidez em público. – ele abre os braços e aumenta a voz. Que exibicionista! Sempre foi desses. Imagine se fosse bonito.

- Pedro, estou falando sério. Vamos conversar direito. Levante-se. – Deus, simplesmente não posso acreditar. Não. Posso. Acreditar. Por que ele continua ajoelhado?

- Lia… – ele enfia a mão no bolso e meu coração gela quase saindo pela boca. Sinto meu rosto corar novamente e começo a hiperventilar aflita. – Há muito tempo, eu gostaria de…

- Pare! Pare com isso imediatamente! – ouço-me dizer aos berros. Eu tinha que parar com aquilo. Eu não podia deixar que o pobre do Pedro se humilhasse a esse ponto. – Olha, eu sei! Eu sei, tá? Sei de tudo que você sente por mim, sei o que você planejou e eu… bom, eu agradeço muito.

- Agradece? Como assim?!

- Acontece que eu não posso simplesmente dizer sim, Pedro. – coloco a mão em sua boca pra que não me interrompa mais uma vez. – Não posso. Eu gostaria muito, mas não consigo. Não quero isso pra minha vida, não quero isso pra nós. Quer dizer, eu e você e, não, nós. Quer dizer, nós, mas não juntos. Quer dizer, ah, não sei! E pare e me olhar com essa cara.

- Não, Lia! Como assim, você sabe? Do que você está falando…?

- Estou falando do seu pedido! De tudo. Da gente, desse restaurante que foi o primeiro que você me trouxe, do vinho que você sabe ser meu preferido. De tudo, Pedro.

- Como você sabe do meu pedido?! – ele senta-se novamente na cadeira devagar, acho que conformado que seu tão sonhado “sim” não vai sair hoje. Pelo menos, não de mim.

- Eu sei o que todo esse gesto – abro os braços sinalizando o restaurante, a comida, as nossas roupas e volto ao meu lugar. Tento manter a serenidade na voz pra não magoar seus sentimentos. – significa pra você. Eu te conheço. E, por isso, eu quero conversar sério com você.

- Lia, mas como você poderia adivinhar? A Mirna te contou?

- A Mirna?! Você contou pra ela? Tem mais alguém sabendo?! – Ai meu deus, tadinho! Fico com um nó na garganta imaginando a decepção das pessoas quando souber que eu disse não. Quando o Pedro voltar pra casa com o anel na mão, e o coração partido. Ele devia ter ficado de bico fechado. Imagine se nos prepararam uma festa surpresa? Deus, vai ser horrível! Preciso acabar logo com isso.

- Sinceramente, tem. Mas por que isso importa? Se você já sabe, qual a sua resposta, então? – Ele de novo segura minhas mãos com um ar apaixonado. O azul dos seus olhos é hipnotizante. Me sinto um pouco mal por ter que terminar com seus sonhos. Sinto minha certeza diminuir, principalmente, com o sorriso largo que ele me abre.

Respiro fundo, conto até três mentalmente e, enfim, digo:

- Pedro, eu não posso me casar com você. – solto o ar em seguida, relaxando por ter tirado quase uma bigorna das costas.

- O quê?! – é a vez dele gritar. Sua cara de espanto me deixa atordoada, suas sobrancelhas se erguem e sua boca se curva. Não acredito que estou fazendo-o passar por isso. Sempre imaginei que fosse ser bem mais fácil.

- Me desculpe, Pedro Me desculpe, mesmo. Eu sei o quanto você idealizou essa noite, o quanto se preocupou que fosse perfeita, mas…

- Quem.. quem falou em casamento?

- Não, Pedro, tudo bem. Você não precisa nem terminar, vamos evitar esse constrangimento. – Tadinho, se preparou todo e nem teve a chance de fazer o pedido. Mas pelo menos agora ele não vai dar vexame na frente de todo mundo.

- Não, Lia, você não está entendendo. QUEM falou em casamento? Mesmo?

- C-como assim? Não é isso?

- Não é isso, o quê? A viagem?

- Que viagem? – minha vez de arregalar os olhos de dúvida.

- Ué, a viagem que você disse que sabia. Que a Mirna ou, sei lá, alguma das tuas amigas te contou.

- Mas que droga de viagem é essa…? Esquece isso. Eu estou falando do seu pedido. – pronuncio pedido quase soletrando pra ser bem clara.

- Então… Meu pedido era sobre a viagem. Mas quem falou de casamento?

- O que? Não tem casamento?!

- N-não…

- E por que tudo isso?! – minha voz torna-se aguda e estridente. Sinto que vou explodir de vergonha, raiva, ansiedade, tudo junto.

- Pra te chamar pra viajar comigo. Eu ganhei uma viagem do pessoal da firma. Quis te fazer uma surpresa, lhe dizer que comemoraríamos nossos 3 anos em alto mar com tudo pago!

- Você fez tudo isso por causa de uma PORRA de viagem?

- F-foi, mas por que está…?

- Não passou pela sua cabeça ridícula NENHUMA vez me pedir em casamento?! – Não posso conter as palavras que são cuspidas em sua cara como uma serra elétrica nas mãos do Jason.

- Lia, eu amo você. Eu faria tudo por você, estou muito feliz em nosso relacionamento…

- VOCÊ está muito feliz?! Mas que porra de felicidade é essa?! E EU, você acha que EU estou feliz?

- Eu não estou te entendendo…

- Como eu posso estar feliz se estou há TRÊS anos com alguém – levanto-me da mesa e aponto os três dedos em sua cara de pau – e essa pessoa não pensou NENHUMA vez sequer em me pedir em casamento?!

- Eu só acho que ainda é cedo…

- Você acha o quê?! CEDO?! Eu estou te aguentando há três anos com essa sua babação de ovo medíocre, essa tua mania de se meter em tudo da minha vida, esse teu ciúmes doentio, esse teu bafo de galo morto pela manhã, esse teu bucho de cervejeiro sedentário…

- Ei! Você não precisa me ofender… Pare com isso, Lia…

- E tudo isso pra que?! PRA QUE?! Tento ser a melhor namorada do mundo e isso PRA QUE? Pra ter a surpresa de um dia especial e ser pedida em casamento! É pedir muito, afinal, Pedro? Isso é pedir muito, por acaso?! Será que você não podia UMA vez na vida demonstrar o mínimo de consideração COMIGO?

- Me desculpe, eu… Na verdade, não sei o que dizer.

- Aí você me vem com essa droga de viagem em um navio pra me causar mais vertigem e eu ter que aturar seus colegas da firma bêbados e insuportáveis por sete dias completos! Faço uma aposta! – Dessa vez, eu o interrompo. Estou gesticulando e falando alto, não consigo me conter. Vou culpar o vinho.

- Lia, por favor… Eu…pare! – ele abana as mãos em súplica.

- E você sabe o que mais, Pedro? É você que perde por não me pedir, você tá me entendendo? Você teria uma esposa linda e eu teria que aguentar um careca fanfarrão como você pelo resto da minha vida!

- Mas… o que isso significa, afinal?

- Significa que eu estou farta! Eu cansei! Eu não me casaria com você nem por um decreto! MAS EU MERECERIA A PORRA DE UM PEDIDO! Era tudo que eu queria! – começo a chorar impiedosamente borrando toda minha maquiagem.

- Eu… Eu sinto muito. Eu acho.

- Sente muito mesmo. Sente muito, sim! Porque você não me merece, Pedro. Nunca mereceu. Estou indo embora. Daqui, da sua vida. DE TUDO! – Viro-me e em passos largos caminho em direção à porta.

- Mas Lia, a gente pode dar um jeito. Não sei, a gente pode conversar direito. Por favor, espere! – Lá vem ele me seguindo e tentando alcançar meu braço antes que eu roube o guardanapo da mesa de mais alguém.

- CHEGA! Não toque em mim! Eu estou indo embora pra sempre. Eu não vou ficar nem mais um minuto com alguém que não teve a dignidade de me pedir em casamento depois de três anos juntos, sendo com certeza, o perdedor de nós dois! Eu seria teu troféu! Eu poderia ser se eu quisesse! Que você aprenda a dar o valor que uma mulher merece, seu idiota escroto. Adeus, Pedro Jorge.

?>
Continue lendo.

Sobre amor e liberdade.

Amor é invenção!
Invenção, sim. Outros tipos de relações podem trazer mais felicidade, e as necessidades humanas básicas são outras: comer, dormir e sexo. A essas necessidades eu acrescentaria mais uma: a liberdade.

Vamos lá. É só pensar pelo conceito histórico da humanidade. Éramos homens livres e felizes fazendo sexo adoidado. (Primitivo? Sim, mas hoje não é muito diferente). Com o passar dos anos e as demarcações territoriais surgiu a escravidão. Não me refiro única e exclusivamente aos negros, uma vez que nem sempre houve essas diferenciações de cor da pele, outras “hierarquias” existiram antes disso. Então, o não tão distante homo sapiens passa a buscar por algo que o foi tirado: a liberdade. A falta do ‘ser livre’, a falta do livre arbítrio, porque algo estava entre o SENTIR e o FAZER.
Liberdade… essa sim poderia estar entre as necessidades humanas, não o Amor.
Liberdade, nascemos com ela quando o mundo era um imenso nada e quando nos foi tirada lutamos em busca dela, porque é necessário para a plenitude humana, lutamos por isso porque necessitamos disso. O amor, o que temos sobre o amor? Apenas algumas histórias melódicas. É uma necessidade inventada advinda, muito provavelmente, junto com o surgimento das organizações sociais.
Diria que a liberdade, sim, é o que há de melhor no mundo, no mundo não, na vida. A liberdade é conquistada, a liberdade nos traz oportunidades com uma imensidão infinita, nos traz vida. O amor são sensações, sensações passageiras, sensações que vem e vão, mas que não permanecem. É possível viver sem amar; nascemos sem ele, vivemos eras sem ele. Impossível viver sem liberdade, nascemos com ela, vivemos com ela e quando, na luta homem versus homem tentaram nos arrancar, lutamos para reconquistar. Por quê? Porque é possível viver sem amor, mas não sem liberdade.
Pelo amor dos cosmos! Não estou aqui para dizer que o amor não exista ou que não devemos senti-lo, estou dizendo que Amor não é uma necessidade. Que as pessoas podem sim se sentir completas e plenas sem ter o seu grande amor ao lado, sua alma gêmea ou seja lá o que for. Sinto muito, mas vejo o Amor como uma invenção humana, logo, não é natural. É uma imposição guiada, ao longo da história, para que seja visto como uma necessidade que na verdade não existe. Atente, A NECESSIDADE do amor não existe, o amor sim existe, lógico, nós o sentimos.
Por fim, acredito que a vida não se resuma em encontrar o Amor da sua vida e ser “feliz para sempre”. Há um mundo grande e louco de possibilidades então não se limite ao que as pessoas te impõem, limite-se a tua liberdade, ao teu desejo, aos teus quereres, aos teus sonhos, não busque o Amor só porque disseram que você deve tê-lo, atente-se, a vida é se sentir bem no que te faz bem, seja livre da tua maneira, se queres tua alma gêmea, busque-a, se não, não se sinta mal por ser diferente, faça o que te convém.
Não encare isso como uma verdade absoluta, essa é a minha verdade, é o que eu acredito, se concordas, que bom, não sou a única louca.

leilane

?>
Continue lendo.

Mamãe, eu mudei.

Querida Mamãe,

Tenho uma boa notícia para você!

Seus gritos à noite após chegar do trabalho, inclusive nos finais de semana de folga prioritariamente as seis da manhã, referente a qualquer coisa da casa que estivesse desarrumada, todo santo dia, toda santa vez, por toda minha vida deram certo. Mas imagino que disso a senhora já saiba, já que relutou durante vinte três anos em adotar uma postura diferente. Claramente, a senhora já sabia que eu ia ceder e não, me adaptar e ignorá-la como fiz por anos.

E eu espontaneamente mudei. Não sou mais igual ao meu pai como a senhora costuma dizer.

Eis as medidas que irei adotar de agora em diante:

1)      Jamais irei te ligar enfurecida por ter saído sem as chaves que eu havia posto propositalmente em cima da mesa da sala pra não esquecer e a senhora, sempre muito sábia, guardou em algum lugar pela casa porque achou que estava fora do canto. A culpa foi toda minha por não ter memória de elefante e precisar desses métodos alternativos de incentivo.

2)      Sempre irei saltitar de felicidade quando tiver que procurar pela casa inteira, atrasada pra ir trabalhar, meus sapatos guardados dessa vez no seu “lugar certo da vida inteira desde ontem”. Eu sei que a senhora adora brincar de Escravo de Jó com meus pertences e não vou te roubar essa alegria.

3)      Eu vou cantarolar no ritmo das vassouradas que a senhora taca na minha cama nos finais de semana que eu decido, por estar muito cansada, dormir até mais tarde.

4)      Eu vou agradecer quando me acordar as sete horas da manhã abrindo as cortinas do meu quarto porque acha que está no horário de eu acordar. Pra não fazer nada, obviamente. Porque dormir sem motivo é leviano, mas acordar sem motivo é divino.

5)      Eu vou cotar os gastos com a funerária pra senhora não precisar se preocupar em só ter seu valor quando morrer. Vou providenciar que seja cravejado em rubis na porta de entrada de casa.

6)      Vou seguir impiedosamente seus conselhos sobre não tomar leite com manga à noite, nem tomar sorvete quando eu estiver doente da garganta ou assistir tevê muito de perto pra não ficar vesga. Afinal, sua sabedoria milenar salvaria vidas dentro de Biscoitos da Sorte chineses.

7)      Vou finalmente contratar a tal da “pariceira” que a senhora sempre me acusou de ter.

8)      Vou varrer, lavar, passar, cozinhar e limpar todos os dias durante toda minha vida porque é o mínimo que eu posso fazer pela senhora ter me dado a luz. (Isso quer dizer que toda parteira tem uma agencia de domésticas?)

9)      Vou te ensinar o verdadeiro significado da expressão “última vez” pra que não tenhamos a última vez todos os dias.

10)   Vou solicitar por escrito uma lista das minhas obrigações pra que eu possa provar quando faço mais do que elas.

11)   Vou te poupar de saber a sacanagem que seria dessa casa sem a senhora.

12)   Vou disponibilizar minha mala de viagem pra senhora poder ir embora de uma outra pra outra viver a tua tão sonhada liberdade de sei lá o quê. Eu acredito que realmente a senhora pode ser muito feliz sozinha, sem nada, sem ninguém e carregando uma mala de trinta quilos pra cima e pra baixo.

13)   Vou adaptar meu notebook à uma esteira pra que a senhora VEJA que eu realmente tenho motivos pra estar cansada MESMO passando o dia no computador.

14)   Vou dar início ao pedido de canonização da senhora no lugar do São Longuinho que anda ganhando todas as promessas de gritos e pulinhos que são de mérito seu.

15)   Vou praticar métodos de memorização pra cumprir todas as exigências que a senhora me faz quando saio de casa.

16)   Vou comer as frutas que não gosto e não pedi pra senhora comprar pra não estragar porque é pecado. E se a senhora traz o pecado pra casa, a gente tem que comê-lo.

17)   Vou estruturar horários pra me levantar da cadeira do computador e a senhora não achar que não faço nada o dia todo.

18)   Vou pagar a tua tão sonhada tatuagem escrita BANCO na testa que me acusa sempre de ver.

19)   Vou te ensinar a falar “Venha nós, mas vosso reino nada” em cinco línguas pra que a senhora possa enriquecer seu amplo vocabulário argumentativo.

20)   Vou te dar um relógio pra que a senhora possa cronometrar em quanto tempo a casa se desarruma e não pense mais que é em um minuto.

Eu espero, mamãe, que assim a senhora finalmente ache que eu quero alguma coisa da vida e me deixe ficar humildemente debaixo do seu teto sem a pressão de casar e sair de casa antes que eu me torne igual a filha mal falada da vizinha.

Com amor,

Samantha.

p.s: qualquer semelhança com a realidade de todo mundo não me interessa porque eu não sou todo mundo.

?>
Continue lendo.

Pense duas vezes antes de me chamar pra sair.

Pense duas vezes antes de me chamar pra sair, não sou a menina que aceita tua proposta com sorriso no rosto, disposto. Tampouco aquela que se entretém com sua falta de assunto, sua curta visão de mundo. Não quero ouvir sobre o que você tem, quero saber quem você é.

E não me conte suas conquistas pra que eu não desista de descobrir que teu melhor veio do fracasso, do escasso.

Pense duas vezes antes de me chamar pra sair, se eu aceitar estarei entrando de vez em sua vida. Prestes a atar os laços da loucura de tuas feridas, soltar teus medos do armário ao vento, e esperar que se livre do tormento do passado. Não me peça calma quando perder o controle sobre mim, sobre nós. Você foi avisado. Não há tempo que cure uma alma cansada, uma cara lavada.

Outra hora, talvez, me pegue pensando se devia ter calculado as consequências de tomar uma atitude que seja puramente do coração, ou não. Deixo a dúvida na insistência de se ater aos ímpetos do desejo, do beijo. Sou um tiro certeiro no escuro.

Pense duas vezes antes de me chamar pra sair, eu dispenso a perda de tempo que é causar uma boa impressão. Não tenho essa aparência plástica, esse cabelo impecável, esse corpo montado. No lugar disso, eu tenho uma história de cada ano que vivi, cada lugar que conheci e todos aqueles que me deixaram uma marca invisível de saudade.

Já derrubei muros de vaidade com as maiores verdades que o ego ofuscou, pois me oponho a todo manifesto de falsidade, hipocrisia. Prefiro de veras ser julgada do que ter essa vida vazia, mesquinha. Eu não procuro por raízes, nem planos e tampouco procuro por donos que me façam desistir.

Pense duas vezes antes de me chamar pra sair, porque eu vou te levar ao limite e exigir de ti que não se irrite se por ventura ou má postura minha loucura te sucumbir. Eu vou te contar as piores histórias, pois não tenho qualquer apego a memória que vem à tona e se apossa do meu presente. Já aprendi a colecionar experiência e me desfazer das exigências que a falta de expectativa me fariam ter. Só tolero a rotina da busca incessante que vibra no peito, não estou disposta a passar a vida na sombra dos sonhos imperfeitos de outro alguém.

Pense duas vezes antes de me chamar pra sair, pois eu vou me doar por inteiro pra colher tudo que for verdadeiro e todo sentimento que puder nutrir. Não vou deixar que nenhuma preocupação me desfoque dos meus objetivos, tão ensaiados pra serem cumpridos. E se não puder me acompanhar que não comece a tecer as ilusões que te fazem bem aos meus ouvidos. Ignoro todos os pedidos que não vierem do coração.

Não perca seu tempo comigo se não puder esquecer de tudo que sabia sobre felicidade, e talhar de acordo com sua própria vontade teus verdadeiros planos de conquista.

Mas, sobretudo, pense duas vezes antes de me chamar pra sair se meu temperamento te assusta pela audácia com que exponho a minha vida sem culpa.

?>
Continue lendo.

Maldita Sorte: conte sua história.

Eu adoro quando recebo emails e etc pedindo conselhos porque eu me sinto realmente útil no mundo. Desejo enlouquecidamente um óculos de grau com armação grossa e um divã pra ouvir essas experiências no melhor estilo “Como você se sente em relação a isso?”. Sem falar que todo meu vasto conhecimento vem de todos as séries de drama adolescente que eu já assisti, os livros de chick-lit que eu sou apaixonada e minha coleção de asas cortadas, amores ultrapassados e embalagens de Sonho de Valsa com dedicatória. Ou seja, em termos de relacionamentos, eu sou como o João Bidu da astrologia.

Obrigada, gente! Mesmo.

Bom, infelizmente, não dá pra ler, pensar, escrever e publicar todas as histórias que tive o prazer de acompanhar e dar meu pitaco. Por isso, tive a brilhante ideia de…wait for it…FAZER UM VLOG!

Plateia de dar inveja no Casos de Família.

Plateia de dar inveja no Casos de Família.

Pra quem não sabe, Vlog é um blog em video. Ou seja, eu vou poder falar infinito como se fosse um papo nosso, estilo Girls-talks, e vou ter como aconselhar – e atrapalhar – a vida amorosa de mais pessoas.

Então, se você precisa de conselhos ou simplesmente quer contar sua história pra ouvir o que eu penso sobre ela – não me responsabilizo por respectivos danos mentais – não perca tempo e nos envie AGORA.

O email para o desabafo virtual é contato@benditacuca.com.br

E, claro, todos os nomes ficarão em sigilo.

Quer dizer, dependendo da oferta…

Com amor,

Samantha. – Dona daqui até aonde o sol toca.

 

Cada vez que você compartilha um post do BC!, um gato persa dá um mortal pra trás. E sobrevive, claro. Faça o teste!

 

?>
Continue lendo.

Namorar X Continuar solteira

Pra mim, chega. Simplesmente cheguei naquela fase em que todos ao meu redor começaram a noivar/casar. Raios e trovões! Tudo bem que eu sou a mais nova e uso essa desculpa como escudo desde quando escrevia versinhos da Sandy&Junior na minha agenda. Mas chega uma hora que cansa. Não consigo manter a razão quando todos a minha volta só falam de casamento. Por fora eu sorrio, por dentro fico histérica. Principalmente diante de situações como essas:

Pessoa 1: Venham cá, todas as noivas batendo foto mostrando o anel!

Pessoa 2: Ah, mas eu não tenho anel! Só sou amancebada!

Eu: …

Pessoa 1: Então tá, todas as noivas e amancebadas batendo foto.

Pessoa 3: Ah, mas eu também não tenho marido. Só namoro!

Eu: …

Pessoa 1: Ok, ok. Todas as noivas, as amancebadas e as namoradas batendo foto.

Eu, enfim, resolvo me manifestar só pra não perder a chance de preencher um espacinho entre duas cabeças na marcação do Instagram: Ah, mas eu não tenho namorado. Só tatuagem!

Para uma sensação completa dessa experiência, dê o play e sinta-se no meu lugar após essa frase.

Não é recalque, nem nada. Eu só queria entender quando virou uma epidemia.

Mentira. É recalque, sim.

Mas por outro lado, se eu parar bem pra pensar, eu realmente não quero essa vida devido as escolhas que fiz e que exigem o máximo de mim. Mesmo. Tento fazer minha mãe entender isso todos os dias quando me cobra “fazer algo da vida” e eu digo que estou escrevendo. Ou seja, eu luto contra o sistema! Eu luto contra uma nação! Eu luto contra o preconceito!

Sou um espírito livre, um corcel indomado.

Ainda. Porque sou nova, por acaso.

Pois bem, mas nem sempre de especulações que se faz a vida. É preciso também um punhado de dinheiro, alguns engradados de bebida e muita, mas muita, disposição pra estar solteiro e não ficar sozinho e estar namorando e não ficar pegajoso. Pra entender melhor os dois lados da moeda e ajudar, por ventura, qualquer infeliz indeciso que se prostrou em cima do muro na relação e ainda não sabe pra que lado sucumbir, nada melhor do que uma lista básica.

MOTIVOS PARA CONTINUAR SOLTEIRA

1)      Namorar engorda. Sério. TODO MUNDO SABE DISSO. Mas melhor do que a credibilidade do ditado popular é a certeza cientifica desse fato. Segundo as pesquisas de uma farmácia online britânica – da qual eu acredito cegamente na veracidade só porque vi na Superinteressante – nos relacionamentos com mais de um ano, as mulheres ganham em média 3 quilos. E os homens emagrecem, porque até nisso, a vida é injusta! Se bem que segundo minha pesquisa particular há vinte e três anos, os dois engordam muito juntos. Até porque eles só saem pra comer, já tem intimidade com o corpo um do outro pra se preocuparem tanto – o que quer dizer que há não pudores em abrir a barriguilha do short em um rodízio de pizza. E não tem aquela obrigação escrachada de estar com o corpo sempre fatal e sedutor para dar o bote em algum desavisado. E, por fim, eu tenho Facebook e acompanho a vida das pessoas, portanto, EU VI QUE ENGORDARAM.

 

2)      Perde DOIS bons amigos. A verdade é que você namorando se afastar, sim, de seus amigos, principalmente os mais próximos. O que torna isso um paradoxo um tanto interessante. Justamente aquelas pessoas que te apoiaram e acompanharam todo início do seu namoro, suportaram suas crises, suas lamúrias, te cederam lenços, ombros e vodca, são as que você se afasta. Principalmente, se tratarem-se de companhias solteiras. Isso foi o que constatou uma pesquisa da Universidade de Oxford que também diz que nós só temos CINCO bons amigos na vida. Te deixando ainda com 4 números vazios na discagem rápida, caso houvesse alguma necessidade. Claro que, pra algumas pessoas, simplesmente colocar o número do Ibama já deve salvar a vida dela, mas isso não vem ao caso. A questão é que perder dois de cinco é muita coisa. Portanto, se você namora ou pensa em namorar, não distancie-se dos seus amigos. NÃO FAÇA ISSO. Nem pelo seu namorado, nem por causa do seu trabalho, e tampouco por causa de seus vexames. Mesmo que seu conto de fadas não venha a acabar e você case, tenha filhos, uma família linda e perfeita, haverá crises, dias bons e dias ruins – porque como eu sempre digo: é a vida. Então, você vai precisar dessas mesmas pessoas, desse contato, dessa aproximação. VOCÊ VAI.

 

3)      Você pode adoecer. Principalmente, se vocês forem briguentos. Ai, deus, como é chato um casal que briga o tempo todo! Sério. Vocês sabiam que quanto mais brigam, menos o organismo produz ocitocina (hormônio responsável pelo fortalecimento de defesa)? Isso não parece ser grande coisa, né? Se eu dissesse que isso faria os homens ficarem brochas e as mulheres carecas, aí sim, ia ter neguinho beijando os pés pra se reconciliar. Acontece que os efeitos reais podem até não ser esses, mas de fato, os casais mais esquentadinhos são mais vulneráveis biologicamente falando, justamente porque passam menos tempo se amando e mais tempo se maldizendo pros outros. Claro que quem está dizendo isso não sou eu, e sim, um estudo americano.

Além disso, todo mundo sabe que namorar é assim:

namorada

MOTIVOS PARA NAMORAR COM O PRIMEIRO CARA QUE PEDIR

1)      Quase te faz imortal. Essa é um a ideia bem simples, na verdade. Quando você ama, você tem mais motivos pra lutar pela sua vida, por seus objetivos, e inclusive, por alguém. Segundo pesquisa americana, o índice de sobrevivência de pacientes casados após uma cirurgia é TRÊS vezes maior do que dos solteiros. Então, se você ama a vida, os astros, as tapiocas e tudo mais, tem mais chances de se tornar imortal. Até quando morrer, obviamente. A má notícia é que se, por acaso, você teve seu coração partido, mas ainda é apaixonada você não vai morrer mesmo que se esperneie. Vai ter que encontrar sentido pra voltar a sorrir, quer queira, quer não. A vida continua, Darling.

 

2)      Solteirões morrem mais cedo. Isso é porque eles se divertem mais, aproveitam mais o dia, aproveitam as coisas ruins, veem o lado bom da vida, ficam felizes com menores gestos de recompensa e são mais autossuficientes. Diz pesquisa realizada por eu mesma. No entanto, de acordo com pesquisadores da Universidade de Louisville isso acontece porque quem namora obviamente tem um suporte social maior. Ou seja, tem alguém pra compartilhar as alegrias, as desgraças, os perrengues, tudo. E, portanto, isso torna qualquer fardo bem mais fácil de carregar. Se bem que a minha teoria é muito mais legal. Mas fazer o quê, né? A pesquisa ainda diz que as solteiras ainda correm um risco 23% maior de morrer. AI MEU DEUS EU TO LASCADA VOU MORRER ADEUS MUNDO CRUEL. TIREM AS CRIANÇAS DA SALA!!

 

3)      Amor deixa a comida mais gostosa. Eu sempre soube que o que eu sentia pelo meu Big Mc era amor. Sempre. Incrível sua capacidade de ser imbatível a qualquer tristeza e acontecimento marcante, mesmo quando isso se tratasse fatalmente do meu próprio peso. No woman no cry. Little darling, don’t shed no tears! Amar e ser amado torna, sim, a vida mais apetitosa, então desfrutar de uma macarronada acompanhada sempre será mais gostosa do que sozinha. Contanto que em ambas situações haja uma garrafa de vinho, claro. Segundo, Kurt Gray, um psicólogo da Universidade de Maryland, o jeito que captamos as intenções dos outros muda nossa percepção física do mundo.

Além disso, todo mundo sabe que ser solteira é assim:

solteiro

E aí, de que lado você está?

 Fonte: Ciência Maluca

Cada vez que você compartilha um post do BC! um anjo ganha asas. Faça sua boa ação do dia e garanta sua vaga no céu.

?>
Continue lendo.

Obrigada por ser um cafajeste.

Você lembra do dia que nos conhecemos? O bar estava lotado e eu havia sentado no último banquinho próximo ao balcão. Pude sentir seu perfume forte, e a intensidade com que exalava anunciava sua aproximação. Mas eu estava distraída demais no meu celular pra sequer me importar com isso.

Você me notou porque é desses que sai pra balada à caça, procura alvos, estuda o território, pede indicações ou quaisquer que sejam os outros métodos de investida criados pra lhe render uma falsa segurança de saber com quem se envolver. Afinal, você não se preocupa com a imagem dos outros tanto quanto se preocupa com a sua.

Encostou-se ao meu lado no balcão com o cotovelo tocando no meu pra que eu pudesse vê-lo. E eu vi.

Senti uma pontada fina no peito e uma preocupação repentina de ver se ainda estava maquiada. Mas antes que eu pudesse disfarçar e pegar o espelhinho em minha bolsa, você me ofereceu uma bebida.

“Aqui está a sua.” Você disse assim. Curto e direto.

Achei uma tremenda audácia da sua parte chegar sem me dizer um “oi” ou perguntar meu nome. Eu quase virei o rosto e me levantei no ato. Eu disse quase.

Mas você sabe que, na verdade, a sua confiança em si mesmo era uma das coisas que eu mais admirava em ti. Também a forma com que conseguia passa-la pra mim e me acalmar diante das minhas crises. Deus, você me fazia sentir tão segura!

Naquela noite conversamos sobre festas, os lugares que gostávamos de ir e nossas profissões, sutilmente talhando a imagem que criávamos de nós mesmos à nossas necessidades de relacionamento. Não me lembro porque o achei interessante se da tua boca não saiu nada que eu já não tivesse ouvido algumas centenas de vezes de outros estranhos.

E a maneira rápida e concisa com que me respondia denunciavam a sua prática em exaltar o melhor que achava ter em ti. Como seus “grandes” feitos resumidos muito bem em seu perfil do LinkedIn.

Mas mesmo assim ficamos e foi ótimo. Ótimo de verdade.

Você lotava meu celular de mensagens de “bom dia, boa tarde, boa noite”, enchia meus ouvidos com suas satisfações nos mínimos detalhes e minha cabeça com suas bobagens. E eu adorava. É bem verdade que no primeiro mês não ficamos mais que 5 vezes, mas nos falávamos todos os dias, e quando saíamos era em público. Quer dizer, nossos amigos já sabiam de nós. Isso já era um relacionamento, não era?

Achando que a minha vontade de ficar contigo dependia da nomenclatura, você me pediu em namoro. Eu aceitei, é claro. Não porque eu sentisse que você fosse o único, aquele capaz de fazer valer a pena abrir da mão da tranquila vida de solteira que eu tinha, mas porque me ensinaram a não desperdiçar as oportunidades. Principalmente, aquelas relacionadas a namoro. Eu sei que não anda fácil por aí. Então, se começar a ficar com um cara e ele, por acaso, quiser te levar pro “próximo nível” você meio que deve aceitar só pra ver no que vai dar. Só pra não pertencer ao temido hall das solteironas, sabe?

E também porque é bem legal ser vista como alguém que vale a pena namorar por uma pessoa mulherenga como você sempre foi.

Foi bem fácil me apegar a ti. Suas demonstrações de amor nas redes sociais me faziam sentir valorizada, a marcar um território tão visado por outras. Eu adorava a forma com que havia se afastado de todas suas amigas mulheres pra que eu não me sentisse insegura. Você sabia, como ninguém, me agradar com suas surpresas românticas ensaiadas, seus presentes caros, sua bajulação na minha tpm, seu ciúmes pra me fazer sentir protegida. A raiva que tinha das minhas roupas curtas, dos meus amigos homens, da forma com que eu cumprimentava as pessoas abraçando, tudo isso era perfeito. Tudo isso fazia parte. Tudo isso eu acreditava me fazer bem.

Chegava até a ficar chateada quando não fingia se importar com minha provocações.

O dia que viajamos para conhecer seus pais, você foi incrível! Eu descobri que te amava enquanto te ouvia quebrar o silêncio do jantar enaltecendo as minhas qualidades pra sua mãe.

Fiquei encantada com seu esforço em provar a ela que eu era digna de fazer parte da família. Da sua família. Quem sabe, da nossa.

Você falou sobre o que eu havia estudado, os lugares que eu conhecia, as línguas que eu sabia. Nem acreditei quando se lembrou da ação solidária que eu coordenei naquele mesmo ano e contou com paixão nos olhos.

Eu te amei pelo o quanto você quis mostrar que eu era inteligente pra sua mãe, mesmo sabendo que ninguém jamais seria o suficiente aos olhos dela.

Eu te amei pelas vezes em que disse o quanto eu era linda na frente de seu pai, me fazendo sentir como um troféu. O melhor deles, o que você mais se orgulhava.

Você era aquele que preenchia as lacunas que eu requisitava desde a minha infância. Aquele que eu esperei por tanto tempo naquele mesmo banquinho do bar. E apegada a essa imagem tão bem esculpida de quem devia ser o meu namorado, ficamos juntos por anos. Eu queria acreditar que podia viver meu conto de fadas contigo.

E dentre uma briga e outra, nos momentos bons, eu pude. Me agarrava a qualquer lembrança do seu carinho, do seu sorriso, da sua preocupação comigo pra dissipar a insegurança que suas mentiras me causavam.

Eu sempre te perdoava, você sabe. Não era fácil, mas era preciso ser feito. Eu não estava disposta a viver tudo aquilo de novo com mais ninguém. Na verdade, ninguém me parecia valer a pena pra se viver aquilo. Tinha que ser você. Tinha que ser com você.

Sendo assim, superamos ano após ano os altos e baixos da nossa relação.

 

Ainda me lembro da sua cara conformada em pôr seus sonhos de lado quando aceitou aquele emprego de merda. Fiquei um pouco decepcionada com sua acomodação quanto a isso, mas mais uma vez você me fez sentir especial. Disse que fazia aquilo por nós, pra que tivéssemos dinheiro, pudéssemos comprar nosso apartamento, pagar nossas contas, ter nossos filhos.

Foi a primeira vez, depois de cinco anos, que você falou de nós dois como marido e mulher. Como nossos pais. Eu pude ver que era isso mesmo que você queria ter: uma família.

Fiquei eufórica com a ideia, eu sempre quis ter uma família também. Sempre. Vê-lo falando disso de uma forma tão natural, como algo tão próximo de nós, tão perto, me fez sentir uma compaixão imensa por ter desperdiçado seus melhores anos bajulando um político pra ter esse cargo público. Você mereceu mesmo, sabe?

Mas eu só percebi que você realmente estava pensando em casamento quando começou a me cobrar atitudes que uma esposa devia ter. Que sua mãe provavelmente teve e por isso a admirava. Você já havia aprendido a lidar com ela da melhor forma, inclusive, também sabia qual a melhor forma que seu pai tinha de lidar com ela.

Ou seja, seria mais fácil que eu fosse mais parecida com ela possível. Seria melhor pra nossa relação.

E, pensando nisso, eu me vi esforçada ao máximo em ter as características que você queria, as mudanças que você pedia, a submissão que você respeitava.

Eu não conseguia sempre. Nem sempre as mudanças davam certo, você sabe. Também tinham coisas que eu queria mudar em você e outras que eu sequer via como erradas e portanto relutava.

Mais uma vez, pensando que era isso que faltava pra que eu quisesse continuar contigo, você me fez a proposta de casamento. Deus, foi incrível!

Lembro de cada detalhe como se fosse hoje. A surpresa, os gritos, a família e os amigos na expectativa, as palmas, o beijo. A certeza de que éramos um belo casal evidenciada por cada olhar a nossa volta. A inveja explícita de outros pela forma perfeita com que nos encaixávamos.

Afinal, havíamos nos adaptado, nos moldado, nos fundido. Sete anos não são sete meses. Eu te conhecia, você me conhecia. Não tínhamos surpresas, não tínhamos imaculadas expectativas, nem imprevisíveis decepções.

Você sabia como me alegrar, como me emocionar, como me fazer gozar. Você sabia tudo sobre mim e eu estava feliz por simplesmente saber isso.

Sinceramente, não via como podíamos dar errado. Já tínhamos passado dessa fase há muito tempo e colhido todos os frutos podres de nossos erros.

Éramos o que tínhamos que ser.

Conforme a bendita data se aproximava nos víamos menos. Eu sei, talvez, a culpa tenha sido mais minha. Eu estava muito ansiosa com os preparativos, muito preocupada. Eu queria que tudo fosse perfeito, assim como havia sonhado.

Eu estava vivendo meu conto de fadas e mal podia acreditar, nada parecia me importar tanto naquela época.

Treinando pra ser a melhor esposa possível que decidi te fazer aquela surpresinha no escritório. Eu sabia que você não tinha muito tempo livre e, por isso vivia estressado, cansado. Por isso, nem sempre queria transar quando chegava em casa tarde da noite. Eu sabia que seu trabalho te consumia muito, sabia que te sugava a vida. Mas agora precisávamos dele, do dinheiro que ele nos dava, então, eu entendia. Não reclamava.

Mesmo quando passava a madrugada inteira da sexta feira com uma garrafa de vinho na mão e o olhar grudado na porta, eu me policiava pra não te encher o saco.

E me lembrava que você fazia isso por nós.

Então teve aquele dia que resolvi ir ao seu escritório levando seu prato preferido embalado pra viagem. Para nós dois. Pra que tivéssemos um tempo juntos.

Meu bem, eu nunca vou esquecer da sua cara quando abri a porta. Sua expressão de prazer sufocada pela angustia de me ver renderam-me pesadelos por noites inteiras. O sapato preto de salto alto que aparecia por baixo da mesa me deu nojo de scarpin.

Seus gemidos de orgasmo ressoaram por meus ouvidos da única forma que eu ainda não tinha ouvido: com asco.

 

Eu vi a loira ajoelhada, mas sequer me preocupei com ela. Eu estava no meio da sua merda de escritório de quinta, onde trabalhava na assessoria de mais algum merda de político que te fazia mais um merda de corrupto. Eu estava em meio a merda de vida que havia construído contigo, pensando na merda da família que tentei agradar. Na merda do emprego que abandonei pra poder viver ao seu lado. Pra um dia, simplesmente, deixar de ouvir e pensar pra passar a ver e sentir a merda de relacionamento que eu estava. Tudo porque algum merda de mentiroso me disse que devia ser assim.

Que eu devia procurar quem me desse a merda de uma estabilidade financeira, quem me aceitasse como sendo uma mulher direita, quem me honrasse diante da nossa família, quem usasse o compromisso exibido em aliança.

Eu estava em meio a minha própria merda de vida que foi domesticada, direcionada e rotulada.

E, sabe, vê-lo vulnerável daquele jeito, nervoso em se desculpar, ansioso em prometer o mundo inteiro pra mim me deu a certeza de que esse, definitivamente, foi o ponto alto da nossa relação.

Eu podia perdoa-lo por me trair, afinal, já havia feito isso outras vezes.

Mas alguma coisa havia mudado em mim. As palavras PARA O RESTO DA VIDA zumbiam em minha mente.

Eu não queria viver para o resto da vida assim.

Eu não queria viver para o resto da vida sendo o que os outros queriam que eu fosse.

Eu não queria ser para o resto da vida previsível pra você, conhecida pra você.

Eu não queria ter para o resto da vida o fardo de não ser tão bonita ou tão inteligente pra sua família.

Eu não queria para o resto da vida uma relação baseada no ciúmes possessivo e a carência de mentirinha.

Eu não queria a pressão o resto da vida de que devia aceitar o que parecesse certo aos olhos dos outros.

Eu não queria para o resto da vida adaptar minha insegurança a seus defeitos.

Eu não queria passar para o resto da vida noites em claro sozinha em casa enquanto me perguntava aonde meu marido estava.

Eu não queria para o resto da vida moldar meus costumes aos afazeres que você impôs como certo pra sua esposa.

Eu não podia para o resto da vida estar com alguém que não me fizesse evoluir, que não me confrontasse, que não me alavancasse.

Eu não queria ser para o resto da vida, literalmente, o troféu de mais um.

E quando avancei sobre você e lhe dei um tapa na cara, eu queria mesmo foi ter te dito OBRIGADA.

Obrigada pelos maravilhosos anos de alegrias e desavenças. Por ter feito tudo conforme manda o figurino, sem tirar nem pôr. Por ter sido um exemplo fiel de namorado infiel e, logo, marido infiel. Mas, mais do que isso, ter me mostrado que há coisas muito superiores a traição. Aliás, que traição por si só não é lá grande coisa. O que a gente verdadeiramente perde quando se deixa levar pelo o que falam, pela forma com que os outros lidam com isso é que realmente conta.

Obrigada pelos anos que eu não pude me conhecer sem você, não mensurei meus interesses e minhas vontades e agora tenho uma vida inteira pela frente de descobertas.

Obrigada pelo desmedido martírio que eu senti ao ter que me recompor diante do abismo que é pensar sozinho com uma vida a dois.

Obrigada porque eu aprendi da forma mais dolorosa, porém indiscutivelmente mais libertadora, a buscar indelevelmente o que me fizer feliz. A mim, e a mais ninguém. Ou pelo menos, a alguém que sabia respeitar isso e, não, limitar.

Não me leve a mal, não tenho qualquer intuito de te ofender. Já passei da fase de te culpar pelas minhas próprias escolhas, e ainda te guardo do lado esquerdo do peito com uma gratidão imensa. Às vezes, tenra e às vezes saudade.

Se não fosse por você, eu ainda acreditaria em contos de fadas.

Obrigada por ser o cafajeste que me fez uma mulher que vale a pena. Eu aprendi a valorizar quem me enaltece pelas razões certas. E você aprendeu que não era só uma bebida naquela noite no bar. Nunca é.
É uma promessa de futuro.

?>
Continue lendo.