O que aprendi com a perda.

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Não posso negar que algumas das pessoas que mais me decepcionaram também desempenharam um papel importante em minha vida: me ensinaram a ser forte. Temos que ser tolerantes quanto as falhas dos outros também, afinal, somos igualmente imperfeitos. A questão é conhecer seu limite: se o perdão te leva a um ciclo vicioso de dor, por que insistir? Não é egoísmo, é simplesmente entender que algumas pessoas não valem a pena. Mas que sempre vão existir aquelas que te farão mudar de ideia e, por elas, não podemos nos desmotivar.

Eu costumava pensar que ninguém fosse insubstituível, mas quanto mais o tempo passa, percebo que algumas das pessoas que partiram foram as que mais me marcaram, e não porque me fazem falta, mas porque me ensinaram a seguir em frente sem arrependimentos. Quando alguém não nos aceita, pede para que mudemos e nos julga ao invés de ajudar, claramente, não é alguém que serve pra gente. Amor é quando se quer o bem do outro, já apego é quando se quer que seja outro.

Relacionamentos não seriam tão complicados se as pessoas dissessem aquilo que sentem e ouvissem mais o próprio coração e menos a boca dos outros. Ou simplesmente, não desistissem um do outro por medo de tentar. Todo mundo precisa de alguém que lhe ajude a superar o medo. Inclusive as pessoas mais fortes, são elas que mais precisam. O amor é difícil para o indeciso, é intenso para o apaixonado, mas para aquele que é forte, admitir estar envolvido, é um ato de coragem.

Às vezes, pra que a gente se sinta bem, temos que afastar algumas pessoas, enterrar sentimentos, quebrar promessas. O único compromisso que a gente tem é com a nossa própria felicidade, não dá pra ser fiel ao passado e esperar por um futuro melhor. Desapego é não temer ser aquele que saiu perdendo. Se eu não tivesse ficado sozinha, sem chão, perdida, não teria aprendido como cuidar de mim, me reerguer, e continuaria achando que precisava de quem fizesse isso por mim. Hoje eu preciso é de quem saiba que mereço mais do que uma companhia.

Ela era mais do que saudade.

foto Maju Trindade

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Ela aprendeu que, independentemente da dificuldade, só haviam duas escolhas: ser feliz ou triste. Ela sentia saudade e uma vontade louca de ir atrás. Sentia falta e um medo danado de ser esquecida. Mas, acima de tudo, sentia paz. Vivia em paz. Todo dia esbanjava um sorriso no rosto, e não porque isso tornasse a vida mais fácil, mas porque sabia que não podia dar chance a tristeza de convencê-la a desistir. E, no fim das contas, mesmo sozinha, ela sabia que isso era tudo que precisava. Ela engoliu o choro e aceitou o fim. Não importava o que iria acontecer, depois dele, ela já não era mais a mesma. Ela sorria e o mundo mudava de cor. Ninguém podia imaginar que por detrás de tanta luz havia tido muita dor.  O tempo fez dela mais forte e dele mais um.

Ela seguia seu coração, acima de todas as coisas; por mais errada que estivesse, por mais boba que parecesse, por mais apaixonada que se fizesse. Ela era intensa, 8 não lhe cabia e transbordava em 80. Gente inteira não consegue se doar aos poucos; é tudo ou nada, mas nunca a metade um do outro. Ela mal cabia dentro de si, quanto mais em outro peito que não lhe desse espaço. Não é fácil abandonar alguém sem deixar um pouco de si na partida. Gente que se doa demais tende a se perder em cada parte. Por isso, a sensação de falta. De vazio. Mas é melhor livrar-se do que não te acrescenta do que prender-se a sentimentos falsos.

Tem gente que esqueceu de si para relembrar alguém, que se faz presente na vida de quem já se ausentou. Tem gente que não se permite desapegar. Superar é, sobretudo, uma escolha. Você precisa reconhecer que o tempo não pode curar um coração que insiste em amar no passado. Dói mais terminar com quem ainda gostamos, é claro. De repente, o mundo nos parece errado, como se sofrêssemos algum tipo de injustiça divina. Mas, por baixo da tristeza, se pudermos reconhecer nossa paz interior, saberemos que fizemos a escolha certa. E essa é a razão de seguirmos em frente.

As coisas que afetavam a maioria das pessoas pareciam não importar a ela. Se fosse derrubada, não se amargurava. Se caísse, mesmo cambaleante, levantava. Se fosse machucada, perdoava. Nunca foi fácil, mas ela colocava um sorriso no rosto não importava o que viesse. E quando lhe perguntavam se tinha valido a pena não hesitava ao responder que sim. Tinha aprendido muito, crescido bastante, embora ainda escondesse dentro de si cicatrizes latentes. O que te faz feliz pode não ser eterno, mas será inesquecível. Eternidade é só uma coisa que inventamos pra evitar o desapego. As coisas duram o tempo que tem que durar.

Ela tinha certeza que não cometeria os mesmos erros, mas faria tudo de novo sem arrependimentos. Por outra pessoa, é claro. Ela sabia que não havia razão para tentar de novo com quem não tivesse aprendido a lhe valorizar ao perdê-la.

Certezas.

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Eu sei que sou intensa demais. Que às vezes até assusto as pessoas, e até peço desculpas por isso. Talvez seja típico de librianos a flor da pele, que transbordam amor ou ódio, é 8 ou 80, afinal água morna não serve nem pra fazer chá. No auge dos meus vinte anos, em pleno frio de um outono rigoroso, me vejo caminhando com minhas próprias pernas.

Abandonei muitas amarras que me faziam mal, tive que abrir mão de algumas coisas – e pessoas boas – pra enfim conseguir me libertar realmente e seguir minha vida, conforme eu acho certo, conforme eu quero. Minha psicóloga disse que sou muito ciente das minhas falhas e do meu potencial, que só basta um empurrãozinho pras coisas irem devagarzinho pro lugar.

Ao longo de todos esses anos fiz muita besteira. Errei muito, pirei, joguei tudo pro alto milhões de vezes, me arrependi. Voltei atrás, quebrei a cara, tive medo e não arrisquei. Quis tanto algo que tive preguiça de ir atrás, fui covarde. Briguei. Gritei. Falhei. Conquistei tantas coisas que sou infinitamente grata. Amei. E sinto saudade.

Hoje em dia eu só quero dias de Sol. Daqueles que aquecem a alma, o coração e tudo em volta. Olhar pro céu e sorrir, como eu sempre amei fazer. Saber que posso confiar nas pessoas, e exercer apenas a reciprocidade. Ir atrás dos meus objetivos sem medo de tropeçar, dar o meu melhor em cada coisinha que eu fizer, e não ter mais medo de mergulhar no teu sorriso.

O mundo da muitas voltas, mas quando caminhos tão diferentes nos levam ao mesmo lugar, tudo faz sentido.

Toda grande mudança é difícil

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Toda grande mudança é difícil. Já nem contos nos dedos por quantas vezes não me reconheci ao ver meu reflexo, falei coisas que me arrependi instantaneamente, chorei por outras que jurei que não me machucavam mais. Já sentei no chão atrás da porta e desisti. Já sentei numa calçada no meio da rua e desisti. Já sentei no estacionamento do shopping e desisti.

Porque a vida é difícil. Porque algumas pessoas são ruins de verdade. Porque sentir dói, gostar dói e superar também dói. Eu falhei. Várias vezes. E nada ao meu redor mudou. Nada. Nem o vento soprou mais forte. O universo não teve pena de mim. Não tive nenhum sinal divino. Então, eu cansei, inclusive, de desistir. E como se nada tivesse acontecido, tive que continuar.

Porque essa bagunça que trago no peito é minha, ninguém sente como eu. Tem dias em que ainda acredito que não vai passar, mesmo contradizendo tudo que já vivi, a malícia do tempo e a veracidade da minha memória. O amor não é como a maioria dos outros sentimentos. Tem o lado ruim, aquele que doí, e você nunca mais vai ser o mesmo. Eu não sabia disso, mas agora eu sei. A vida não te dá escolha: você tem que ir. Tem que levantar. Tem que tentar. Tem que superar. Tem que esquecer. E não pode deixar de trabalhar, estudar, pagar contas, ajudar o próximo, ouvir problemas que considera menores e dar a devida importância que eles têm pra quem os fala. Faz parte. E dá medo. Mas é isso. É disso que somos feitos.

Você vai chegar ao teu limite e aguentar. Então, vai perceber que pode aguentar um pouco mais, e seu limite vai ficando cada vez maior. Já me senti angustiada por não saber o que fiz de errado. Já me senti pequena e incapaz, porque, por mais que eu me esforçasse, não era o bastante pra fazer alguém ficar. Até que percebi que todas as tentativas seriam em vão se não houvesse reciprocidade. A gente só pode morar em um coração que nos aceita. Desistir não é uma opção real. É só um pedido de socorro. E por incrível que pareça, você não está sozinho(a) nessa.

Acabou.

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Ontem voltando pra casa, depois de uma aula terrível em que eu não consegui prestar atenção em nada, lembrei de você. De como a gente era no começo, daquele verão tão bom, de como tudo aconteceu e de como acabou. Naquele exato instante senti sua falta. Mas, não aquela falta de todos os dias, de quando queria contar algo do meu dia pra você, ou quando me perguntam se tenho noticias suas. Foi um aperto dilacerante no meu peito, doeu tanto que quase sufocou. Aos pouquinhos foi passando, até que cheguei em casa.

A gente precisava acabar. E vendo como isso melhorou nossas vidas, ta na cara que foi a melhor decisão a tomar. O amor não acabou, mas em algum lugar a gente se perdeu… E cada vez ficou mais difícil de se encontrar, e de vários desencontros eu simplesmente me perdi. Fiz você se perder também. O clima que era tão bom, se transformou em dias cinzas.

E hoje sei que foi melhor assim. Você é a pessoa mais generosa e de bom coração que já conheci. Me sinto privilegiada de ter feito parte da sua vida, e habitado seu coração por um tempo. Mas, acabou. E precisava acabar. E nem pense que foi fácil, pois não está sendo. Mas você merece viver. Merece alguém muito mais evoluída que eu. Merece toda paz, e afeto que houver no mundo. Merece todo sucesso que sei que você é capaz de conquistar. Merece dias bonitos, noitadas, aproveitar tudo que existir. Merece não perder tempo. Merece ir atrás dos seus sonhos e conquistá-los.

Eu fico exatamente aqui. Focando na faculdade, nas minhas consultas com minha psicóloga, tentando ajeitar essa enorme bagunça que minha vida se tornou. Aos pouquinhos vou me recuperando. Ainda vai levar um tempo pra tirar o nosso porta retrato da minha mesa do escritório, vai levar um tempo pra substituir nossas fotos por fotos novas, vai levar um tempo pra pararem de perguntar sobre você, vai levar um tempo pra me acostumar a ver Prision Break e não lembrar da gente, e te confesso que até perdi a vontade de comer sushi. Mas, aos poucos tudo vai indo pro lugar. Eu precisava disso, e você até mais do que eu.

Então viva. Porque aqui tem alguém que torce demais por você.

Carta ao quase amor da minha vida

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Querido quase amor da minha vida,

Na última vez que nos falamos, você me perguntou o porquê de eu ter insistido tanto tempo na nossa meia dúzia de linhas mal escritas e eu não soube o que responder. Mas a resposta era óbvia. Eu fiquei porque te amei. Amei você com cada borboleta que nascia no meu estômago a cada vez que você me contava uma piada que eu não entendia. Eu amei você quando você não soube o que queria e continuei te amando quando você voltou três dias depois tão inseguro quanto antes. Eu amei você durante todas as tempestades que você chovia em mim e amei mais ainda quando soube das suas imperfeições. Eu te amei na primavera e continuei te amando no inverno. Eu amei você por cada vez que você me deixou conhecer quem você realmente era e por cada vez que você segurou minha mão, mesmo que nossas mãos não se encaixassem tão bem assim. Você me entende agora? Eu amei você com todos esses corações que eu queria não ter e queria que você tivesse feito o mesmo. Queria que você tivesse te amado da mesma forma que eu te amei. Porque você era tão lindo por dentro que toda vez que eu te abraçava, eu esperava poder abraçar seu avesso também, porque o seu sorriso era poesia que eu lia de olhos fechados. Porque você foi tempestade enquanto eu era só garoa e foi furação que levou pedaços de mim, mas que não me deixou desistir de me encontrar de baixo dos escombros. Você foi eternidade em meio as minhas frações de segundo. Porque você foi verso livre diante dos meus sonetos. E você foi. Foi porque tinha que ir, porque não precisava ficar. Foi porque duramos o tempo suficiente para preencher os espaços vazios que vínhamos trazendo na alma. Foi porque já tínhamos escrito nossa meia dúzia de linhas e não se faz livro com apenas um parágrafo. Foi porque éramos bons juntos e como costumávamos insistir, éramos melhores ainda separados. Eu sinto muito por conjugar nossos tempos no passado, mas é a minha parte preferida sobre nós dois agora. E obrigada por ter em empurrado na direção dos meus sonhos e por todas as noites de insônia que me fizeram escrever.

Com todo amor do mundo, que ainda tem um pouco de você,

Eu.

Superar é perceber que já havia desistido dentro de si.

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Já haviam me falado que seria assim: uma atitude muito menor do que aquela que eu vinha esperando, que por muitas vezes chamei de sinal, e eu simplesmente saberia que nada mais seria igual. Jamais souberam me dizer quando viria, de que forma iria se manifestar. Por isso, a cada chance desperdiçada eu procurava listar os contras e nutria aos poucos o que eu achava ser minha defesa contra ele. Mas nada parecia ser forte o suficiente ou doloroso o bastante pra que eu quisesse realmente desistir. Eu acabava dando um jeito de ressaltar nas entrelinhas o que pra mim ainda valia a pena.

Não sei quanto tempo isso durou; ao seu lado, não mais que um segundo, longe dele, uma eternidade. Não sei dizer quanto de mim era coragem e quanto era loucura, mas eu insistia sem nem me dar conta do esforço que envolvia. Eu, que me torturava na demora de responde-lo, pensei em todas as possíveis formas de falar da maneira mais clara, mais uma vez, o que eu estava sentindo. Eu achava que se falasse dos meus sentimentos, tentasse lhe explicar a intensidade, ele ia se sensibilizar, ia ceder. Achava que quando gostávamos muito de alguém, esse alguém gostaria nem que fosse um pouquinho da gente, apenas como um gesto de gratidão.

Mas não é assim que funciona, muito pelo contrário. Quem já esteve do outro lado reconhece essa sensação: um misto de aflição e impotência. Você quer que a pessoa pare, que se ponha em seu lugar, que enxergue as coisas pelo seu ponto de vista. Você também quer ser ouvido, pois sabe que ela só vai escutar o que quiser. E foi quando ouvi aquela voz tão familiar me soar de um completo estranho que percebi que o havia superado.

Eu tinha todas as respostas possíveis e perfeitas para aquela situação na ponta da língua, mas de repente eu me dei conta de que qualquer que fosse a sua desculpa da vez ou réplica ao assunto, eu já não tinha interesse. E todo aquele infinito de dúvidas que me trazia aflição deu lugar ao completo nada. Não sei se você já sentiu isso, mas sabe quando você tem tanto a dizer que nada merece ser dito, porque a melhor das hipóteses já não lhe parece tão boa assim? E então, você não sente vontade de dar uma palavra sequer porque nem isso vale.

Às vezes, você precisa se libertar de quem poderiam ter sido juntos pra poder aceitar quem são separados. Por mais que alguém tenha te magoado, também te deu a chance de recomeçar do zero. Mais forte do que antes. Você não tem razão pra nutrir nenhuma esperança do passado, portanto é livre. Nunca é fácil sair de uma vida quando a decisão não é sua, mas pior ainda é forçar a entrada em uma porta que já está trancada. Sempre é uma aventura morar em outro peito porque, não importa o que façamos, outras pessoas já deixaram suas marcas. Temos que lidar com o passado, com o fracasso e o apego que nem sequer foi nosso. E aprender a respeitar o que foi perdido com a nossa chegada pra valorizarmos a estadia. Bom é amar sem esperar nada em troca, sem haver discussão, pressão, cobrança. Bom é amar de graça, sem amarras. Mas a gente insiste em amar na rédea curta por medo da distância.

E a vida funciona assim: a gente tem que buscar quem se encaixe na gente. Não adianta nos dedicarmos a um relacionamento unilateral, é como se quiséssemos a todo custo desdobrar um coração que nunca fez questão de ser nosso. Do que vale essa insistência, afinal de contas? Quanto de nossa teimosia é, de fato, vontade de estar com alguém e é apenas nosso ego ferido? Cedo ou tarde, você vai aprender que precisa mesmo gostar de você, cuidar de si, se respeitar acima de todas as coisas. E vai dar valor a quem seguir seu exemplo.

Amor não nos impede de partir.

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Tenho que admitir: eu não faço ideia do que fazer em relação a você. Se cada vez que me distancio, você me chama e eu cedo. Se cada vez que acho que te esqueci, você aparece e eu me apego. Ando tentando me afastar em passos rápidos, mas você sempre se põe em meu caminho. O problema de não sabermos nosso papel na vida de alguém é que, aos poucos, damos a esse alguém mais importância do que merecia. Houve uma época em que eu pensei que tudo valia a pena por amor. Mas como pode ser amor quando se faz às custas da felicidade dos outros? Aprendi que eu devia ser mais do que um parêntese na história de outras pessoas pra merecer um romance que valesse a pena.

Eu, simplesmente, amo você porque não há um dia sequer em que eu não pense em ti e vá dormir sorrindo. Não há nada que você me diga que não me faça torcer em silencio pra que isso te faça feliz. Eu amo você porque amor é quando a gente percebe que havia um vazio no meu peito que foi preenchido com a chegada de alguém. Eu amo você porque aprendi que amor é complacente, empático e nos faz completos, e tudo isso, eu sinto ao seu lado. Mas, às vezes, a gente tem que esquecer como nos sentimentos por alguém para nos lembrarmos quem merecemos ter.

Fracasso é quando você mantém um relacionamento ruim por medo de não ter um melhor e aceita menos do que precisa porque dúvida de si mesmo. O que mais nos impede de desapegar é a mania de cultivar esperança em cada detalhe. A gente precisa se livrar dessa espera pra se sentir livre. Às vezes, vale a pena ficar mais um pouco sozinho e tentar consertar sua bagunça de dentro do que partir em busca de abrigo em outro peito. Eu tenho pena de quem nunca chorou ouvindo uma música romântica ou nunca rio sozinho por não se sentir só, e não, daqueles que sofreram por amor. Eles foram corajosos por tentar. Só tenho dó por aqueles que são reféns do medo e desconhecem a força do próprio coração.

Muitas vezes, algo nos diz, bem lá no fundo, que se dermos espaço a pessoa pode eventualmente se afastar, esfriar o sentimento ou, quem sabe, nos esquecer. Então, a gente se agarra a essa insegurança pra justificar a dependência gerada. Nos sentimos no dever de não deixar que isso aconteça, de se fazer presente, de se importar e, sobretudo, evidenciar essa importância. E passamos a nos convencer que fazemos isso por amor, que é cuidado, carinho, que quem ama, faz questão de estar perto e quando discordam de nós julgamos ser falta de consideração. Acontece que, em outra perspectiva, o que fazemos é tentar convencer a pessoa a não nos deixar, provar a ela que merecemos sua companhia, que ela não vai encontrar alguém melhor porta afora.

Manter os pés no chão não nos impede de morar em outro coração. Muito pelo contrário, a gente aprende a diferenciar o que é real do que é real inventado. Convivo com a saudade diariamente, não luto contra, sabe? A gente se acostuma com algumas atitudes rasas e acaba por concordar que esteja tudo bem porque tem medo que a pessoa vá, que nos deixe. E nos parece que qualquer coisa seja melhor do que nada. Mas a verdade é que não é. É melhor perder a quem não esteja disposto a se entregar a ti do que ter ao lado quem vai lhe faz sentir sozinho. Mas você faz meu tempo se arrastar com a distância, e se te escrevo é porque, apesar de tudo, eu enlouqueço com sua ausência.

Parei de você.

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Parei de contar quantas vezes por dia decido te mandar uma mensagem, e perco a coragem quando vejo sua foto. E quantas vezes disco seu número e pouso o dedo no ar antes de te ligar, mas desejo com todas as forças que o universo conspire para que esteja pensando em mim. Parei de listar seus defeitos porque, ao invés de fortalecer sua ausência, fez eu me acostumar a eles e aprender a te aceitar.

A parte mais difícil é se conformar. Dói pensar que nem todo esforço foi capaz de manter alguém, que nem as mais sentimentais declarações lhe fizeram sentido. Mas depois que a gente entende que ninguém pode merecer mais do que se dispõe a dar, fica mais fácil diferenciar quem vale a pena de quem é perda de tempo.

Parei de dizer aos outros que ainda nos falamos para não ter que me justificar, já que sequer sei porque ainda insisto nisso. Parei de acreditar que ainda vamos nos encontrar e ficar juntos de alguma forma; acho que antes disso acontecer, eu mereço outra pessoa em seu lugar. Parei de me convencer que tivemos algo especial, que você não foi só mais um em minha extensa lista de tentativas tolas.

É uma espécie de vergonha, primeiro dos erros mais antigos que depois vai se aprofundando em discussões densas, pensamentos que quando foram ditos em voz alta e perderam a razão, e se apodera da gente. Sentimos vergonha não só de quem fomos, mas por quem nos submetemos a tanto, e por fim, de quem nos tornamos. Se alguém te faz sentir errado por ter se envolvido, com certeza, não era a pessoa certa pra te valorizar. Talvez até valha a pena, mas não pra você.

Parei de tentar entender quando foi que paramos de dar certo; aconteceu aos poucos ou de uma hora para outra? Parei de relembrar o quanto já fui feliz ao teu lado; acho que desgastei minha memória, já não sei o que foi real e o que foi criado. Eu parei de você, juro. E se me vir na rua, por favor, não me pare. Tenho pressa de recuperar o coração que já havia parado por ti.

Metades da laranja são apenas metades

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Por muito tempo, eu me sentia incompleta. Tinha a sensação de que faltava algo. A rotina diária já não tinha mais tanta graça, faltava emoção, adrenalina e experiências. E aí, quando estava me relacionando com alguém, a vida parecia agitar-se naturalmente. Encontros, expectativas, desejos. Havia uma fuga da realidade que eu depositava exclusivamente no outro. Ou melhor, no que o outro poderia me oferecer.

Na tentativa de suprir algo que faltava, escolhia alguém que só podia me dar metades. Que nunca estava por inteiro na relação. Por mais que eu me doasse inteiramente, o outro só podia me dar aquilo lhe era possível. É compreensível, já que, algumas pessoas tem certas limitações e sabem até onde podem se doar. A responsabilidade é individual e intransferível. No entanto, questiono aqui a minha responsabilidade. Era eu quem escolhia os mesmos tipos, mesmo que inconscientemente, achava melhor ter metades do que estar só.

Por medo da solidão, aceitava o que qualquer um podia me dar. E aí, quando não mais suportava migalhas, saía da relação ainda mais carente. Todos os caras que me envolvi, ao invés de deixarem um pouquinho do que podiam dar e de preencherem o que faltava em mim, pareciam me deixar ainda mais na falta. Quanto mais metades me davam, mais metade eu me tornava. Era um ciclo. Vicioso e desgastante.

De repente, depois de anos de análise, descobri que não há metades andando por aí. Eu não poderia ser metade, assim como não poderia aceitar isso dos outros. As pessoas são e estão completas. Elas só precisam se dar conta disso. Não há sentido em procurar a metade da laranja, a cara-metade, a tampa da panela e o queijo para a sua goiabada. Na grande maioria das vezes, tem-se todas essas opções em uma só pessoa. Basta que um esteja completo e satisfeito para que não haja necessidade de caçar metades.

Algumas vezes, é inevitável que o desejo de ter alguém para compartilhar se sobressaia sobre o não envolver-se com determinados tipos, em que o fim e o sofrimento já são previsíveis. É um aprendizado diário. Aprender a estar sozinha e a aceitar que não me falta pedaço algum. Na solidão, é possível descobrir ainda mais de você mesma. É um momento de preparação e autoestima para que, quando alguém vier acrescentar e nunca suprir, você saiba melhor como lidar.

Dessa forma, “metades da laranja” não virão mais ao meu encontro. Não é preciso metades para tornar-me completa. Estou pronta, inteira e intacta. Daqui para frente, só venha o que for para somar e não para dividir.

Afinal, contas de soma são muito mais fáceis do que as de divisão. Fica a dica.

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